Política securitária e ódio

Luís Monteiro

A 7 de fevereiro do presente ano, Eric Aeschimann, do Le Nouvel Observateur, entrevistava Jacques Rancière. Questionado sobre a omnipresença do tema da insegurança nas práticas discursivas e na praxis governativa que hoje se tornou símbolo, por exemplo, em França, o filósofo desenha uma linha orientadora que nos explica a relação da política austeritária com a guerra, o clima de medo e permanente sobressalto:

«Ele tende igualmente à constituição de uma identidade coletiva regressiva. O governo atual segue a lição de Bush: é como comandante-chefe que o governante gera maiores adesões. Perante o desemprego é preciso inventar soluções e enfrentar a lógica do lucro. Mas quando se põe o uniforme de comandante é tudo mais simples, sobretudo num país, onde apesar de tudo, o exército permanece como um dos mais bem treinados. O que os nossos governos melhor sabem fazer não é gerir a segurança, mas sim o sentimento de insegurança. É algo muito diferente, senão mesmo o oposto. Em novembro de 2005 [durante as revoltas dos banlieues de Paris], poder-se-iam ter evitado semanas de graves confrontos se o então ministro do interior [Nicolas Sarkozy] tivesse estado um pouco menos preocupado por fazer do sentimento de insegurança uma plataforma de lançamento do seu programa presidencial e tivesse tido um pouco mais de interesse em procurar formas de apaziguamento e diálogo apropriadas para garantir a segurança.»

Também aqui, em Portugal, há um debate urgente a fazer. A política de austeridade é, já de si, uma visão retrógrada e conservadora que impõe uma nova organização e um novo modelo social. É justamente esse novo modelo social que nos é imposto o responsável pelas novas fraturas sociais, que coloca pobres contra pobres, “brancos” contra “pretos” e cristãos contra muçulmanos. As questões culturais voltaram a surgir com a crise e o “combate ao terrorismo” não é mais do que uma tentativa de desviar o verdadeiro debate que marca estes últimos anos: a luta de classes não é coisa do passado e a relação do trabalho com o capital é a maior guerra social que hoje habita a Europa.

Com uma das constituições mais progressistas e socializantes da Europa, a comemoração dos 40 anos da Constituição da República Portuguesa é um marco importante. Marco importante não por mero saudosismo de um tempo do PREC que já passou, mas sim porque a defesa da Constituição representa, hoje, uma arma contra a política de austeridade e a possibilidade de aprofundar o Estado Social, imaginar uma economia ao serviço do povo e não ao serviço dos interesses da banca privada, planear um sistema produtivo capaz de responder às necessidades do país e não aos lucros dos privados. Não é um fim em si mesmo, mas é um bom ponto de partida para um debate sobre a hipótese socialista no século XXI.

Quase uma década depois do início da crise financeira, à esquerda impõe-se um debate sobre as novas configurações do capitalismo em crise, das direitas na Europa com a ascensão das soluções xenófobas e ultraconservadoras e, por sua vez, do papel do Estado Social na garantia de uma sociedade democrática, mais justa e mais igualitária.


Imagem: Alan English CPA – Non-violence – the Knotted Gun – United Nations. Alguns direitos reservados.

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