Sobre Mário Soares

Carlos Vieira e Castro

Mário Soares, o lutador que não se deixou fechar na gaveta onde metera o socialismo.

Mário Soares morreu no passado dia 7 de Janeiro. Há quem ainda o chore e quem o continue a odiar. Quando os adversários se confessam aliviados com a sua morte é a confirmação de que lutou até ao fim. Creio ter sido o caso de João Miguel Tavares que escreveu no Público: “Quando comecei a escrever artigos de opinião, em 2003, Mário Soares era já uma sombra do extraordinário político que esteve na primeira linha da luta pela democracia e pela liberdade nos anos quentes da revolução, e que nunca abdicou de sonhar com um Portugal europeísta. A guinada à esquerda da década final da sua vida é tão penosa quanto os últimos espectáculos de Amália, e tenho muita pena que tudo o que eu próprio escrevi sobre Soares tenham sido textos ácidos e críticas virulentas. Ele incomodava-me tanto mais quanto o seu presente me parecia em total contradição com o seu passado. O grande Soares, o maior político da democracia portuguesa, pertence a uma História à qual já pouco assisti – mas é lá que ele tem de ser procurado.”

Este é precisamente o melhor epitáfio que a direita lhe poderia ter escrito. Soares recusou fechar-se na gaveta onde enfiara o socialismo. Lutou até ao fim denunciando a capitulação da direita, e até de alguns seus camaradas, perante a Troika e o neoliberalismo, denunciou e lutou contra a guerra do Iraque e outros atentados ao direito internacional e contra os direitos humanos e é por essa lucidez e coragem (que já tinha mostrado na luta contra a ditadura que o prendeu e exilou) que eu o admiro. A direita gostaria apenas de o consagrar como herói da luta contra “a tomada do poder pelos comunistas” no PREC. O presidente da Câmara de Viseu, Almeida Henriques, no Correio da Manhã, até lhe chamou “Super-Mário” e “grande herói da democracia” apesar de “os erros graves cometidos no processo da descolonização”.

Ora, é precisamente sobre estes dois pontos que a direita se engana ou nos pretende enganar. O único erro grave na descolonização foi ter sido feita com vinte anos de atraso, depois de todos os outros países europeus terem dado a emancipação às suas colónias, e como resultado de uma guerra que já estava perdida na Guiné e a caminho da derrota inevitável em Angola e Moçambique. Não foi Soares, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, que “entregou as colónias”, como alguns saudosistas do colonialismo insistem em dizer; foram os militares de Abril que já não suportavam prolongar por mais tempo o conflito com os movimentos de libertação africanos e, contrariando ordens de Spínola (que queria uma federação, ao arrepio da História, e referendos nas colónias), fizeram o inevitável: libertar Portugal da ignomínia do colonialismo, porque “nenhum povo pode ser livre, enquanto oprimir outros povos”.

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Carlos Vieira e Castro, 2017.

Em segundo lugar, Mário Soares “não impediu a tomada do poder pelo PCP”, porque ele próprio não acreditava que Cunhal tivesse essa intenção, como prova a sua aceitação da manutenção do PCP no governo provisório, defendida por Melo Antunes, mesmo depois do golpe do 25 de Novembro, em que o PS se aliou à direita e à extrema-direita para travar o movimento popular e revolucionário (o inimigo comum) apoiado nas forças de esquerda defensoras de um socialismo mais efectivo e de uma democracia mais directa e participativa. Soares sabia que o social-imperialismo da URSS já tinha um “tratado de Tordesilhas” com o imperialismo dos EUA, abdicando da influência em Portugal a troco da influência nas colónias africanas. Vasco Gonçalves já tinha prestado vassalagem à NATO. Soares cedeu à pressão do Imperialismo americano (do seu amigo Carlucci, da CIA),e do MI6, do Reino Unido, e dos partidos sociais-democratas, em particular do SPD alemão, que receosos do forte movimento popular que impôs nacionalizações e a reforma agrária (“A terra a quem a trabalha!”) disponibilizaram armamento e apoio logístico à provocação político-militar que desembocaria no 25 de Novembro, cuja história ainda está por fazer, como afirmou recentemente, numa crónica na Antena 1, a historiadora Irene Pimentel.

Outro historiador, Fernando Rosas, no livro “Pensamento e Acção Política – Portugal Século XX (1890-1976)”, da Editorial Notícias, 2003, a propósito do 25 de Novembro, cita Melo Antunes (principal mentor do Grupo dos Nove) que afirma ter negociado com Álvaro Cunhal “uma contenção pactuada do processo revolucionário entre o PCP e o Grupo dos Nove do MFA, deixando razoavelmente à margem tanto o PS como as forças da direita e da extrema-direita, que não escondem a sua incomodidade ou a sua frustração”.

Também Pedro Pezarat-Correia, um dos signatários do “Documento dos Nove”, hoje Major-General na reserva e professor universitário, num artigo publicado no semanário O Jornal, em 7.08.87, intitulado «O que foi o “Documento dos Nove”?», onde manifesta a sua desilusão com o rumo que Portugal tomara depois do 25 de Novembro, com as prisões e “perseguições a militares de Abril e a sistemática recuperação de uma hierarquia militar que encara a democracia com uma atitude de incómoda tolerância”, confessa: “A principal crítica que hoje, passados 12 anos, continuo a fazer, não é ao texto, mas ao comportamento dos “Nove” depois do 25 de Novembro. Porque, tendo revelado serenidade e coragem na resistência ao aventureirismo revolucionário, não foram depois capazes de, com idêntica firmeza e determinação, enfrentar de forma consequente o golpismo subtil de direita, permitindo que se subvertesse, quantas vezes com atropelo da legalidade, o projecto progressista da Constituição de 1976. Com a sua tolerância, o poder veio sempre, desde 1976, a ser artificialmente empurrado para a direita, quando a maioria política e social afirmava repetidamente um posicionamento de esquerda. Não espantará por isso que também progressivamente o eleitorado se tenha vindo a deslocar para a direita. Mas não se confundam causas com consequências. As opções do poder por soluções de direita precederam sempre as vitórias eleitorais da direita.”

No primeiro Congresso a seguir ao 25 de Abril, em Dezembro de 74, o PS ficou dividido, com Manuel Serra, grande combatente anti-fascista (11 anos preso pelo assalto ao quartel de Beja), católico progressista, defensor de uma esquerda socialista e popular, a conseguir 44% dos votos. Se Soares não tivesse ganho, aliado aos sectores mais à direita do seu partido, quem sabe se essa corrente (que se esfumaria na FSP – Frente Socialista e Popular, criada por Serra) não teria evitado o golpe contra-revolucionário da direita e não teria logrado levar o PS para uma “geringonça de Abril” (em vez de ter governado em aliança com o PSD e com o CDS), o que talvez tivesse evitado as malfeitorias do cavaquismo e as armadilhas estendidas pela CEE que Soares criticou de “neocapitalismo” (na época o Programa do PS dizia que “o capitalismo é uma força opressiva e brutal”) antes de lhe cair nos braços. Provavelmente, governos de esquerda poderiam ter aberto outros rumos para o país, sem se fechar em si próprio mas sem cair na armadilha do capitalismo europeu. Ou, pelo menos, mesmo nesse quadro, Governos do PS com influência e apoios à sua esquerda teriam evitado parte das armadilhas, aproveitando melhor os fundos comunitários (sem a corrupção e o compadrio que os desbaratou) e promovendo um desenvolvimento mais sustentável e sem os desequilíbrios territoriais que levaram ao subdesenvolvimento e ao despovoamento do interior, o que nos transformou no país da Europa com mais autoestradas e com maiores desigualdades salariais e sociais.

Mas a História, normalmente, é escrita pelos vencedores e não pode ser refeita. Da mesma forma que a luta heroica de Álvaro Cunhal contra o fascismo não me faz esquecer a sua cumplicidade com a deturpação revisionista do “socialismo real” e a sua confissão de que se tinha dado conta da degenerescência da URSS mas que não a denunciara para não dividir o movimento comunista internacional (como se este já não estivesse dividido com o “cisma sino-soviético”), também não posso deixar passar em branco a opção ideológica e de classe de Mário Soares, que se aliou à direita político-militar para barrar a revolução popular que eclodiu após o golpe militar de 1974 e desmantelar algumas das mais importantes conquistas do 25 de Abril, como a Reforma Agrária e as nacionalizações, apesar do seu papel destacado na luta contra a ditadura, de nele ter votado para derrotar candidaturas de direita e dos muitos combates em que estive ao seu lado pela democracia, pela emancipação dos povos, pelos direitos das mulheres, contra a guerra e pelos direitos humanos.

Não foi pouco. Mas soube a pouco ver de novo “Portugal amordaçado” ao fim de ano e meio de revolução.

Como diz o José Mário Branco:

Quando a nossa festa se estragou

e o mês de Novembro se vingou

Eu olhei pra ti

E então entendi

Foi um sonho lindo que acabou

Houve aqui alguém que se enganou

Quem se enganou?… povo que ousou a Revolução? Os militares de Abril presos a seguir ao 25 de Novembro? O Grupo dos Nove (pressionado pelo PS, com o apoio do PSD e do CDS, segundo Mário Tomé, citado por Pezarat-Correia, no artigo acima referido)? Ou Mário Soares?…

Enquanto a História não der uma resposta definitiva, qualquer epitáfio é provisório.


Imagem: Peters, Hans / Anefo – Mário Soares em 1975. Alguns direitos reservados.

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