25 de Maio: dia global de solidariedade com os presos palestinianos

Vítor Ruivo

Será o 39º dia da greve de fome de 1500 presos palestinianos, entre os 6500 que estão nos cárceres israelitas em luta para que os direitos humanos sejam minimamente respeitados nas condições prisionais em que se encontram, muitos deles em regime de solitária, sem acusação nem julgamento, sem visitas, nem consultas médicas. As autoridades israelitas, apesar da solidariedade que se tem manifestado um pouco por todo o mundo e pelas manifestações da população palestina, têm reprimido estes protestos, provocando já dois mortos e mais presos, e não abrandaram a situação prisional, deslocando e isolando ainda mais alguns dos presos mais activos e conhecidos. 

As associações palestinianas que promovem o apoio aos presos em greve apelam ao reforço da solidariedade internacional tendo apontado para o maior número de acções na próxima quinta-feira e sugerindo a realização de simbólicas greves de fome nesse dia.

Em Portugal, o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM), o Comité de Solidariedade com a Palestina, forças partidárias como o Bloco e o PCP que fizeram aprovar na AR uma moção de solidariedade com os presos palestinianos, a CGTP e vários sindicatos, e diversos outros colectivos e blogues pessoais e de grupo, têm vindo a realizar protestos e a publicar notícias e artigos de solidariedade com a greve de fome e em apoio da causa palestiniana.

A consulta das suas páginas permite uma visão mais completa sobre toda essa luta.

A resistência e a importância da luta palestina, se agora se manifestam nesta greve de fome e na solidariedade para com os presos, vêm de muito mais longe e vão muito para além da greve. Vêm do apogeu da I Guerra mundial com a Declaração de Balfour, emitida pelo governo britânico em 1917 a favor da criação de um “lar” nacional judeu na Palestina, procurando reconfigurar a região após a derrota do império otomano, e obter o apoio da comunidade judaica americana que então estava do lado alemão. Continuaram de forma dramática no rescaldo da II Guerra, com a constituição do Estado de Israel em 1948 e com a expulsão logo aí de centenas de milhar de palestinianos dos seus lugares nativos. Acto que eles recordam como a Nakba – a catástrofe – a qual tem prosseguido cada vez mais destruidora dos direitos à vida livre e independente deste povo.

Ao longo dos anos o Estado de Israel tem sido condenado por múltiplas resoluções aprovadas pela maioria esmagadora dos países na ONU e em outras instâncias internacionais.

No entanto, os sucessivos governos israelitas, cada vez mais extremistas, têm ignorado todas as condenações, desrespeitado os poucos compromissos que assumiram (Acordos de Oslo e outros) e, quer por invasões militares, quer pelo avanço dos colonatos nos territórios sob autoridade palestiniana, expandiram as suas fronteiras e ocuparam a maior parte da Cisjordânia, tornando impossível o dia-a-dia das populações palestinianas e tornando inviável a constituição de um estado próprio palestino.

Instalaram um regime de apartheid muito mais opressor do que aquele que existiu na África do Sul. Aprovaram há pouco dias no parlamento israelita uma alteração legal que passa a considerar o estado de Israel como “o estado nacional dos judeus” sejam aí residentes ou no exterior, mas para cuja legislação todos os outros habitantes são pessoas inferiores, sem os mesmos direitos e sujeitos a numerosas e graves restrições e controlos. Mesmo que esses habitantes sejam as famílias que desde sempre viveram na região, aí cultivaram as suas terras, aí tiveram as suas casas e os seus filhos. Séculos e séculos antes de que a esmagadora maioria da actual população de religião judaica aí se tivesse instalado.

A crescente arrogância e atrocidades do poder israelita resultam de que tudo o que faz fica impune e de nada servem as condenações e os apelos que lhe são feitos. À força do dinheiro e à influência política do lóbi sionista nos EUA e em muitos outros países junta-se o patrocínio e o completo apoio político, militar, económico, das sucessivas administrações norte-americanas. E as suaves observações e discordâncias que por vezes estas lhe dirigem, são apenas as maneiras de irem arrastando o status quo e permitindo a escalada do apartheid israelita. É isto que agora também acontece com a visita de Trump a Israel. Sob o palavreado cínico de querer reabrir as negociações, ele já nomeou como embaixador em Israel um dos mais fanáticos apoiantes do sionismo e, na campanha eleitoral, anunciou que defendia que Jerusalém viesse a ser a capital israelita.

O domínio destes poderes vê-se mesmo em situações em que os protagonistas são pretensamente críticos da política israelita. Foi o caso recente da retirada pelo secretário-geral da ONU (Guterres), sujeitando-se às exigências dos EUA, do relatório publicado por um órgão da ONU, a Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental, em que Israel é acusado de práticas de apartheid. Perante a ordem de Guterres, a responsável pela referida comissão, corajosamente, demitiu-se do cargo em carta que lhe enviou.

O mesmo tipo de vassalagem ocorreu com a votação, no passado dia 11 deste mês, da moção conjunta apresentada pelo Bloco, pelo PCP e pelos Verdes, no Parlamento, em que a maioria dos deputados aprovou os pontos de solidariedade com os presos palestinianos e o direito à coexistência dos dois povos, mas rejeitou a exigência de “respeito pelas Convenções de Genebra quanto às obrigações e restrições da potência ocupante, e o respeito dos direitos e a libertação dos presos políticos”.

E se, dos minoritários círculos das organizações de esquerda passarmos para o eleitorado dos partidos de direita e para a maioria da opinião pública portuguesa, julgo que as ideias que dominam são bem diferentes da solidariedade com a luta do povo palestiniano. O monstruoso poder sionista e a débil reacção palestina são vistos como adversários que se equivalem, seja nos ataques mútuos, seja nas razões que uns e outros apresentam. E em favor do governo israelita penderá a tragédia do Holocausto nazi e o mito do povo perseguido, que o os sionistas aproveitam para acusar de “anti-semita” qualquer um que os critique com mais vigor, enquanto para o lado dos palestinianos vem muitas vezes ao de cima a má imagem cultivada e alimentada de que também são árabes e estes “estão sempre prontos para andar aos tiros uns com os outros” e de que é entre eles que nasce o fundamentalismo religioso…

Mesmo que, de facto, nada disso seja assim.

Sendo esta a realidade que hoje vivemos, são muito poucas e muito pouco visíveis todas as acções, protestos, artigos, apelos, que se vão realizando por todo o mundo em apoio da causa palestina e agora em solidariedade com os presos em greve de fome. E assim são também as que se têm feito em Portugal, apesar do mérito e de toda a generosidade e vontade dos seus promotores e participantes.

Com essa consciência e com a certeza de que à justeza da luta palestina se junta a importância de combater o poder sionista, principal obstáculo para a paz e o equilíbrio político no Médio Oriente e pilar do imperialismo americano na região, torna-se necessário mais empenho nesta luta e uma maior convergência das forças partidárias, associações, colectivos e pessoas que a ela se dedicam, para ampliar a sua divulgação e debate na sociedade portuguesa e para o prosseguimento da campanha de “boicote, desinvestimento e sanções” (BDS) de pressão sobre Israel e a realização de protestos e manifestações de muito maior impacto e influência na nossa opinião pública.

Para que feneça a saudade da grande, mas já velhinha, “manif.” contra a invasão do Iraque e viva o presente urgente dessa força renascida.


Imagem: Alisdare Hickson – Free Free PalestineAlguns direitos reservados.

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