Homoerotismo como parte da história 2 – Império Otomano

Jorge Santos

A partir da segunda metade do século XX, os historiadores, claramente desconfortáveis com os temas homoeróticos da sua literatura, vão censurar as versões anteriores ao século XIX que contêm referências ao amor por rapazes.

Num texto anterior, procurei desvendar alguns factos curiosos de uma parte oculta da história da China, desconhecida da maioria de nós e inconveniente ou embaraçosa demais para alguns.

Uma nota prévia é necessária: a bibliografia disponível acerca do homoerotismo não faz a devida separação entre homossexualidade e práticas sexuais entre homens e rapazes, incluindo a prostituição de rapazes e a violência sexual. Daí que essas descrições apareçam de seguida misturadas.

Nada daquilo que que referi nesse texto foi inventado, aliás, os factos que descrevo foram rigorosamente analisados e documentados por diversos académicos chineses e ocidentais ao longo de décadas.

Desta vez, optei por focar as atenções numa outra realidade cultural, para falar sobre o homoerotismo e o sexo entre homens, ou homens e rapazes, no Império Otomano.

Fundado em 1299 por Osman I (1258 – 1326), líder das tribos turcas da Anatólia, o Império Otomano expande-se a partir de 1453 com a conquista da cidade de Constantinopla, sede do império bizantino, atingindo o seu apogeu no século XVII.

O sultão Mehmed II (1432 – 1481) será o grande responsável pela expansão inicial do império. É no seu reinado que Constantinopla e o Leste europeu caem nas mãos dos turcos, razão pelo qual ficará conhecido como “O Conquistador”.

É celebre o episódio em que o implacável sultão envia um eunuco a casa do grão-duque Notaras pedindo que este lhe enviasse o filho de 14 anos para se tornar seu amante. Perante a recusa de Notaras, Mehmet manda executar ambos e ainda o sobrinho daquele.

No final da guerra, Mehmed ofereceu a si mesmo como recompensa pela submissão dos bizantinos os “melhores” rapazes da nobreza subjugada, trazendo-os para o seu harém.

Mas a sua grande paixão terá sido o jovem príncipe Radu, que havia sido enviado pelo pai Vlad II, o monarca da Valáquia, para a sua corte como prova de amizade entre os dois reinos.

Radu era irmão de Vlad Tepes (“O Impalador”), o mais famoso personagem histórico da atual Roménia, inspirador de “Drácula”.

Radu “O Belo” acaba por se converter ao islão e torna-se o rei vassalo da Valáquia, um aliado de Mehmet que o ajuda na tomada de Constantinopla.

Os académicos debatem qual o verdadeiro entendimento da sociedade turca otomana em relação à homossexualidade. Muitos testemunhos literários entre os séculos XV e XIX dão a entender que o amor entre homens era tolerado e respeitado de acordo com os códigos morais e religiosos da época, desde que se tratasse de um amor casto.

Os muçulmanos mais devotos seriam naturalmente mais conservadores, mas de um modo geral o homoerotismo era muito mais bem aceite no Império Otomano do que nas sociedades da Europa ocidental. Não seriam os turcos, apesar de tudo, tão “debochados” como os viajantes europeus descreviam nos seus relatos de um modo bastante pejorativo.

 

Durante a Grande Guerra Turca (1683-1699), o soldado Osman Aghara de Temesvar foi cativo dos austríacos em 1688, e escreveu nas suas memórias que uma noite um adolescente austríaco o abordou para ter sexo dizendo “tanto quanto sei todos os turcos são pederastas…”.

Thomas Sherley (1542-1612), militar inglês prisioneiro dos otomanos entre 1603 e 1605, reportou no seu “Discurso dos Turcos” que “a sua sodomia eles usam-na tão publicamente e imprudentemente que um cristão honesto iria ter vergonha de acompanhar a mulher como eles fazem com os seus rapazes prostituídos.”

Este e outros episódios retratam uma certa fama homoerótica dos turcos no Ocidente. Não por acaso, no séc. XIX, os franceses chamavam à pederastia “os costumes orientais” (mœurs orientales).

No séc. XIV, inicialmente por iniciativa do sultão Murad I (1326 – 1389), jovens cristãos albaneses, búlgaros, macedónios, sérvios e gregos eram recrutados diretamente nas vilas para serem integrados no exército otomano.

A partir do reinado de Murad II (1404 – 1451), os turcos adotaram correntemente esta prática. Por decreto real, todos os rapazes cristãos dos 8 aos 20 anos eram recrutados para serem inspecionados e de entre eles os mais fortes, saudáveis, belos e com melhor caráter eram selecionados para serem treinados e integrados nos janízaros (yeni çeri).

Os novos recrutas eram enviados para Istambul. Estima-se que entre o séc. XIV e XVII o recrutamento tenha chegado a abranger um total de 200 mil a 300 mil rapazes.

Esta prática tinha o nome de “devshirme” (imposto de sangue), que vem de “devshir” (coletar). Os jovens tinham o estatuto de escravos e eram convertidos ao islão e educados pelos eunucos e tutores nos palácios para servirem como escravos do sultão (kapikulari). Aprendiam os costumes e a etiqueta, a ler e escrever, a falar em turco e a rezar em árabe.

Completada a fase elementar da sua educação, os jovens pajens aprenderiam então a falar persa e turco fluentemente, lendo obras importantes em ambas as línguas. Deste modo eles ficariam a saber falar de modo eloquente. Recebiam depois treino militar completo.

Devotos ao sultão, estes rapazes cresciam isolados no palácio, e apenas casavam a partir dos 30 anos. Muitos acabariam por ocupar postos na administração civil, e alguns chegaram mesmo a lugares de topo na administração do Império.

Solimão I “O Magnífico” (1494 – 1566) teve como amante um destes escravos: O grego Ibrahim Pasha, que conheceu no palácio de Manisa quando o futuro sultão ainda era príncipe e ambos tinham idades próximas. Solimão e Ibrahim cresceram juntos, e quando aquele sucedeu ao pai no trono, gerou polémica ao elevar Ibrahim grande vizir, e depois a governador e comandante das tropas das províncias dos Balcãs. Mais tarde vai reconhecer que este lhe é desleal e manda-o executar.

Este sistema entrou em crise quando se estendeu às províncias muçulmanas do Império, causando prejuízos económicos e uma quebra na lealdade das tropas, o que levou a sua definitiva abolição durante o século XVIII.

Embora livres, a vasta maioria dos jovens do Império não teria tanta sorte na sua educação. Trabalhavam nas terras e cuidavam dos animais da família. Se não se soubessem comportar, eram espancados. Não recebiam qualquer instrução a não ser ler e recitar o Corão, salvo raras exceções.

Por vezes, sobretudo os cristãos, eram raptados e enviados como escravos por mercadores para a Turquia, Síria ou Egito, onde eram comprados por clientes destinados a fazerem deles escravos sexuais.

Alguns rapazes não muçulmanos (ciganos, arménios, gregos, entre outros) eram recrutados para servirem de dançarinos. Os turcos chavamam-lhes koçek, que significa “pequeno” ou “jovem”. A dança, o koçekçe, era um estilo erótico de dança que servia para provocar os homens.

Inicialmente eles atuavam com músicos para o sultão e a aristocracia em casamentos, festas e festivais, passando a partir do século XVIII a atuar publicamente nas grandes cidades. Chegaram a existir cerca de 50 koçek verdadeiramente notáveis naquela época.

Tradicionalmente, os jovens dançarinos vestiam-se de forma feminina, com jaquetas de veludo vermelhas, camisas de seda bordadas a ouro e calças largas, maquilhando-se de forma pesada, deixando crescer o cabelo e usando joias.

Frequentemente praticavam a acrobacia e a luta, e serviam de prostitutos, dependendo do preço que os clientes estivessem dispostos a pagar.

Em 1805, atuavam cerca de 600 koçek nas tavernas da capital da Turquia.

Suas rivais, as Çengi (dançarinas do ventre) invejavam as atenções que os homens davam a estes rapazes, e algumas chegaram a assassinar dançarinos por ciúmes.

Causadora de grandes distúrbios entre a audiência masculina, a popular e provocadora dança foi abolida por Abu ul-Mejid I no séc. XIX, e gradualmente desapareceu com a perda do mecenato imperial.

Na segunda metade do séc. XV, os turcos construíram uma vasta rede de banhos públicos (hammam) espalhados pelo império. Lá trabalhavam empregados conhecidos por “tellak”, jovens que esfregavam e massajavam os corpos dos homens frequentadores dos banhos. Alguns deles também se prostituíam em câmaras mais isoladas.

No Egipto, existiam nas maiores cidades, como Alexandria. Só no Cairo, chegaram a existir cerca de 300 destes estabelecimentos.

A tradição permaneceu até ao início do século XX, quando se dá o desmembramento do Império Otomano. Mas as tavernas e bares dos bairros cristãos (onde se servia o alcóol proibido pela Sharia) e até os mosteiros e seminários eram também locais de referência para encontros (por vezes  só de olhares) entre homens.

Nas tavernas de Istambul, reuniam-se pessoas de todas as origens e classes sociais: dervixes e gnósticos, pobres e sem-abrigo, cavaleiros, janízaros, poetas e dignatários religiosos, todos se sentavam à mesa convivendo e contando as suas histórias.

Alguns passavam dias e noites gastando dinheiro nesses lugares, bebendo, tomando drogas e namoriscando os rapazes. Esses jovens eram geralmente da classe baixa e frequentemente exploravam o desejo sexual dos seus companheiros a fim de obterem vantagens materiais como dinheiro ou presentes, que levavam à ruína os amantes mais inexperientes.

O poeta albanês Tashlicali Yahya Bey (1488-1582) defendia, nos seus versos, que os amantes de mulheres não entendiam a essência do neoplatonismo, pois o amor pelas mulheres implicava ter como objetivo a satisfação física, enquanto o amor pelos rapazes implicava um amor inconsumado marcado por longas e desesperadas noites sem dormir, e a ligação aos mistérios espirituais, longe de saciar os desejos carnais.

Numerosos são os poemas e autores otomanos que brindaram ao amor por rapazes inspirados pelas suas próprias vivências e sentimentos.

Em muitos poemas sobre rapazes amados, parece existir uma distinção entre os “rapazes imberbes” e os apelidados “jovens de bochechas felpudas”, e os autores expressam frequentemente a preferência ora por uns, ora por outros.

O escolástico sírio Muhammad Khalīl al-Murādī (1759 – 1792) devotou doze páginas da sua obra bibliográfica para redigir um texto que retrata a disputa entre o rapaz imberbe e o jovem de bochechas felpudas na qual eles competem com as suas vantagens para convencer o leitor de que são o objeto de amor mais apropriado.

Na coletânea de poemas Diwan, do damasceno Ahmad al-Inayati (? – 1606), fala-se da beleza de um empregado de um bar chamado Ibrahim al-Suyuri. Todas as manhãs Inayati ia a esse bar beber café por causa do belo rapaz.

O estudioso de Alepo Muhammad al-Urbi (?-1660) menciona ter sido seduzido por um rapaz cristão por quem se apaixonou durante a estadia em Constantinopla.

O estudioso egípcio Ahmad al-Kafaji diz ter composto um couplet depois de ter sido criticado por dois amigos por ter parado de admirar um belo jovem nas ruas de Damasco.

E o historiador Abd al-Rahman al-Jabarti (1753-1825) identificou alguns dos poemas de amor do amigo Isma’il al-Khashshab como inspirados no seu amor por um jovem escriba ao serviço dos franceses durante o período do domínio francês do Egipto.

Comparar os méritos da beleza masculina com os da beleza feminina foi também um tópico de disputa entre os intelectuais muçulmanos durante muitos séculos.

Muitos autores confessam a atração irresistível pelos imberbes, mas há também alguns que preferem mulheres, enquanto outros não têm mesmo qualquer interesse nos rapazes.

Na arte, as miniaturas otomanas raras vezes contêm temas sexuais, mas é possível encontrar representações explícitas de homossexualidade. Um dos melhores exemplos são duas cenas do Khamsa (quinteto), de Nevi Zade Atai, obra datada do século XIX.

O termo geralmente usado era “luti” – por oposição a “zani” (fornicador), o que gosta de mulheres – mas no Egipto do séc. XVII os homossexuais também eram chamados “bita’ al sighar” (literalmente, “aquele que é por rapazes”).

Nos casos de violação, não raros, o processo era trazido a um magistrado (kadi) e a decisão aprovada por um líder religioso local (imã), que poderia condenar a uma punição corporal severa (por vezes a pena capital). Contudo, na maioria dos casos a pena aplicada era uma multa.

Os homens do Império casavam muito cedo, algo que era socialmente aconselhável face à importância atribuída à procriação. Todavia, muitos nunca chegavam a casar, envolvendo-se com rapazes ao longo da sua vida, e não eram por isso mal vistos pela sociedade. Exemplo disso é Ahmad al-Inayati.

Era comum um rapaz procurar mulheres e ao mesmo tempo outros jovens, ou envolver-se com homens que podiam também gostar de mulheres.

Entre portas fechadas, ninguém poderia saber qual dos dois (homem ou rapaz) seria o parceiro ativo, e numa anedota da época, tanto um como o outro parceiro insistem ter sido o elemento ativo. Os poetas exploravam também esta temática brincando com os estereótipos ao mesmo tempo em que os desvalorizavam.

Apenas os homens mais religiosos, optavam pela castidade, pois cair na tentação seria um defeito de caráter. Era isso que pregavam os juristas e escolásticos muçulmanos.

O jurista Hajar al-Haytami (1504-1566) terá dito que “há rapazes imberbes que superam as mulheres na beleza”, e portanto são mais tentadores.

O ascético Alwan al-Hamawi (1430-1529) disse também que “não há dúvidas nem desconfiança que a tentação de olhar para ele [rapaz imberbe] é certa”.

Procuravam evitar que os homens caissem na tentação do amor e desejo por rapazes, mas é provável que os seus esforços não tenham tido eco na maioria da população masculina, que se mantinha entregue aos “vícios” do sexo fora do casamento, do vinho e das relações com o mesmo sexo.

Mas havia uma fação de estudiosos mais liberal, defensora do amor platónico. O sufista persa Abu Hamid al-Ghazali (1058-1111) diz que amar alguém pela sua beleza e sem luxúria carnal “não é religiosamente recomendável, mas também não é condenável”.

Ahmad al-Manini (?-1759) recorreu à fábula de Sodoma e Gomorra para ir buscar a ideia de que Lot teria aceite que se amasse rapazes. Ele diz que o amor “é uma matéria natural e coerciva contra a qual o amante não tem qualquer escolha… e o amor, se não é associado a ações sujas, é livre de blasfémia, uma vez que não envolve o que é proibido pela lei islâmica.”

Casto ou libertino, o amor um pouco mais livre dos turcos vai, aparentemente, “deixar de existir” a partir da segunda metade do século XX, quando os historiadores, claramente desconfortáveis com os temas homoeróticos da sua literatura, vão censurar as versões anteriores ao século XIX que contêm referências ao amor por rapazes. Trata-se de uma reação que provém da nova mentalidade que começa a ser adquirida nos anos 1920 e 1930 do “novo turco”, laico, ocidentalizado e puritano como na Europa ocidental.

No decorrer da 1ª Guerra Mundial, os otomanos são derrotados, perdendo quase todo o território que compunha o império.

O nacionalismo exacerbado dos turcos humilhados pela derrota leva ao emergir de um movimento liderado por Mustafa Kemal Ataturk (1881-1938), o militar que assume o poder, abole o sultanato e o califado, reforma o Estado e constrói uma República ao estilo ocidental.

Ver também: O homoerotismo como parte da história.


Algumas referências:

KHALED EL-ROUAYHEB, Before Homosexuality in the Arab-Islamic World, 1500-1800, The University of Chicago Press, Chicago e Londres, 2009.

STEPHEN O. MURRAY/WILL ROSCOE, Islamic Homosexualites: Culture, History and Literature, New York University Press, Nova Iorque e Londres, 1997.

NÖEL J. COULSON, A History of Islamic Law, AldineTransaction, New Brunswick e Londres, 2011.

LOUIS CROMPTON, Homosexuality & Civilization, The Belknap Press of Harvard University Press, Cambridge e Londres, 2003.

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