Fábula ou verdade revelada?

Vítor Ruivo

Há uma história antiga que vem dos primórdios da História da humanidade e que, dizem alguns neófitos, se revelou pelo engenho de uns poucos descodificadores, por volta de meados do século XIX, quando nas sociedades e nas paixões humanas amadureceram as condições para que o segredo fosse decifrado.

Na transição de um para o outro século, essa revelação floresceu em muitas das revoltas dos pobres e explorados de todo o mundo e quando pareceu que iria frutificar em alguns dos povos da Europa oriental e da Ásia, perturbou por completo os mais poderosos do planeta.

De tal modo os perturbou que, apesar das suas grandes rivalidades e até de guerras fratricidas, eles tudo fizeram para abater e enterrar bem fundo, na consciência e na memória dos povos, esse segredo revelado.

Hoje, no início de um novo século, há (ainda ou um pouco mais?) quem o recorde. Mas, aos olhos das multidões de cada país, nos raros momentos em que essa história lhes desperta a atenção, ela tem apenas a forma de uma fábula, conto de fadas de exóticos inocentes ou tenebroso desígnio de fanáticos extremistas.

E que diz o mistério? Que toda a riqueza que há no mundo, que todo o valor acrescentado na transformação das matérias-primas que se conclui nos inumeráveis produtos que permitem aos humanos, desde tempos imemoriais, habitarem, deslocarem-se, alimentarem-se, vestirem-se, divertirem-se e até, a uns sempre muito poucos, fazerem fortunas, pequenas ou descomunais, e dizerem que é sua, apenas sua, toda essa riqueza produzida, são afinal e exclusivamente resultado do trabalho das pessoas que manipulam máquinas e matérias até que terminem em produtos acabados.

Que, assim sendo, os donos das fortunas não são os seus verdadeiros donos porque as herdaram de quem roubou aos donos originais ou à natureza, as terras e as matérias; ou que criaram ou acrescentaram essas fortunas retendo para si e para o seu negócio os produtos resultantes do trabalho alheio. Que os banqueiros e os especuladores que, sem mais nada, acrescentam dinheiro ao dinheiro, nada criam de valor. Que os trânsfugas dos offshores são duplamente ladrões. Que a TSU patronal que eles tanto querem reter, em nada é deles mas dos seus trabalhadores.

Que, quando muito, de cada um desses patrões, sócios de anónimas sociedades, accionistas pessoais ou colectivos, CEOs nas mais variadas engenharias financeiras, gestores executivos ou consultivos, de cada um deles, seria apenas a remuneração devida por cada jornada de trabalho realizada. Talvez com um pouco mais, mercê de um bom contrato colectivo e de umas funções mais complexas e de maior responsabilidade no conjunto das profissões consideradas.

Que, mais tarde ou mais cedo, assim será, se para tal o mundo do trabalho tiver engenho e arte e, no caminho da sua própria emancipação, puser fim ao actual modo de os humanos produzirem e governarem as suas coisas e a vida no planeta.

Fábula ou verdade revelada?


Imagem: Anthony Auston – “Work.”. Alguns direitos reservados.

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