Venezuela, que razão?

Vítor Ruivo

Procuro aqui formar opinião, observando alguns dos aspectos que enquadram a política venezuelana no seio do continente latino-americano e a nível mundial.

O agravamento da situação política e económica na Venezuela tem levado a numerosos posicionamentos dentro da chamada esquerda radical, em que, por entre diversas críticas entre si e ao governo venezuelano, se manifestam no essencial, ou a favor, ou contra esse governo.

Procuro aqui formar opinião, observando alguns dos aspectos que enquadram a política venezuelana no seio do continente latino-americano e a nível mundial.

 

A Venezuela no contexto da América Latina

 

Os diferentes povos e países das Américas, desde que o poder norte-americano se tornou dominante e hegemónico no continente, sempre o tiveram como principal inimigo do seu desejo de independência e emancipação social. Até hoje, os sucessivos governos dos EUA sempre consideraram esses países como o seu “pátio traseiro”, o seu “quintal”, cuja política e economia submeteram ao seu interesse explorador e imperialista, fosse através de intervenções militares directas, fosse através da imposição de governos ditatoriais e direitistas por via de golpes de Estado ou de eleições mais ou menos manipuladas.

Ambas formas de intervenção, “duras” – militares e golpistas violentas, e “brandas” – pela hegemonia cultural, económica (muitas vezes tão violenta como a outra) e dos meios de informação, estiveram sempre presentes na estratégia estadunidense.

Até aos anos 80 e 90 do século passado, as primeiras formas foram usadas abertamente: desde as guerras de expansão e conquista neocolonial do século XIX sobre o México, Cuba, Porto Rico, passando por uma série de intervenções militares directas ou de golpes de Estado conduzidos pela CIA, entre outros países, na Guatemala em 1954, no Haiti em 1959, no Brasil em 1964, no Uruguai em 1969, na Bolívia em 1971, no Chile em 1973, na Argentina em 1976, em El Salvador em 1980, no Panamá em 1989, no Peru em 1990… De todos eles resultaram milhares de assassinados, de torturados, de desaparecidos, em processos que hoje continuam sem verdadeira história e sem justiça completa.

Com a denúncia e o crescimento da contestação popular à brutalidade intervencionista e com a rejeição das políticas neoliberais assumidas pelos governos locais, passaram a ter maior aplicação as tácticas “brandas”, adoptando formas mais sofisticadas de manipulação mediática e até de falsa assunção de reivindicações populares. São exemplo a manipulação mediática pelas direitas no Brasil em relação à corrupção, o pretenso combate contra o tráfico de drogas no México, a chamada “defesa dos direitos humanos” em relação a Cuba. Sempre sob as instruções e apoio de vários organismos da administração norte-americana e de diversas ONGs suas subsidiárias.

O governo de Maduro, apesar dos erros e das concessões ao capital interno e externo, continua seguidor de Chavez e do chavismo, e faz parte daquele conjunto de governos e movimentos latino-americanos que desde fins do século passado procuram concretizar nos respectivos países políticas mais ou menos independentes do domínio norte-americano e do neoliberalismo e com preocupações sociais mais acentuadas. Nesse grupo podem-se considerar actualmente, embora padecendo de muitas inconsequências e retrocessos, a Venezuela, a Bolívia, o Equador, Cuba, o Uruguai, a Nicarágua e até recentemente, o Brasil e a Argentina.

Expressão desse desejo de independência foi a criação progressiva de vários organismos e alianças à margem dos EUA, em regra dinamizados pelos governos mais autonomistas e com maior ou menor capacidade realizadora, consoante a força e o apoio que têm conseguido em cada conjuntura política e económica. Entre outras estruturas, têm mais significado as seguintes:

O MERCOSUL (Mercado Comum do Sul) criado em 1991 por iniciativa do Brasil e da Argentina aos quais se foram agregando outros países, nomeadamente a Venezuela, a Bolívia e o Equador, e oscilando entre actividades próprias e a influência norte-americana.

O Banco do Sul, lançado em 2004 pela Venezuela, à qual se juntaram a Argentina e o Brasil e depois a Bolívia, o Equador, o Paraguai, o Uruguai e outros; embora a sua actividade esteja muito incipiente, a sua intenção é ser uma alternativa ao FMI, ao Banco Mundial e ao BID na concessão de empréstimos para grandes projectos.

Também em 2004 foi criada a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) por iniciativa de Cuba e da Venezuela, como reacção à ALCA, projecto que os EUA procuravam então impor.

A UNASUL (União das Nações Sul-Americanas), em perspectiva desde 2004, constituiu-se em 2008 incluindo a maioria dos países da América Latina e procurando ser um espaço de diálogo e convergência.

Em 2010 formou-se outra aliança, a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) procurando aprofundar a integração política, económica, social e cultural da região, também sob uma dinâmica independentista.

Ainda em 2005, foi criada a TeleSur (Televisão do Sul), com sede na Venezuela e por associação do seu governo com os de Cuba, Bolívia, Equador e Uruguai; o seu lema é “O nosso Norte é o Sul” e tenta ser uma alternativa à informação dominada pelos EUA e pelas suas alianças.

Os EUA têm insistentemente procurado derrubar, sabotar e destruir tanto esses governos como estas instituições, ao mesmo tempo que condicionam a política e a economia dos restantes países latino-americanos.

Assim, aproveitando o agravamento da crise económica internacional e o aumento das dificuldades internas e externas dos governos progressistas, têm continuado até aos dias de hoje a usar em simultâneo ora as tácticas “brandas”, por exemplo através de posturas da OEA (Organização dos Estados Americanos) que engloba os países da América do Norte e do Sul, ora as “duras”: golpe de estado fracassado na Venezuela em 2002, sequestro e demissão do presidente Zelaya, em 2009, nas Honduras, tentativa de golpe de estado no Equador em 2010, golpe de estado e demissão do presidente Fernando Lugo no Paraguai, em 2012.

Desde 2014, intensificaram as acções violentas e golpistas na Venezuela, no Brasil promoveram, no ano passado, o golpe parlamentar (sob a capa de impeachment) que demitiu a presidente Dilma e empossou Temer, e em Cuba, após a eleição de Trump, este fala em reverter o restabelecimento de relações e endurecer as medidas do bloqueio.

 

Qual é o perigo maior para o povo venezuelano?

 

Nada deste contexto é tido em conta pelas posições dos sectores da esquerda radical, que dizendo-se anti-imperialistas, defensores da independência e da emancipação dos povos latino-americanos, se concentram, no que respeita à Venezuela, no ataque aos erros, às concessões, à violência governamental e mal se referem ao intervencionismo norte-americano, que não parou um momento desde que Chavez ganhou as primeiras eleições em 1998.

Menos ainda denunciam a táctica e as acções da oposição, que tudo faz para aumentar o caos económico e o boicote ao acesso popular à generalidade dos produtos e dos serviços, com acções crescentemente violentas e servidas por uma enorme campanha e manipulação mediática, comandadas claramente pelos sectores da extrema-direita a mando dos EUA e que só pretendem o derrube violento do governo, recusando qualquer forma de diálogo.

Nada disso é denunciado por esses sectores da esquerda radical que só se preocupam com os males do governo de Maduro. Ao que parece, todos aqueles factos, desde a permanente estratégia imperialista dos EUA, passando por todos os seus crimes contra os povos sul-americanos, até aos objectivos e actuação da extrema-direita venezuelana, são coisa de somenos e passam a ser mera “retórica” quando a sua denúncia é feita pelo governo ou por quem o apoia, mesmo que de forma crítica.

Para esta esquerda, o grande perigo para os venezuelanos é o caminho caudilhista de Maduro e uma possível ditadura sua. Não cabe neste artigo fazer a análise dos governos dos vários caudilhos sul-americanos, nem o balanço entre os males por eles provocados e os das intervenções norte-americanas associadas às ditaduras e governos seus servidores. No entanto, no que respeita à situação presente na Venezuela, julgo que não há dúvida sobre qual a maior tragédia para o povo venezuelano: se essa hipotética ditadura do caudilho Maduro, se a certeza tantas vezes repetida de regimes de direita, ditatoriais e subservientes a todos os ditames do poder yanqui.

A tomada do poder pela direita e extrema-direita venezuelana significará, sem qualquer dúvida, a privatização completa da indústria petrolífera e o seu controlo pelos EUA, a privatização completa da indústria mineira e das maiores empresas e serviços do Estado, o retrocesso dos programas sociais e das estruturas de apoio e acção popular e dos direitos laborais, a permanência e o salto exponencial do endividamento público para gáudio da banca internacional e local (é exemplar o recente endividamento a cem anos do governo de Macri, na Argentina).

E quanto mais violenta for essa chegada ao poder pelas direitas, mais violento será o revanchismo sobre o chavismo e os seus defensores, maiores serão as prisões, as perseguições e as consequências sobre o povo em geral.

A certeza de que assim será deve ser encarada como uma fatalidade e algo que a história já banalizou e contra a qual não há agora nada a fazer? Já não vale a pena denunciá-la e combatê-la, por difícil e precário que seja esse combate? Quem é David e quem é Golias, neste enfrentamento? Ou os erros, as medidas retrógradas e a violência suscitadas pelo governo venezuelano invalidam quaisquer tentativas de resistir ao ataque permanente dos EUA e das direitas suas protegidas?

A única solução desejável é a renúncia de Maduro e eleições o mais rápido possível para que a vitória destas forças seja a tal certeza anunciada? Mesmo para os que assim pensam, é justo ignorar toda a acção de quem impiedosamente ataca e só assinalar os males de quem, com maior ou menor desnorte, se defende?

Há uma opinião na esquerda radical que parece ter invertido, nesta “peça”, os papéis do vilão e da vítima e que nem sequer consegue ater-se à chamada análise “imparcial” dos factos.

Então porquê, no caso do Brasil, se acha correcto concentrar a luta contra o governo entreguista de Temer e da direita, fazer corpo com os defensores de Dilma e de Lula nesse combate, e só perante as conciliações destes sectores e enquanto programa de alternativa futura lhes fazer a crítica e a demarcação de objectivos?

Esta atitude vale para quando a esquerda, menos consequente ou revolucionária, está ou passa a estar, por baixo, derrotada, mas já não vale para quando é governo? Mesmo quando é certo que a sua derrota será a vitória da extrema-direita e do imperialismo americano?

O caso da Venezuela é uma excepção ou também os actuais governos da Bolívia, Equador, Uruguai, Cuba, e os movimentos que os apoiam, estão condenados a sofrer uma crítica cerrada a todos os seus erros, enquanto são esquecidos o cerco e os golpes que o imperialismo e as direitas em cada país lhes provocam sem descanso? Será que, só depois de derrotados, fará sentido a solidariedade com os perdedores e a denúncia dos carrascos?

Claro que não só é justo como indispensável fazer a crítica e propor alternativas aos erros e retrocessos dos governos e movimentos latino-americanos que se pretendem defensores de uma política independente face aos EUA e crítica do neoliberalismo.

Parece acertado rejeitar as políticas de conciliação e conluio com as grandes burguesias nacionais, pontas de lança dos interesses do Império, assim como as políticas de alianças com pretensas burguesias nacionais que comungariam daqueles objectivos progressistas, e aceitar apenas a possibilidade de acções pontuais comuns quando sectores destas burguesias se descolam e insurgem contra as actividades mais agressivas ou hostis do intervencionismo estadunidense e dos seus servidores locais.

Mas todas as críticas e propostas alternativas só fazem sentido se tiverem como inimigo principal o imperialismo dos EUA e das direitas regionais e procurarem dar força aos movimentos populares e partidos que mais consequentemente os combatam no caminho de uma verdadeira independência e emancipação social na América Latina.

 

A Venezuela no contexto da luta anti-imperialista e anticapitalista mundial

 

Sob esta perspectiva, parece acertado acompanhar até ao fim, seja na derrota, seja na recuperação do projecto, pela crítica mas também pela solidariedade, a resistência de Maduro e dos chavistas à ofensiva imperialista. Não calar, antes intensificar a denúncia desta ofensiva, que continua tão destrutiva para os povos como antes, mesmo que hoje não se caracterize por intervenções directas militares dos EUA, mas pela intermediação do golpismo das direitas locais e por uma hegemónica campanha mediática internacional, cada vez mais sofisticada na manipulação dos factos e em fazer passar por verdade as maiores mentiras. Valorizar os repetidos apelos de Maduro ao diálogo, valorizar a convocatória da Assembleia Nacional Constituinte que respeita a Constituição, sendo que esta não especifica em pormenor quais as formas da sua concretização, mas que pode ser um meio para o enfrentamento político da oposição, caso esta não prossiga única e cegamente o caminho da violência golpista.

 

Não foi esta a táctica que esta esquerda adoptou para com o governo grego do Syriza? De alguma crítica, mas de grande solidariedade e denúncia intransigente da chantagem da UE, até que Tsipras capitulou perante essa chantagem? Não se batem palmas agora à subida de Jeremy Corbyn à presidência do Partido Trabalhista britânico e aos seus estimulantes resultados eleitorais, apesar de se tratar, até aqui, dum partido líder do social liberalismo? Ou não se depositam todas as esperanças na liderança de Bernie Sanders no ascenso do movimento popular nos EUA, apesar dele se encontrar integrado no Partido Democrático, um dos pilares do neoliberalismo e do imperialismo americano? Nas recentes eleições presidenciais francesas, não se achou inevitável votar em Macron, representante absoluto do neoliberalismo europeu, para evitar a vitória da Le Pen? Em Portugal, não se considerou uma brilhante manobra táctica negociar um acordo de apoio parlamentar ao PS, que apesar disso continua total seguidor das imposições e tratados da UE, para evitar que as direitas permanecessem no governo?

Porque vale esta postura para a luta da esquerda na Europa e nos EUA e já não vale para a Venezuela na América do Sul?

 

As opiniões da esquerda aqui em questão insurgem-se com muito escândalo face a todas as acções menos pacíficas do governo de Maduro e dos grupos chavistas seus apoiantes, como se essas acções não fossem uma tentativa de responder, mesmo que eventualmente incorrecta e contraproducente, à permanente campanha de violência e de provocações da oposição direitista que tudo faz para justificar o intervencionismo exterior e o derrube violento de Maduro.

Estas escandalizadas opiniões parecem estar na mesma onda dos posicionamentos que logo se demarcam e insurgem de cada vez que surgem mínimas acções de quebra de montras de bancos ou de incêndios de contentores, umas vezes espontâneas, outras de pequenos grupos, nas manifestações sociais ou sindicais por toda a Europa. Ou de todo o cuidado e moderação que são postos na crítica, tantas vezes débil e titubeante, às posições ultra-reaccionárias ou ultra cínicas da direita e dos governos liberais sobre os refugiados e as causas da sua tragédia, sobre o securitismo antidemocrático e repressor no pretenso combate ao terrorismo, sobre a validade dos serviços de espionagem ou de segurança, sobre o papel das forças armadas nos actuais regimes burgueses, ou da NATO, a aliança belicista mais agressiva no mundo.

Todo este tipo de posturas supõe uma sujeição e apego demasiado fortes ao formalismo democrático das burguesias liberais, como se não houvesse mais nada, nem nada pudesse ser debatido e experimentado em alternativa.

 

É caso para lembrar que a origem e a tradição desta esquerda está na demarcação face à reformista “coexistência pacífica” do revisionismo soviético, como na rejeição do paternalismo e da invasão a terceiros países só porque não aceitam sujeitar-se ao dictat “protector”. Como está também, no combate aberto e sem reservas contra o imperialismo americano, fosse nas magníficas manifestações de apoio às lutas de libertação do Vietname, da Coreia, das ex-colónias africanas, fosse na solidariedade com a Cuba de Fidel e Guevara e com as revoltas e guerrilhas insurgentes na América Latina.

 

Por isso hoje, esta esquerda faz bem em não depositar ilusórias e vãs esperanças em que a Rússia ou a China, potências já integradas no sistema mundial do Capital, ainda que rivais dos EUA, possam ter papel positivo e muito menos de liderança, na luta dos povos contra imperialismo americano ou contra a globalização capitalista. Sendo que esta luta tem tudo a ganhar se for capaz de usar em seu benefício as disputas existentes.

Mas bem fará também esta esquerda radical se, no seu afã demarcatório, “não deitar fora o menino com a água suja do banho”.

Seria um triste balanço, no tempo em que se valoriza e comemora o centenário da Revolução de Outubro.

07/07/2017


Imagem: openDemocracy – Venezuela. Alguns direitos reservados.

Sobre o mesmo tema neste blog: O paradigma bolivariano: reflexões antes do cantar do cisne (Rafael Boulair)Cair de Maduro (Luís Fazenda).

Anúncios