Eu, Katie… ou a pobreza no feminino

Almerinda Bento

Foi certamente o melhor e mais surpreendente filme que vi no ano passado, aquele que deu a Palma de Ouro a Ken Loach no Festival de Cannes: “Eu, Daniel Blake” de uma sensibilidade e crueza tão pungentes que ninguém consegue sair da sala de cinema sem um nó na garganta.

Para além do retrato implacável e certeiro que faz de uma sociedade que dispõe dos mecanismos de protecção social, mas que os subverte, tratando os cidadãos e cidadãs que devia servir como meros empecilhos que há que dissuadir e humilhar numa teia burocrática que podemos adjectivar de kafkiana, Ken Loach centra o olhar do espectador no caso de Daniel e de Katie, como exemplos individuais de uma situação generalizada.

E é sobre Katie que gostaria de escrever algumas palavras.

Obrigada a abandonar Londres onde só lhe era dada a hipótese de viver num local destinado a pessoas sem-abrigo, o Estado “oferece-lhe” uma casa em Newcastle. Afastada cerca de quinhentos quilómetros das suas raízes familiares (a mãe), da escola, dos colegas e amigos dos filhos, acalenta, no entanto, a esperança de em Newcastle poder conseguir arranjar trabalho em limpezas e poder começar uma nova vida. A casa está em mau estado, precisa de reparações, mas pelo menos tem um quarto para os filhos. A revolta do menino expressa-se entre o mutismo e isolamento e a necessidade de “gritar” dando pontapés no caixote do lixo ou arremessando a bola à parede dentro de casa. O urso de peluche que permanentemente segura é o conforto que não encontra à sua volta. A menina, precocemente desperta para a realidade dos adultos e mostrando uma sensibilidade e uma notável capacidade de observação, não consegue calar a sua mágoa por as colegas da escola se rirem dos seus ténis com as solas coladas.

Katie, mãe solteira com duas crianças, a arcar sozinha com as despesas e as necessidades das crianças. Anulando-se e anulando as suas necessidades. Calcorreando as ruas de Newcastle deixando ofertas de trabalho de limpezas em casas particulares. Reparando e limpando a “sua” casa. Preparando as refeições para os filhos e fazendo “esquecer” a sua própria fome com uma maçã. Uma fome que não pode ser mais tempo calada quando, no banco alimentar e no meio dos produtos que vai recolhendo no cabaz a que tem direito, abre uma das latas de comida e a devora, soçobrando em choro convulsivo e pedindo desculpa envergonhada pelo seu acto. O banco alimentar que tem comida para ela e para as necessidades dos filhos, mas que não prevê outras necessidades básicas para ela como são os pensos higiénicos ou um desodorizante… Que ela vai ter que “roubar” num supermercado, porque as poucas libras que tem não as pode gastar nesses “luxos”, ela que é uma mulher pobre à procura de um trabalho que não há. Para ela, a solução é-lhe dada “caridosamente” pelo segurança do supermercado que lhe perdoa o acto que ficou registado nas câmaras de vigilância. Vender o corpo é um trabalho com saída garantida, já que ninguém lhe responde aos pedidos de emprego!

A solidariedade que Katie recebeu foi tão somente de Daniel. Desinteressada, sem contrapartidas. Apenas uma mão amiga que lhe faz alguns consertos em casa, que lhe prepara um jantar em família, que lhe faz um mobile em madeira para o quarto da menina, que consegue conversar com o menino e o acalma, que apela aos outros pobres que nos serviços da Segurança Social aguardam a sua vez para serem atendidos, para que deixem Katie passar à frente no atendimento!

A subtileza e sensibilidade de Ken Loach, dando título “Eu, Daniel Blake” ao filme, não esqueceu a outra parte da pobreza que geralmente é esquecida. Neste caso, Katie.

 

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