A desigualdade estudantil

Sara Schuh

O movimento estudantil tem sido, ao longo da História, uma arma de contestação e mudança. Facilmente conseguimos recordar momentos nos quais os estudantes foram fundamentais peças de combate à opressão: crise académica de Coimbra, em Portugal; Maio de 68, em França; caras-pintadas, no Brasil. Porém, ao longo das últimas décadas, o movimento tem desvanecido, apesar dos sucessivos ataques quer ao próprio sistema educativo, quer ao futuro das gerações de estudantes. Este desvanecer do movimento estudantil é um reflexo do próprio sistema educativo e das suas formas de exclusão.

Apesar da ligeira inversão de 2014 no sentido evolutivo do número de candidatos ao ensino superior, tendencialmente, vamos tendo menos estudantes nas universidades. A exigência do pagamento de propinas e a ineficiência dos processos de atribuição de bolsas de estudo levam muitos jovens a não considerar a hipótese de se candidatarem às universidades e politécnicos. Por este motivo, a luta contra as propinas é vital e só será possível reavivá-la com um movimento estudantil forte e ativo.

Não será coincidência o facto de, ao longo da última década, 2007 ter sido o ano que marcou o início do ciclo de recessão no número de candidatos ao ensino superior. Após o despoletar da crise financeira, em 2007, o panorama social mudou drasticamente.

desigualdade estudantil

Portugal está entre os países com maior taxa de desemprego jovem da UE. Só isto, à partida, desencoraja muitos jovens. Ainda assim, analisando os números do desemprego, estes indicam que apesar do trágico cenário que vivemos, é menos difícil encontrar trabalho sendo portador de uma licenciatura. Contudo, a questão que se impõe imediatamente a seguir à análise destes números, prende-se com o tipo de trabalho encontrado. Os sites de emprego estão minados de ofertas de estágios não remunerados, recibos-verdes, contratos mensais. A precariedade tornou-se a regra que nunca deveria sequer ter sido a exceção. E se assim o é, há quem deixe de (poder) considerar pertinente o investimento que implica um curso superior.

A tudo isto, acresce a apatia política. A abstenção entre os jovens é muito elevada e é fruto de um grande descrédito no sistema político, que não os estimula nem inclui nos processos de tomada de decisão. Este é, felizmente, um processo reversível, e passa por criar espaços nas escolas que promovam a inclusão dos estudantes nos processos de discussão e decisão, quer em assuntos inerentes à sua formação e funcionamento interno das escolas, quer em questões que vão além da educação. Estes processos dão-se de forma mais ou menos generalizada no ensino superior, mas no ensino secundário, os estudantes são vozes mudas.

Efetivamente, a luta estudantil não se pode esvaziar na questão das propinas. As desigualdades no acesso ao ensino superior têm raízes mais profundas. Nove em cada 10 alunos que chumbam são de famílias mais carenciadas. Basta fazer uma breve análise do ranking das escolas, para perceber que o desempenho académico está intimamente relacionado com as condições socioeconómicas dos alunos. Os colégios privados dominam os primeiros lugares do ranking e quanto às escolas públicas, facilmente se faz uma distinção entre as regiões mais e menos carenciadas quer das cidades, quer do país.

A escola pública é um pilar da democracia. A frase não é minha, mas é importante. A escola pública é uma ferramenta privilegiada no combate às desigualdades que o sistema capitalista nos impõe à partida. Mas está a falhar. Tem havido um desinvestimento gradual nas escolas, os professores estão sobrecarregados. O modelo de avaliação transformou as escolas em fábricas – há uma preparação intensiva, uma replicação, ao longo do ano, daquilo que são os exames. De forma genérica, deixámos de aprender a aprender para aprender a decorar.

As escolas, então, não conseguem quebrar os ciclos de pobreza. Pelo contrário, replicam e proliferam o modelo classista da sociedade; enfatizam o modelo neo-liberal e criam nos próprios estudantes uma ideia errada sobre si mesmos. Assim, as expectativas que o sistema e os alunos têm sobre si mesmos varia, também, com a sua condição socioeconómica.

É urgente revitalizar o movimento estudantil. E se é verdade que o movimento estudantil pode mudar o mundo, também é verdade que, para isso, precisamos de mudar as escolas. Temos de pensar para transformar. E transformar para viver.


Imagem: foto da autoria de Marlene Bergamo, imagem icónica do movimento #NãoFechemMinhaEscola (Brasil).

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