Reflexões sobre Moda, Ética e Política

Filipa Filipe

Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. – Albert Einstein.

O que é a moda? De acordo com o dicionário online Infopédia, podemos perceber a existência de alguns significados distintos, como “costume de um dado meio ou de uma dada época”, “hábito repetido”, “indústria e comércio do vestuário”, “estilo pessoal” passando pela música (“modinha”) e pela estatística (“valor mais frequentemente representado numa série de observações”)1.

Segundo o sociólogo francês Gilles Lipovetsky a moda é a manifestação social mais icónica da estética. Ao longo dos séculos a moda tem sido simbolizada como fútil, por representar um ideal estético e também pela sua estreita associação ao consumismo e ao luxo, símbolos do capitalismo. Porém, será que podemos encontrar um lado menos superficial na moda2?

O mesmo sociólogo defende que o interesse na moda é superior no feminino, embora também existam muitos adeptos masculinos. Se por um lado a moda é ser como os outros, por outro implica diferenciar-se. Esta vem funcionando como uma encenação que erotiza o corpo feminino e acentua o poder masculino, conjugando mimetismo de classe e individualização. Pode dizer-se que há uma certa estrutura comum em termos de indumentária, variando consoante o género, sendo que a particularização surge mais ao nível da escolha dos pormenores e dos adereços2.

Admitamos é desde já, evitando preconceitos desnecessários, que qualquer peça de roupa pode ser usada por qualquer pessoa, independentemente do seu género. Pois sabemos que há homens que usam peças femininas e mulheres que usam peças masculinas. Todavia e falando de uma forma genérica, a moda serve como demarcadora do género com o qual a pessoa se identifica. Consideremos também que existem mulheres que se identificam com o estilo “masculino” (força, virilidade, energia) e homens que se identificam com a estética “feminina” (delicadeza, fineza, leveza). Só por este prisma podemos perceber que a moda não se resumirá apenas à futilidade que é veiculada por um sector da sociedade, pois esta em termos gerais tem o propósito de demarcar a identidade sexual2.

Deixando a função diferenciadora da moda em relação aos sexos de lado, não poderá esta ser mais uma exteriorização da expressividade interna e da criatividade, orientada por princípios de sustentabilidade e de ética? A par das inquietações sociais e em particular com os trabalhadores, o fenómeno da preocupação animal e ambiental tem vindo a ganhar expressão nos últimos anos tem-se alastrado também no universo da moda. Um ícone do movimento de libertação animal é o filósofo e activista Peter Singer que está muito ligado às questões da Ética. Escreveu o livro Libertação Animal e com ele geraram-se repercussões fundamentais ao nível prático. Inúmeras empresas de produção cosmética e alimentar tiveram de modificar as suas formas de produção e teste dos produtos3.

Consideremos agora algumas manifestações concretas que ilustram as preocupações acima mencionadas. A ONG Greenpeace tem exigido a inúmeras marcas de moda de luxo o compromisso de desintoxicação das suas roupas, através de campanhas de sensibilização no seu site, nas redes sociais e in loco4. A marca de roupa Indiginous garante que usa apenas fibras naturais e algodão orgânico na concepção do seu vestuário, assim como respeita os seus artesãos pagando-lhes de forma justa e assegurando-lhes condições de trabalho em segurança5. A estilista Stella McCartney (filha do emblemático Beatle Paul McCartney) que num universo de luxo conceptualiza apenas vestuário e acessórios vegan, ou seja, materiais isentos de qualquer ligação à exploração animal. Além do mais a sua marca esforça-se por garantir a sustentabilidade através do uso de materiais reciclados, do algodão orgânico e da escolha de fontes certificadas e responsáveis6. Como último exemplo temos a tecnologia ecológica Piñatex® que consiste no aproveitamento das folhas do ananás para imitar o couro animal. Assim não se matam animais e não se recorre a fertilizantes e a pesticidas que prejudicam o meio-ambiente7.

Em jeito de uma possível conclusão, está na hora de quebrar mais um preconceito sobre a moda. Pois como pudemos constatar, esta não se resume apenas à sua afamada futilidade, embora persista a grande vertente ligada ao consumismo e ao luxo, reflexo do paradigma dominante em que vivemos. Todavia, coexiste ao seu lado uma importante contra-resposta que começa a ganhar cada vez mais expressão. Essa contra-força é constituída por preocupações concretas como as condições dos trabalhadores, o bem-estar animal e as Alterações Climáticas. Se a forma como o ser humano explora os recursos tem impacto directo no planeta, só teremos a ganhar se pudermos estender também ao um mundo da moda políticas de produção mais sustentável, que passem a contemplar a preocupação com os trabalhadores, os animais e o meio-ambiente. Desta forma, unidos, tornaríamos a indústria da moda um domínio mais ético e sustentável.

A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original. – Albert Einstein.


Imagem:  Greenpeace.org.

Bibliografia:

1 Moda in Infopédia.

Lipovetsky, G. (2016). Da leveza. Para uma civilização do ligeiro. Edições 70, Grupo Almedina: Lisboa.

3 “Peter singer filosofo e ativista” in Fronteiras.com.

4 “Detox campaign” in Greenpeace.org.

5  Ver Indigenous.com  .

6“A modern business” in Stellamccartney.com.

7 “Pinatex” in Ananas-anam.com.

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