A tecnologia ao serviço da humanidade

Pedro Celestino

Alguns até sugerem a introdução de um rendimento básico incondicional (Elan Musk), ou a taxação do trabalho dos robôs (Bill Gates), mas nenhum sugere que se socialize aquilo que na verdade é produzido por todos e deve servir todos de forma democrática e comunitária.

Nos próximos anos, vamos assistir a um rápido processo de substituição de trabalhadores por maquinas autónomas para fazer o mesmo trabalho, mas com muito pouca, e em alguns casos quase nenhuma, intervenção humana e a custos marginais. Não vai ser o fim do trabalho para as pessoas, mas vai ser a quase extinção de certos tipos de trabalho como os transportes, a produção industrial, serviços de call-center, produção agrícola… entre muitos outros, muitos dos quais com protótipos funcionais e alguns deles que até já têm no terreno uma implementação básica e provisória.

Se por um lado parece óptima a noticia de que podemos despender menos tempo nas obrigações e dedicarmos-nos mais àquelas atividades de que gostamos sem perdermos nada com isso (basta diminuir o horário de trabalho, ou aumentar o tempo de férias). Por outro lado, são notícias que ultimamente nos têm aterrado com o medo de não haver empregos suficientes que nos permitam aceder aos mesmos produtos e serviços, que futuramente serão feitos maioritariamente por máquinas, a custos que continuamente se aproximarão de zero, como o próprio Elan Musk afirma. A grande questão é, como pode toda a gente beneficiar de coisas e serviços, que serão produzidos a custo progressivamente a aproximarem-se de zero, se estes continuam a ser uma fonte de lucro, e não nem há empregos que garantam a possibilidade de os pagar?

Estamos no cerne do problema, a concentração cada vez maior de recursos, materiais ou intelectuais, na mão de quem não os disponibilizará de forma democrática, mas que são necessários ao progresso da condição humana. Apesar de toda a riqueza ser criada colectivamente, a maior parte dos frutos dessa riqueza fica para apenas alguns e se até agora esse alguns até necessitavam dos outros mais pobres, para lhes produzirem a comida, a roupa, transportes etc… cada vez menos existe essa necessidade. Alguém que seja rico e tenha a maioria das suas necessidades satisfeitas por AI, drones e outros autómatos também não tem necessidade de ter quem lhe venda o seu trabalho.

O problema já está presente actualmente, a uma escala muito mais pequena, em coisas como a obsolescência programada, ou a competição entre centenas de produtos (como telemóveis) virtualmente iguais ou que com apenas pequenas diferenças no preço de produção poderiam ser todos de topo e qualidade. Isto são provas de que o problema já existe e que já sofremos com ele, imaginemos se aumentar exponencialmente. E como consequência existe a necessidade de se estar sempre a criar novos produtos, serviços e tarefas, de se ser empreendedor e de haver um batalhão de novos empregos que só fazem sentido numa lógica de competição e exploração capitalista, mesmo que o planeta que nos sustem seja o preço a pagar de tanto empreendedorismo e crescimento económico. O status quo tentará dizer que repetir estes erros é o caminho a seguir. Alguns até sugerem a introdução de um rendimento básico incondicional (Elan Musk), ou a taxação do trabalho dos robôs (Bill Gates), mas nenhum sugere que se socialize aquilo que na verdade é produzido por todos e deve servir todos de forma democrática e comunitária.

E ainda mais flagrante é que é muitas vezes com dinheiros públicos que a investigação científica e tecnológica de ponta é feita, seja por fundos (públicos) europeus, contratos militares, por parcerias com a FCT, por investigações feitas em universidades públicas ou por investigadores e engenheiros formados nestas mesmas universidades, ou outras modalidades. Para além disso, coisas como o treino realizado pelos computadores: somos nós que o fazemos, com a nossa interação e com os nosso dados pessoais, cada vez que pesquisamos na net, utilizamos o tradutor do Google ou chamamos pela Siri. E ainda por cima desenvolvem estes serviços usado o lucro que extraíram da sociedade, para que possam extrair ainda mais.

Mais do que nunca o conhecimento deve ser livre e a tecnologia deve estar ao dispor de toda a gente, sendo socializada e os seus produtos democraticamente controlados, para que todos juntos possamos transformar o mundo actual num mundo melhor, onde todos trabalhamos menos, desenvolvermos-nos mais, e melhor apreciamos a vida.


Imagem: Steve Jurvetson –  Caught CodingAlguns direitos reservados.

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