Vasos comunicantes entre a direita e a extrema-direita

Luís Fazenda

“As políticas neoliberais estão a dar as últimas” (Noam Chomsky, 2017)

Participei recentemente numa reunião de partidos de esquerda, de diferentes proveniências europeias. O sinal mais saliente, em muitos países, e isso foi relatado com horror, é o estabelecimento de alianças eleitorais, ou parlamentares e de governo entre partidos de direita e de extrema-direita.

A direita a que muitos se referiam como a “direita democrática” não tem hoje pejo de se relacionar e elaborar programas de governo e caminhos de poder em comum com forças abertamente reacionárias.

Façam a lista: Noruega, Suécia, Dinamarca,Finlândia, Polónia, Áustria, Hungria, Chéquia está quase, Roménia espera-se também esse desfecho, Bulgária, Itália onde temos o espetáculo em direto nestes dias, são casos declarados.

O novo líder da direita republicana francesa, Laurent Wauquiez, exibe um programa semelhante ao de Marine Le Pen da Frente Nacional. A evolução dos “tories” britânicos passa por um perigoso pântano de nacionalismo exacerbado cuja saída deixa indeterminação sobre o caráter ideológico do próprio partido.

É certo que outros países resistem ainda à tendência, havendo situações com fortes partidos reacionários, embora isolados, como a Holanda, por exemplo, e outras realidades, como Portugal, onde não é o caso atualmente.

É um facto, bem aplaudido pelos media de referência, que os liberais de Macron se aguentam ainda, tal como os democrata-cristãos de Merkel. Curiosamente, esse continuísmo das “políticas neoliberais” no eixo franco-alemão foi feito à custa do esvaziamento dos social-democratas, cujos restos foram anexados pelo poder, apesar de modos diferentes. Os liberais lamentam o avanço das direitas radicais e culpam-nas pela paralisia do espaço económico europeu e da zona euro. Os ultra, por seu lado, apontam o dedo a Bruxelas e avisam Macron e Merkel que não querem mais integração europeia. A discussão da reforma do euro é uma anedota prima e exemplo das tensões entre uns e outros. A pouco e pouco, lá se vai o projeto do grande mercado, tão acarinhado por gerações de neo-liberais.

O que vemos na vizinhança da UE, na Turquia, na Ucrânia, na Rússia, ou até na Sérvia, dificilmente responde como democracia, apesar de haver eleições. São regimes todos assentes em fórmulas nacionalistas e autocráticas, não tendo rigorosamente nada em comum com o cosmopolitismo liberal.

O projeto do livre comércio atravessa dificuldades globais, mesmo que a UE tenha chegado a acordo com o Canadá, mesmo que a China procure contrariar Trump e o America First. A mobilização de massas contra as migrações encobre amiúde as tentativas protecionistas de refrear mercados abertos. Infelizmente, é mais disso que esperamos, com cenários violentos de diversa índole, enquanto as esquerdas populares não alterarem as relações de forças, abrindo a via de maiorias progressivas e democráticas.

Os social-democratas, em desespero viram-se agora para Merkel como o último refúgio. Santificar Merkel e levá-la no andor e achar que ela representa o futuro da Europa só pode ser um desastre iminente. Não foram essas políticas que nos trouxeram até ao inferno dos ultras? Pior ainda para os partidos de esquerda que, em maior desespero, se querem juntar aos restos dos social-democratas.

As burguesias aprenderam, com a crise do capitalismo desde 2008, os limites do neo-liberalismo. O nacionalismo passou a ser a receita para manter o poder. A qualidade e o grau de cada nacionalismo exposto dependem da condição económica particular dos povos e das tradições políticas variadas. Sem surpresa, o nacionalismo reacionário carcome as liberdades. A Espanha prendeu um rapper por três anos simplesmente por censurar a monarquia!

Essa cultura de vasos comunicantes à direita era previsível há vários anos. Subestimar o avanço dos ultras deixou grande parte da esquerda europeia desorientada, como tenho observado com frequência.

Há alguns meses, uma comunista espanhola teimava em chamar neoliberal a políticas fascizantes em países do grupo de Visegrado. Perante a minha estranheza, disse-me que isso não fazia diferença pois até o Pinochet, ditador fascista chileno, tinha aplicado
o neoliberalismo… Note-se que o interesse real da Escola de Chicago pela ditadura militar não a transformou num regime económica e politicamente liberal. Será que a China Popular que também utiliza políticas de mercado é o exemplo do neoliberalismo no mundo?

É do senso elementar, não é especialmente brilhante admiti-lo, que o neoliberalismo precisa de liberais, de partidos que conduzam o neoliberalismo, liberais, conservadores democratas e social-democratas? Da mesma forma que não há socialismo sem socialistas, não há liberalismo sem liberais (qualquer que seja a escola). Lá porque Trump aprovou um brutal desagravamento fiscal do capital nos States, isso não faz dele um arquétipo neoliberal! A política de classe não pode desligar a economia do projeto do poder político.

Naomi Klein, com trabalho notável na denúncia do trumpismo, pretende contudo que os ultra-conservadores sempre foram neoliberais, os outros, os liberais e social-democratas é que durante um tempo pediram de empréstimo o neoliberalismo. Naomi hesita em considerar o neoliberalismo uma ideologia, apodando-o de projeto económico. Digamos: é a persistência num equívoco. A fixação por fórmulas ultrapassadas pela vida embota sempre a perspetiva geral, mesmo até que isso não retraia no imediato a luta contra a burguesia, tem como consequência uma miopia patente para as respostas de massas (chamem-lhes populistas) que se preparam nas costas dos trabalhadores e contra eles.
Em muitos lugares da Europa, enquanto a luta contra as privatizações é uma pequena luta de resistência, os apelos xenófobos conduzem a ações de massas de larga escala. Atribuir o nacionalismo ao neoliberalismo parece saído de uma teoria da conspiração pouco séria. Para preparar as lutas contra o bloco ultra de direita e extrema-direita, temos de começar por alertar ao que vêm: capsular a democracia, blindar o rentismo, organizar a violência. A oligarquia capitalista sela e manda.

Há uma mudança de qualidade nas políticas capitalistas, não é simplesmente um liberalismo um “bocadinho pior”. A essência do neoliberalismo tem a ver com o fundamentalismo de mercado, mesmo que em parte tal seja uma ficção, tem a ver com as multinacionais tomarem o lugar do estado. A essência do ultraconservadorismo tem a ver com a reação política, mesmo que a fachada democrática seja uma ficção, impõe a xenofobia e o austeritarismo.

As privatizações só por si não definem um regime, como as nacionalizações só por si também não. A luta de classes comporta a leitura de várias pautas económicas, mas não depende delas, apenas das vontades de classe dominantes e dominadas.


Citação de Noam Chomsky – Otimismo e não desespero, 2017, Elsinore, pag.14; “Ainda assim as políticas neoliberais estão a dar as últimas. Como acabaram por ferir os mais poderosos e privilegiados, que à partida só as haviam aceitado parcialmente para si próprios, já não poderiam ser consideradas sustentáveis”

Imagem: Matteo Salvini.

Anúncios