O Interior a ver passar os comboios…

Carlos Vieira e Castro

Esta falta de vias férreas competitivas na ligação à Europa provoca um aumento dos custos de transporte de/para o principal mercado externo, a UE.

No passado dia 20 de Maio, a Proviseu – Associação para Promoção de Viseu e Região, organizou um debate sobre Acessibilidades Rodoviários e Ferroviárias à Região Centro que contou com a participação técnica de Jorge Paulino Pereira, engenheiro e  professor de Vias de Mobilidade Urbana e Transportes, no IST,  Mário Lopes, engenheiro e professor de Engenharia de Estruturas, Território e Construção, no IST, Henrique Teles, engenheiro no Gabinete de Estudos e Capacidades na IP – Infraestruturas de Portugal.

A ligação Viseu-Coimbra, duas das principais cidades da Região Centro, a par de Aveiro, só é servida por um via rodoviária obsoleta, o IP3, abusivamente apelidada de “via rápida”, já que foi construída com troços sinuosos, inclinações que chegam aos 7% e na maioria do traçado com um perfil transversal de 2+1 vias, o que, aliado ao intenso tráfego (18 mil veículos/dia) e elevada percentagem de pesados, lhe confere um nível de sinistralidade absoluto elevado: uma média anual de 6 vítimas mortais, sem contar com feridos e estropiados.  As regiões afectadas começam a ficar fartas da política de “passa culpas” sempre que muda o governo, sem verem avançar uma solução satisfatória para as populações e para as empresas que utilizam esta “estrada assassina”, como já foi alcunhada. PSD, CDS e PS defendem a construção de uma nova auto-estrada, paralela ao IP3, portajada, ficando o IP3 como alternativa sem portagens. O Bloco de Esquerda tem defendido, na Assembleia Municipal de Viseu e em comunicado conjunto das distritais bloquista de Viseu e Coimbra, a requalificação do IP3, como prioritário, argumentando que em fevereiro de 2014, o secretário de Estado das Infraestruturas do anterior governo, Sérgio Monteiro, disse, em entrevista ao Jornal do Centro, que “se tivermos um IP3 requalificado e ao lado uma auto-estrada, ninguém vai pela auto-estrada e, portanto, não haverá privados que a queiram fazer”. Donde se infere que com um governo de direita tão cedo não teremos um IP3 requalificado para não prejudicar a empresa privada que ficar com a construção, concessão e exploração da auto-estrada. Quem não puder pagar portagens, continuará a arriscar a vida no IP3.

O Bloco de Esquerda foi a única força política a contestar “a privatização do IC12” no projecto da chamada “Via dos Duques” que passava por entregar de mão beijada a privados esta via com perfil de auto-estrada que liga Canas de Senhorim a Santa Comba Dão, passando por Carregal do Sal, como contrapartida do seu prolongamento até Mangualde (A25) e prolongamento da A13 (que hoje termina em Coimbra Sul) até à Barragem da Aguieira. No debate da Proviseu, o eng. Jorge Paulino contestou a defesa das PPP rodoviárias feita pelo deputado do CDS, Hélder Amaral, presidente da Comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas da AR, classificando-as como “uma fraude, uma forma de arranjar dinheiro para os privados”.

O investimento no IP3 foi considerado prioritário no Plano Estratégico dos Transportes e Infraestruras – PETI 3, logo a seguir ao túnel do Marão. Acontece que, como lembrou o Eng. Mário Lopes, Portugal já tem uma boa rede de auto-estradas e vias rápidas, pelo que a União Europeia (UE)  já não as financia, com excepção de “missing links” (ligações que ficaram esquecidas) e  casos especiais devidamente fundamentados. Ora, este é precisamente o caso da ligação Viseu-Coimbra, com a finalização do Itinerário Principal da Beira Litoral, entre Vila Verde da Raia e a Figueira da Foz, que esbarra com a dificuldade em atravessar a Serra do Buçaco.

“À espera do comboio na paragem do autocarro…”

Outra das reivindicações dos viseenses é a ligação ferroviária que a capital do distrito perdeu quando em 1990 se encerraram duas linhas: a Linha do Dão (inaugurada em 1890), entre Viseu e Santa Comba Dão, onde entroncava na Linha da Beira Alta (inaugurada em 1882), recentemente transformada numa enorme ecovia,  e a Linha do Vale do Vouga (concluída em 1914), entre Espinho e Viseu, também já condenada a ciclovia, sendo recorrente o queixume de que Viseu é “a única cidade média da Europa continental que não é servida pelo caminho de ferro”.  Também aqui, o BE tem tido uma posição inovadora e construtiva, propondo uma solução exequível a curto prazo: a ligação, no horário dos comboios intercidades, por mini-autocarro, da Central de Camionagem de Viseu à Estação da CP de Mangualde (17 km, através da A25, em 15 minutos; mais rápido do que ir de Sete Rios a Santa Apolónia). Esta proposta sempre foi rejeitada pelos presidentes da Câmara de Viseu, tanto pelo anterior, Fernando Ruas, como pelo actual, Almeida Henriques. Foi, pois, com surpresa, que, aproveitando este debate para relançar a proposta, vimos esta a ser defendida pelo engº Mário Lopes, por Hélder Amaral e pelos presidentes das câmaras municipais de Viseu e Mangualde, Almeida Henriques e João Azevedo (que participaram no debate aberto), acabando por ser incluída nas conclusões do Debate. “Água mole em pedra dura…”

O eng.  Jorge Paulino demonstrou o atraso ferroviário de Portugal, o único país da UE que faltou ao Belt and Road Forum for International Cooperation que teve lugar em Pequim, em 14 de Maio último, e reuniu 140 países, onde se definiram seis futuros corredores económicos (tapetes rolantes) que terão a ferrovia como meio de transporte de mercadorias.  Corremos o risco de ficar dependente dos portos espanhóis (o Porto de Vigo e 3 portos secos). Cerca de 70% do comércio internacional de Portugal é com a UE, mas mais de 80% (em valor) é feito através da rodovia, que tem tendência a perder competitividade devido aos constrangimentos ambientais e energéticos. No entanto, a ferrovia portuguesa também é pouco competitiva para o tráfico internacional de mercadorias devido a “falta de inoperabilidade” com as outras redes, principalmente por causa da bitola ibérica (1.668 mm), mais larga do que a bitola standard europeia (1.435mm). Hoje, os comboios portugueses não entram em França e dentro de alguns anos nem em Espanha poderão entrar, o que transformará Portugal numa “ilha ferroviária”.   Esta falta de vias férreas competitivas na ligação à Europa provoca um aumento dos custos de transporte de/para o principal mercado externo, a UE; perda de competitividade da nossa economia; perda de capacidade de atracção de investimento e a consequente deslocalização de empresas, aumento do desemprego e aumento das diferenças de nível de vida em relação à UE.

O eng. Mário Lopes chamou a atenção para o facto de a Espanha e a França estarem a investir muito dinheiro para retirar camiões das estradas. O País Basco terminará em 2019 a Linha “Y” que liga Burgos-Vitória (Gasteiz)-Bilbo-Pamplona-Donostia-Bordéus e retirará da estrada mais de 6.500 veículos por dia (a fronteira com a França é atravessada por cerca de 9 mil camiões/dia). A Suíça também está a construir um túnel ferroviário de 57 km para retirar camiões da estrada. A Espanha já construiu, desde 1988, cerca de 3 mil km de linhas em bitola europeia. Portugal, nem 1 km construiu. Bastará que a Espanha ou a França apliquem “uma simples taxa sobre o transporte rodoviário para provocar uma queda abrupta da competitividade no Centro e Norte de Portugal, condenando estas regiões ao isolamento económico e à pobreza”. E aqui surge a grande questão estratégica: valerá a pena investir 642 milhões de euros (sendo que 60%, 388 M€, serão financiados pela UE) na nova linha Aveiro-Vilar Formoso-Salamanca?… O governo já candidatou esta linha a financiamento comunitário. Depois de um primeiro chumbo por a CE considerar que haveria duplicação (concorrência) com a Linha da Beira Alta e de a análise de custos e tráfego ter sido negativa, o governo recandidatou novo projecto, sublinhando a importância desta linha para o Porto de Aveiro e o transporte de mercadorias a partir de Leixões.

Mas há estudos da IP que apontam  para a capacidade de a Linha da Beira Alta modernizada (que no PETI surgia como primeira prioridade em relação à Linha Aveiro-Mangualde) poder servir de alternativa para as próximas décadas, com a circulação de comboios de 750 metros (maior capacidade e menor custo de fretes) e 1.400 toneladas (após a redução de pendentes), 39 comboios diários, com contentores marítimos de 12 toneladas e capacidade para receber carga de rodovia (caixas e contentores), o que leva a própria CE a não encontrar justificação para o investimento adicional de 2 mil milhões de euros numa nova linha (Aveiro-Salamanca).

Parece que o governo do PS, embora não o assuma publicamente, está mais inclinado para esta última hipótese, antecipando um novo chumbo europeu.

As decisões políticas têm de se estribar em fundamentos técnicos e estratégicos e não nos interesses locais e regionais, ou até partidários, que muitas vezes se entrechocam, como é o caso do alinhamento dos municípios de Aveiro, Porto e Viseu na defesa da Linha Aveiro-Vilar Formoso, enquanto Coimbra, Santa Comba Dão e Mangualde se satisfazem com a modernização da Linha da Beira Alta. Quer-me parecer que qualquer solução não exclui a outra. Se a linha Aveiro-Vilar Formoso-Salamanca-França é estratégica para a nossa economia, também não deixa de ser fundamental preservar e modernizar a Linha da Beira Alta, “o eixo ferroviário mais importante do país, principal acesso por caminho de ferro entre Portugal e a Europa” (engº Jorge Paulino), dado a sua importância para as populações do interior da região Centro e para a necessidade de retirar veículos (incluindo camiões) das nossas estradas. Sem esquecer, naturalmente, a electrificação da Linha do Douro, a requalificação da linha do Tua e a reabilitação do troço Covilhã-Guarda, da Linha da Beira Baixa que, como admitiu o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, é essencial para o desenvolvimento económico do interior Centro e Norte, uma vez que irá permitir libertar a capacidade de exportação de toda a Beira Baixa e potencializa a modernização da Linha da Beira Alta. Para bem do país, do interior Centro e Norte e do Ambiente.


Imagem: Um dos típicos letreiros de trânsito dos comboios portugueses com “Pare, escute, olhe”. CC BY-SA 3.0.

Anúncios