Liberdade de expressão à moda capitalista

Pedro Celestino

Dizem que a sociedade capitalista é aquela que mais permite liberdade de expressão, não existe um governo a dizer-nos o que se pode ou não fazer e podemos criticar ou desinformar à vontade, até rende mais meia hora a criar noticias falsas do que a do que um dia a investigar e confirmar noticias.

O capitalismo é mesmo a sociedade da liberdade de expressão, exceto se fores empregado, nesse caso durante oito horas por dia só falas o que a politica empresarial deixar, só vestes a farda que a empresa deixar, ou só comes e vais à casa de banho quando te deixarem, porque isso de os trabalhadores se organizarem a si próprios é coisa de comunistas (ou pior) que privam os outros da liberdade. E pelo sim e pelo não, é melhor ter cuidado com o que se publica no Facebook, pois o empregador até costuma fazer uma vistoria antes de contratar, não vá o empregado querer coisas estranhas, como salários justos, ou ser um agitador social que fale em sindicatos e direitos laborais. E se fores de uma minoria menos aceite pode ser pouco rentável para a entidade empregadora, pode ser melhor esconder isso também.

Depois, como sociedade também é melhor não falar de certas coisas muito a sério, por exemplo, da renegociação da dívida, da permanência do euro, de medidas distribuição da riqueza, da propriedade privada… E em caso nenhum fazer referendos ou outras fontes democráticas de instabilidade. Não se vá assustar os mercados e os investidores ou quem têm dinheiro e propriedade no geral, afinal a liberdade tem um preço que é pago cada vez que as misteriosas e anonimas forças dos mercados levam um país a falência ou aos resgates financeiros. Só os mercados quando falam em privatizar, despedir ou reduzir direitos laborais é que não causam instabilidade na vida das pessoas.

Sim, podes continuar a dizer o que quiseres, a carteira vazia não te impede de falar ou de pensar, só impede mesmo de ter uma vida decente, e por vezes a escolha é mesmo essa: liberdade de expressão e escolha ou uma vida decente.

Mas de facto permite muita liberdade, permite até que o Google ou o Facebook façam dinheiro só por se dizer coisas, coisas que os autores sabem ser mentira. A disseminação da mentira e da desinformação nesta era de “pós-verdade”, segue as leis de mercado porque é ela própria uma mercadoria, e o seu valor não depende da sua qualidade ou veracidade. O problema não é ser a era da pós-verdade, mas sim do capitalismo da informação.

Felizmente até existem alguns pontos de resistência, na lei laboral por exemplo, aquela mais visada pela troika de forma a facilitar despedimentos e tirar direitos, para mais facilmente ter poder sobre quem precisa de trabalhar para outros. E em qualquer altura em que o desemprego sobe e não existem meios sociais de manter a qualidade de vida, vemos o quão frágil elas são.

Quem têm razão é o cantor quando diz “Só há liberdade a sério quando houver, a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver, liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir”[1], ou seculos antes dele, o filosofo quando diz “uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém”[2].

Que não haja enganos, nas sociedades capitalistas a liberdade de cada um depende largamente do capital de cada um.


Imagem: Chris Devers – Banksy in Boston: F̶O̶L̶L̶O̶W̶ ̶Y̶O̶U̶R̶ ̶D̶R̶E̶A̶M̶S̶ CANCELLED, Essex St, Chinatown, Boston. Alguns direitos reservados.

Notas:

[1] Sergio Godinho, Liberdade

[2] Rousseau, citado de memoria

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