Cair de Maduro

Luís Fazenda

Há oito anos, escrevi, com outros, uma análise muito crítica do processo chavista na Venezuela (1). Ressalvei a generosidade da dita revolução bolivariana e a perturbação que representava para o imperialismo ianque, tudo o mais era contraditório com qualquer modo de transição ao socialismo, a corrupção e o petropoder não mudam a sociedade.

Recebi, então, muitas críticas, ou por ser uma espécie de desmancha prazeres de novas ilusões, ou por ser inflexível quanto a novos modelos cuja participação popular podia florescer.

Hoje, infelizmente porque se confirmaram as piores previsões, já não vejo nem ouço ninguém a apoiar o curso da Venezuela. Os últimos apoiantes, envergonhados, enrolaram as bandeiras quando o presidente Nicolas Maduro disse comunicar-se no além com o falecido Hugo Chávez. Mas a anedota da vida real encobriu questões mais sérias.

Já se sabia que a corrupção minava tudo, desde o topo do poder, com Chávez, depois com Maduro. Não há via para uma sociedade mais justa e igualitária sem um Estado limpo, protetor, participado e representativo. Não se caminha para o socialismo dispensando o Estado de Direito. Uma amarga lição do século XX. Também não se caminha para o socialismo dispensando a democracia.

Outra amarga lição do século XX. Chávez, apesar das maiorias eleitorais decidiu pôr o parlamento na gaveta, governando por decreto. Maduro seguiu-lhe as pisadas e ostracizou a representação popular, para além de outros atropelos a garantias constitucionais.

Ironia das ironias: hoje uma forte maioria parlamentar, que Maduro quer neutralizar ilegalmente, maioria provinda da direita e amiga de Obama, vai tentar fazer um referendo revogatório para acabar com o mandato de Maduro e encerrar a revolução bolivariana.

Não é difícil perceber que, qualquer que seja o resultado desse referendo, Maduro está condenado. Não vale falar da desestabilização imperialista quando a revolução morreu por dentro.

É de bradar aos céus o que sucedeu nos últimos anos, depois do esbanjamento público das receitas do petróleo, a contínua situação de penúria de alimentos e medicamentos, o racionamento prolongado de bens essenciais, sem guerra nem bloqueio externo que possam alegar como obstáculo.

Atualmente, face à falta de eletricidade, as autoridades desculpam-se com a seca que esvaziou as barragens hidroelétricas e tomam medidas de fechar os serviços públicos, exceto à 2ª e 3ª. Claro, a queda dos preços do crude complicou uma direção já em queda mas não justifica que o povo não tenha mais vontade de defender as suas efémeras conquistas, nem atribui competência ao executivo que em 17 anos não encontrou produções complementares ao “ouro negro” para segurar a despesa social.

Uma burguesia podre, tradicionalmente parasitária e vendida, está prestes a tomar o poder completo na Venezuela e pela via democrática. Reflexão necessária para todas as pessoas de convicção socialista, mas ainda mais, nem que seja uma reflexão silenciosa, para quem procurava em Caracas formar uma nova Internacional, e até houve um congresso para esses efeitos especiais.

Saudei sempre a combatividade de Hugo Chávez mas mais uma vez se provou que o voluntarismo não substitui os processos de mobilização democrática para a hegemonia na mudança social.


Imagem:  Joka Madruga – Eleições 2013 na Venezuela. Alguns direitos reservados.

Notas
1 – Luís Fazenda, Carlos Santos & Vítor Franco – Sem Chave para o Socialismo in A Comuna. nr. 14-15 (Março 2008). Disponível aqui.
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