Tele e rádio-grafia às eleições presidenciais francesas de 2017

Hugo Arsénio Pereira

Dentro de um mês realizar-se-á a primeira volta das próximas eleições presidenciais francesas e na semana passada realizou-se o primeiro de quatro debates televisivos. Contou com os 5 candidatos mais bem posicionados nas sondagens. Contudo, não deixou de causar alguma estranheza a cobertura noticiosa que a SIC deu ao debate e a forma selectiva como a fez. A peça informativa mais transmitida sobre o debate, em horário nobre, focava-se sobretudo nos ataques de Emmanuel Macron a Marine Le Pen e ainda deu espaço a algumas frases de Benoît Hamon e de François Fillon. Pergunta: então, mas o debate não era a 5? Era. Só que a SIC na sua peça noticiosa esqueceu-se de incluir sequer uma afirmação representativa da prestação no debate de Jean-Luc Mélenchon, o candidato mais popular de esquerda (excluindo Hamon do Parti “Socialiste”, naturalmente). Era como se não estivesse estado presente.

Na verdade, não é mal exclusivo na SIC. É o reflexo da habitual exclusão informativa que os média praticam quando toca a falar de candidatos ou de partidos de esquerda. Os média franceses não têm sido excepção. Uma “compilação” publicada no Le Monde relativa ao número de horas que a comunicação social dedicou aos diversos candidatos nos últimos dois meses revela bem este tratamento diferenciado, sobretudo par rapport à média percentual que os candidatos têm tido nas sondagens. Le Pen e Macron, que disputam o primeiro lugar taco-a-taco, em todas as sondagens, não vão além do 4º e 3º lugares deste estudo, com 111 e 127 horas de espaço informativo, respectivamente. François Fillon, em terceiro lugar nas sondagens, e já longe de Macron e Le Pen, surge destacadíssimo com quase 200 horas(!) de transmissão informativa, seguido de Benoît Hamon, que já aparece em quinto lugar nas sondagens – algumas com apenas 10-11% de intenções de voto – mas com 142 horas. Já Jean-Luc Mélenchon, apesar de surgir em quarto lugar nas sondagens, já à frente do “socialista” Hamon e, pelo andar da carruagem arriscando-se a deixar também Fillon para trás, teve direito a apenas 65 horas de informação nos meios de comunicação social franceses.

Mas não foi tudo na peça da SIC. Já não bastando o desprezo por Mélenchon, a SIC decidiu “etiquetá-lo” como o “Candidato da Extrema-Esquerda”. Não é nada que os média e os puppets de serviço, de forma generalizada, não façam também, inclusive por cá, rotulando de “extremista” e “radical” tudo aquilo que fuja por meros milímetros ao consenso moderado da grande casta centrista ou que não orbite e bajule o status quo. Ora, posto este tag, a questão que se coloca aos jornalistas da SIC é a seguinte: se Mélenchon – que dissidiu do Parti “Socialiste” há uma década por considerar que este estava numa deriva liberal, acabando por fundar o Parti de Gauche – é de “extrema-esquerda”, então que rótulo é que colocariam em Philippe Poutou e em Nathalie Arthaud, respectivamente do Nouveau Parti Anticapitaliste e da vetusta Lutte Ouvrière? Quererá isso dizer que, segundo os critérios editoriais da SIC, Macron é de esquerda e que Le Pen é de centro-direita?

Mesmo relativamente aos outros quatro candidatos “principais”, a peça informativa foi parca, não deixando o espectador devidamente esclarecido quanto às respectivas agendas, para além das ideias genéricas que terão (ou não) dos mesmos. Será o caso de Benoît Hamon que ninguém por cá deverá conhecer. Diz-se que pertence à “ala esquerda” do Parti “Socialiste”, mas propostas em concreto que o desvinculem com evidência da rota austeritária e euro-seguidista do diktat não se lhe conhecem propriamente para lá das declarações de intenções superficiais e dos clichés de campanha que pecam por ser vagos e lacónicos. Talvez isso explique, em parte, que não consiga descolar dos 10-12% nas sondagens que, quer Valls, quer Hollande, obtinham também antes da escolha final do candidato presidencial do partido. O mesmo sucede com François Fillon do partido da direita “tradicional” recém-redesignado Les Républicans: envolto numa verdadeira telenovela de escândalos políticos – de corrupção, de tráfico de influências, abuso de poder, etc. – adoptou uma linha xenófoba aquando do exercício de funções como Primeiro-Ministro de Sarkozy e agora em campanha não se desvincula nem dessa linha xenófoba light, colando-o à autenticidade de Le Pen, nem se descola minimamente da agenda programática liberal-austeritária para a França. Segundo os estudos de opinião, está condenado a não passar sequer à segunda volta das eleições. Quanto a Marine Le Pen, a sua linha de pensamento fascista, racista, xenófoba, nacionalista, isolacionista, populista, ultra-conservadora, não é novidade para ninguém. E a sua viagem a Moscovo, há dias atrás, para reunir com Vladimir Putin, em plena campanha eleitoral, veio somente confirmar as teorias de uns, bem como as desconfianças e receios de outros, à semelhança do que sucedeu com Trump nos EUA.

No caso de Jean-Luc Mélenchon, estamos perante alguém que não é propriamente um novato nestas andanças, sendo recandidato a Presidente, como já havia sucedido em 2012. Desta vez, encabeça uma candidatura designada La France Insoumise (traduzindo: A França Insubmissa –nome de gosto assaz duvidoso, sobretudo do prisma fonológico-lexical – opinião pessoal, claro) que abarca personalidades, actores políticos, partidos e movimentos diversos, desde o próprio Parti de Gauche que é o principal “condutor” do movimento da campanha, passando por alguns ecologistas que recusaram-se a apoiar Benoît Hamon e a fazer o típico “Amen” que a generalidade dos partidos da Aliança Verde Europeia fazem sempre aos Partis “Socialistes” por essa Europa fora por terem a noção de que a defesa das bandeiras ecologistas é mais consistente no histórico de Mélenchon do que no de Hamon. Quem causou celeuma foi o Partido Comunista Francês cujos militantes inicialmente recusaram-se a apoiar o rosto do La France Insoumise. Mas mais tarde viram-se impelidos a retroceder na teimosia, embora ainda assim por escassa maioria interna. Para além de linhas orientadoras concordantes com aquelas que a generalidade da esquerda europeia defende – justa distribuição da riqueza e revalorização salarial, a agenda ecológica de transição para um novo paradigma ambiental, a derrogação dos tratados de livre comércio internacionais (como o TISA, o CETA, o TTIP, etc.), a revogação da legislação de atropelo aos direitos laborais e sociais do governo ainda em funções, etc  – a candidatura de Mélenchon, acima de tudo, persiste na ideia recuperada da campanha de 2012 de uma “VI República”, o que poderá levar o leitor mais ou menos atento a achar que “mas então isso é o que Benoît Hamon também defende, porque também faz uso desse bordão na sua campanha”. É aí que está o engano e, em parte, poderá explicar o porquê de Mélenchon ter decidido desfiliar-se do Parti “Socialiste” em 2008, alegando irreconciliáveis divergências ideológicas, para criar o Parti de Gauche. É que se para Mélenchon, a ideia de uma “VI República” assenta nos ideais da cidadania, do eco-socialismo, do progressismo, do humanismo e, em boa medida, da interpretação da esquerda do que são Les Valeurs de la République, no caso de Benoît Hamon o chavão da “VI República” vem acoplado das vulgaridades populistas conotadas como promotoras da eficiência que, para além de vacuidades relativas à transparência e à integridade dos titulares de cargos públicos, propõe tão simplesmente a redução do número de deputados esvaziando/reduzindo/distorcendo a representação popular, a restauração da duração de 7 anos do mandato presidencial (que já existiu e que faz as delícias da Direita, inclusive da Direita portuguesa que já tem defendido isto para Portugal para além do mesmo modelo presidencialista francês) sem revalidação/revogação de sufrágio intercalar, o reforço dos poderes executivos do governo e do presidente retirando-os às câmaras parlamentares [Soa a familiar, não soa? É que António José Seguro propunha praticamente a mesma coisa… E o programa eleitoral do PS de António Costa em 2015 também, só que entretanto a “geringonça” suspendeu estas intenções, até ao dia em que o PS voltar a lembrar-se delas]… E um sepulcral silêncio sobre a manutenção ou retirada da “Lei Marcial” que Hollande instaurou em França após os atentados de 2015, suspendendo ad eternum as regras do Estado de Direito.

Resta Emmanuel Macron, o candidato “surpresa” extra-partidário, que embora “ameace” levar a melhor sobre Marine Le Pen na segunda volta e tornar-se Presidente da França, fora do hexágono é um perfeito desconhecido que os média rotulam de “centrista”, “progressista” e “europeísta” e que o próprio valida dizendo não ser “nem de esquerda nem de direita” e ao mesmo tempo ser um pouco de tudo. Soyons sincères et directs: Macron é, resumidamente, um liberal, um devoto-praticante da actual conjuntura sócio-económica determinada pela ortodoxia eurocrática, e que durante anos militou e cirandou o Parti “Socialiste”. Só que o Parti “Socialiste”, embora tenha há muito tempo adoptado uma praxis social-liberal, ou seja, de “social-democracia na gaveta” (levando políticos como Mélenchon, precisamente, a desfiliar-se e criar um partido verdadeiramente socialista), para Macron ainda não era suficientemente liberal. E a prova disso foi a marca e o rasto que deixou após a sua passagem pelo governo de Hollande enquanto Ministro da Economia, impondo e fazendo passar por cima dos poderes legislativos e fiscalizadores do Senado e da Assembleia Nacional todo o tipo de legislação de desregulação e liberalização das leis laborais e de protecção social dos trabalhadores. Quem, por cá, nunca ouviu falar da Loi Macron, i.e., da “Lei Macron”, que desencadeou alguns dos mais participados e mobilizadores protestos populares das últimas décadas em França? Quase ninguém, obviamente. O que é natural, dada a ausência de informação que os média portugueses selectiva e/ou intencionalmente lhe dedicaram, uma vez mais. Sob o signo da “modernização da França” e da “reforma democrática”, o “europeísmo progressista” de Macron em nada difere das strukturreform – as já conhecidas “reformas estruturais” – da linha ideológica de Schäuble ou de Dijsselbloem – que tal como Macron é outro “socialista” na embalagem mas com conteúdo neo-liberal (e ainda com outras coisas “nocivas para o consumidor”). Aliás, o seu programa eleitoral é uma extensão daquilo que levou a cabo enquanto Ministro da Economia, repescando o ideário de enfraquecimento do Estado Social e da presença do Estado ou do que é público, em nome do “desbloqueamento da França” como mote de campanha.

Porém, se a linha programática de Macron mereceu grande rejeição por parte dos franceses – levando o Parti “Socialiste” a mínimos históricos de aceitação e ao risco de “pasokização”, e com estudos de opinião de 2016 em que 84% dos franceses aprovavam a demissão de Macron do governo de Valls tutelado por Hollande – então afinal o que explica que seja ele o candidato mais bem colocado para disputar a segunda volta com Le Pen e ganhá-la com folgada margem? Resposta simples: o medo. O mesmo ao qual se agarra o europeísmo acrítico-continuísta para se manter à tona. E o medo de Marine Le Pen. Estando Fillon mais-do-que descredibilizado pelos sucessivos escândalos, e deixando fugir eleitorado para Le Pen que faz o mesmo discurso da semblante France debout et grande de forma muito mais convincente, e sendo Hamon uma figura igualmente pouco persuasiva e incapaz de restaurar os danos causados pela governação Hollande/Valls, o eleitorado flutuante tenderá a concentrar o voto naquele que, apesar de impopular nas suas políticas, é jovem, fresco, desligado dos grandes partidos tradicionais do centro-esquerda e do centro-direita, prometedor de falsas renovações na complexa máquina social francesa e que se opõe a Le Pen em algumas questões fundamentais. Há algumas semanas, Macron afirmou, surpreendendo todos, que a colonização francesa da Argélia foi um bárbaro crime contra a humanidade, do qual havia que pedir desculpa [aposto que a senhora Le Pen, bem como os eventuais homólogos franceses de Jaime Nogueira Pinto e da Nova Portugalidade ficaram possessos com esta tirada]. Com isto, Macron tocou num tema tabu para a sociedade francesa e agitou os fantasmas de uma França que, pese embora a aura progressista e libertária que carrega consigo em termos de imagem externa decorrente do lema de “Liberté, Égalité, Fraternité”, ainda é profundamente racista e xenófoba, em larga medida, consequência de um controverso e violento processo de descolonização. Não obstante, nada disso invalida que Macron seja um capitalista hardcore que se maquilha de declarações e intenções humanistas-progressistas soft, e que seja um seguidista da actual linha de pensamento conotada como “europeísta” que tão nefasta tem sido para os cidadãos dos vários países europeus. Assim sendo, a concentração do voto em Macron que poderá levá-lo ao Palácio do Eliseu já em Abril não difere muito daquilo que sucedeu nas últimas eleições presidenciais norte-americanas, em que o voto não é um voto Pour (Macron), mas antes um voto Contre (Le Pen).

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