Johnny Got His Gun

Sara Azul Santos

Existe neste filme uma associação negativa de mutilação, medo e desespero à guerra – que pode fazer desta história uma das mais poderosas afirmações artísticas anti-guerra do século XX.

“Johnny got his gun” é um filme Americano de 1971 dirigido e escrito por Dalton Trombo, baseado no romance homónimo de Trombo. O título do filme e do livro é baseado num slogan usado para a captação de jovens para a primeira guerra mundial – “Johnnie get your gun and be a soldier” popularizada pela musica de George Cohan – Over there.

Sendo o título do posterior filme uma resposta a um dos versos desta canção, evidenciando o facto do jovem soldado ter ido para a guerra e ter tido as subsequentes consequências, tem, nesse sentido, uma conotação de tom irónico.

O filme conta ainda com a participação de Luis Buñuel na filmagem de uma das cenas do filme. E é considerado um filme culto que marca a cultura popular (exemplo disso é o uso de cenas do filme no videoclipe da musica “one”, música vencedora de um Grammy em 1989, data do seu lançamento, da banda norte-americana Metallica, o que levou à posterior compra dos direitos do filme pela própria banda)[1].

O filme centra-se num soldado que perdeu os membros superiores e inferiores bem como todos os sentidos à exceção do tato. Joe Bonham permanece assim preso no seu próprio corpo enquanto tenta comunicar com o exterior, muitas vezes pedindo para ser morto (tomando recurso à eutanásia). A privação dos sentidos de Joe juntamente com todos os flashbacks da primeira guerra mundial, fazem desta obra cinematográfica um filme muitas vezes aclamado como “antiguerra”.

A primeira consequência da guerra que observamos no filme é a perda dos membros e posterior perda dos sentidos do protagonista (que de uma perspetiva marxista, poderá ser entendido como uma perda de sentidos devido à subjugação ao capitalismo, de notar que Marx entendia o comunismo como um sistema que enaltecia e alargava todos os sentidos do individuo, enquanto o capitalismo retirava a liberdade e alienava os homens das suas reais qualidades humanas).

A dialética entre classe operária e classe dominante está presente na obra, o que muitas vezes leva à busca do protagonista por uma certa liberdade e democracia para todos – pois é revelado que Joe se sente um pouco céptico em relação a estes dois conceitos, já que muitas vezes a democracia e a liberdade apenas funcionam para a elite e se moldam consoante as necessidades da upper class. A análise desta obra segundo uma perspetiva marxista pode ajudar ao entendimento político da mesma, porém o protagonista difere muitas vezes de uma perspetiva socialista ortodoxa (especialmente no que ao livro diz respeito).

O diálogo interior de Joe, muitas vezes associado a uma claustrofobia sentida pelo próprio e experienciada pelo espectador que ao decurso da longa-metragem se indaga como seria apenas sentir, sem experienciar os outros sentidos, pode ser vista em paralelo com a própria experiência de guerra. Dalton Trombo leva então ao extremo as sensações e a subsequente falta delas no decurso da primeira guerra mundial. Há uma sensação quase sempre presente que Joe está entre o sonho e a realidade, talvez seja esta uma forma para o protagonista lidar com a angústia de não conseguir comunicar para o exterior do seu corpo (e essa angústia é de certa forma revelada quando a partir das vibrações e do toque compreende que não possui membros inferiores e superiores, o que o leva a um agravamento do seu desespero e subsequentemente ao do espectador que se põe na pele do protagonista).

A nível técnico esta confusão também é presente, sendo a distinção apenas feita pela cor – a realidade é apresentada a preto e branco enquanto os delírios/ sonhos são apresentados a cores vividas.

É também de notar que enquanto os médicos não entendem que se trata de uma pessoa com perceção do que está à sua volta, tratam-na como um mero objecto sem vida e de estudo, como é de visualizar numa das primeiras cenas do filme. Por falta de camas no hospital, decidem relocar o soldado para uma sala de arrumos, dizendo que este não pode sentir absolutamente nada, ou seja que não é um verdadeiro ser humano. A guerra, neste caso, desumanizou o soldado mutilado. O que o espectador sente como uma injustiça, o próprio protagonista não consegue entender dada a confusão gerada pela perda dos sentidos.

Existe portanto uma associação negativa de mutilação, medo e desespero à guerra, que pode fazer desta história uma das mais poderosas afirmações artísticas anti-guerra do século XX. Muitas vezes, ao longo do monólogo interior do protagonista captamos palavras como “liberdade” e “morte”, sendo claro para o protagonista que sem a sua liberdade de perceber o mundo, dado a sua incapacidade física, a vida não tem qualquer valor ou importância, sendo a única solução a própria morte (neste caso com recurso à eutanásia, dada a incapacidade do protagonista).

O corpo de Joe é assim mais do que um símbolo de toda a destruição que a guerra gera em si, um processo de reflexão sobre o facto de sem sentidos tomarmos consciência de que a morte se sente sozinho.


Imagem: Capa do filme Johnny got his gun adaptada.

[1] Sendo também responsáveis pelo lançamento do filme em DVD, o que fez com que Johnny got his gun se tornasse um filme de culto.

Nota: Em Portugal o título do filme foi adaptado para E Deram-lhe Uma Espingarda… , no Brasil é usado o título Johnny Vai à Guerra.

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