Eurovisão: noite humilhante

Vítor Ruivo

Ontem, dia 12 de Maio, a solidariedade com a causa palestiniana foi fortemente humilhada. A representante israelita no festival Eurovisão da canção saiu vencedora. Dupla humilhação: pela vitória do terrorismo de estado e por ser em Portugal essa vitória.

Foi irrelevante o apelo de votação zero nessa canção que, ao que pude saber, foi lançado por um grupo de cidadãos de Israel contrários ao regime de apartheid que aí vigora contra os palestinianos. Ainda mais irrelevante quando foi o voto do público que deu a vitória a Israel, dado que o júri lhe atribuiu o terceiro lugar.

Humilhação e repulsa que me levam a algumas reflexões. Sem pôr em causa a boa intenção dos promotores do boicote, nem a falibilidade do que digo, dado o meu pouco conhecimento dos contornos e de outros reflexos da iniciativa, o fracasso do resultado parece supor que talvez pudesse ter sido outra a forma do protesto para lhe dar mais voz e visibilidade.

Por exemplo, o acto público no momento da subida ao palco da cantora, como foi a acção simbólica, ainda que isolada, do cidadão inglês perante a sua canção. Talvez um bom grupo de manifestantes, com consignas ajustadas e claras, tivesse uma repercussão mais forte, pois, tanto quanto sei, a acção realizada limitou-se a ser levemente mencionada em alguns jornais que noticiaram a vitória israelita. Levantaria uma polémica bem maior, em que os yes-man do costume repetiriam a mentira de que “a política não tem nada que se meter num festival de música”, quando a participação de Israel, a promoção da canção, etc., é nisso mesmo que consiste com todo o incentivo do poder israelita e dos seus tentáculos também em Portugal. Mas em que a razão de ser do boicote poderia ficar muito mais presente, debatida e explicada, junto da opinião pública nacional e europeia.

Naturalmente, isto é apenas um “suponhamos” de quem se sentiu dupla, triplamente, humilhado e impotente. Para o futuro ficam outras perguntas de quem, do lado da solidariedade palestiniana, põe trancas na porta depois da casa arrombada, mas no desejo de que antes tarde do que nunca.

Porque nunca até hoje foi questionada, de forma visível e crescente, a participação de Israel neste festival da canção? Ao que eu saiba, nem em Portugal nem no resto da Europa. Por ser um festival do “mainstream” do lucro e do euro-canconetismo rasca? Mas, ainda assim, ele tem uma repercussão grande em vastas populações europeias e mesmo portuguesas. Não teria, de há uns anos até aqui, nas elites da esquerda nacional, mas isso não deveria levá-la a ignorá-lo como se fosse inócuo. Ainda mais quando essas mesmas elites vibram e irmanam-se com o povinho quando se trata mesmo do clubismo futebolístico mais ignorante.

Festival, aliás, que não foi nada ignorado, antes pelo contrário, com a participação de Salvador Sobral, talvez porque, para além da qualidade da canção, até é um rapaz “cá dos nossos”. Mas cuja realização este ano no nosso país, deveria ter alertado, pelo menos agora, para os interesses políticos e os seus efeitos nada colaterais. Por isso, é triste que o repúdio ao terrorismo israelita e a solidariedade com a Palestina, no que respeita ao euro-festival, se tenha limitado àquela iniciativa. Nem mesmo o anunciado favoritismo da canção israelita e a sua suja manipulação da luta feminista e das injustiças sociais, despertaram esses vários activismos para levar o seu repúdio até ao questionamento da opinião pública e da própria organização festivaleira.

Lamentável que tantos organizadores, apresentadores, comentadores, tudo tão inteligente, tão in e prá’frentex, tenham olimpicamente ignorado o colonialismo e os crimes israelitas, mesmo nas barbas dos assassinatos que, na fúria do momento, estão despudoradamente a cometer sobre as martirizadas populações aprisionadas na faixa de Gaza. O pacóvio deslumbramento de quem pensa que também é gente só porque, lá de longe em longe, os donos disto tudo lhe dão um ossinho a roer, para que eles possam continuar a abancar-se com o porco do dinheiro e do poder, também ajudou bem a esta cegueira indesculpável.

Patética a presença de Caetano Veloso, encantado a rever-se no jovem Sobral (que este, ao menos, ainda achou horrível a canção vencedora), mas repetidamente cego, ou vesgo, para parte da realidade do mundo que o rodeia.

Humilhado me confesso, mas cego e impotente não.

 

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