A armadilha italiana

Rafael Boulair

Na noite de domingo[1], Renzi caiu finalmente. A efemeridade do seu mandato explica-se pela instabilidade crónica do sistema político italiano. Com uma crise política no horizonte, o jogo volta a abrir-se e o panorama não podia ser mais desolador: a farejar o poder estão Berlusconi, um palhaço e a extrema-direita, num contexto de total ausência de uma força de esquerda capaz, coerente e mobilizadora. Recuando ao passado podemos certamente encontrar razões para o estado da esquerda italiana, como adiante veremos.

A armadilha italiana é, na verdade, uma dupla armadilha. Na televisão, a camarada do Front de Gauche e dirigente da Ensemble, Clémentine Autin, usou essa expressão para traçar um paralelo entre o contexto político italiano e o francês. Em Itália, a direita liberal-conservadora foi tirada do poder em 2006 e substituída por um governo do Partido Democrático, que traiu os trabalhadores e aplicou um programa igualmente liberal. Em França, Hollande, o Prodi francês, sucedeu a Sarkozy e prosseguiu a sua política. Desta forma, abriu caminho para o surgimento de uma direita ainda mais dura e ousada, aberta e orgulhosamente thatcherista (agora representada por Fillon), à semelhança do que representou o segundo governo de Berlusconi (2008), ainda mais duro que o primeiro. A esta armadilha estendida pelo dito centro-esquerda que virou muleta dos liberais (como se explana no documento O Centrismo no Trapézio) só se responde criando e articulando sujeitos políticos à esquerda dos partidos da Internacional Socialista.

Mas a verdadeira armadilha, mais do que o regresso ao passado pela porta traseira e com traços mais grosseiros é o papel da esquerda e a sua relação com os partidos sociais-liberais.

Há precisamente dez anos, a Refundação Comunista encontrava-se mais viva que nunca, impulsionada pelos movimentos sociais alter globais que por todo o mundo ganhavam forma e desenhavam uma resistência de novo tipo ao capitalismo globalizado. A sua participação no governo de Prodi subjugou a Refundação e os seus aliados à agenda do PD, sujeitando-a a uma vaga de medidas antissociais e de contrarreformas neoliberais, contra as quais nada fizeram. O caminho da co-governação conduziu à sua anulação – a esquerda não fez a diferença e a população não sentiu o seu impacto no seio da coligação. O que se seguiu foi uma inapelável derrota que significou a expulsão do Parlamento ao não atingir os 3% de votos e que a catapultou para o terreno da insignificância. O mesmo sucedeu sempre que a esquerda falhou com quem tinha compromissos e os trocou por alianças infrutíferas e contranatura – caso de França e do esvaziamento do PCF volvidos cinco anos de governo Jospin.

Em Portugal o problema formula-se da mesma maneira. Se é certo que uma aliança inédita tirou o governo mais reacionário desde o  25 de abril do poder, criando alguma esperança e principiando a recuperação de rendimentos, sabemos que só conseguiremos avançar com uma fortíssima pressão da rua, dos sindicatos e dos movimentos sociais, com exigências fortes: 35 horas para todos, fim das propinas, salário mínimo de 600 euros, uma profunda reforma fiscal, taxação das transações financeiras, imposto sobre as grandes fortunas, aumento do IRC.

Numa análise sobre a catástrofe italiana, “Bertinotti perdeu o Copyright”, Luís Fazenda, Carlos Santos e Vítor Franco tiraram a seguinte conclusão: “A participação gestionária num governo liberal, de centro-esquerda, pode até ser justificada para impedir males maiores às classes populares mas comete o crime de roubar a esperança numa alternativa social. Umas migalhas não fazem a dignidade numa luta de opostos. Ao acentuar-se a crise estratégica do reformismo mantinha-se o apelo ao reagrupamento das esquerdas políticas e sociais. A Refundação ao fazer parte da crise do reformismo produz desmembramento do espaço transformador, divisões, atraso na consciência social.”[2] Nesta luta de opostos sem tréguas, não podemos olvidar a que mestre servimos. A esquerda parlamentar e social deve trabalhar para virar o jogo, isto é, quebrar o bipartidismo, atrair os trabalhadores e a juventude para a o campo do Socialismo, condicionar o governo no que respeita o sistema financeiro (evitar a privatização do Novo Banco) e lutar pela desobediência ao diretório europeu. Porque, como afirmou recentemente Catarina Martins, sem pôr em causa a finança e a Europa, “estaremos a discutir tostões em vez de milhões”. A luta de opostos impele-nos a discutir de milhões. Para que sejamos essa esquerda grande que se agiganta na defesa de quem trabalha. Para que realmente valha a pena. E para que não caiamos na armadilha.


Imagem: .European Parliament – Matteo Renzi presents Italian Presidency’s priorities to MEPs. Alguns direitos reservados.

Notas:

[1] 4 de dezembro de 2016.

[2] Fazenda, Luís, Carlos Santos e Victor Franco, «Bertinotti perdeu o Copyright» [publicado originalmente n’A Comuna em Outubro 2007] disponível in Vírus.

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