A persistência da disjuntiva

Rafael Boulair

Foi a questão de classe que determinou a derrota de Hillary. Agora mais do que nunca, Socialismo ou Barbárie.

A alarmante mas não inesperada vitória de Donald Trump tem feito correr muita tinta. Ela assusta por representar o regresso à cena política de um espectro que já tínhamos olvidado e que julgávamos ultrapassado.

Houve quem acertasse no prognóstico, como Michael Moore, e quem se equivocasse redondamente. Mais importante do que isso é compreender a chave deste resultado e as consequências que acarreta para todo o mundo.

É inegável que a insistência do candidato em temáticas misóginas e racistas lhe deu o apoio do povo conservador já radicalizado. Mas o fator que fez a diferença e decidiu o resultado das urnas é de outra ordem: foi a questão de classe que determinou a derrota de Hillary. Ao analisarmos de perto os dados, percebemos que o candidato fascista (definido por alguns como de direita populista) arrebatou a totalidade dos estados do cordão operário industrial do Midwest (não só alguns swing-states, como o Ohio e o Iowa, mas também outros que votavam democrata há décadas, a saber o Michigan, a Pensilvânia e o Wisconsin). Tendo Clinton o apoio incondicional de uma parte importante da burguesia, de Wall Street à indústria da guerra, Trump virou-se para o eleitorado da classe média em declínio e para os trabalhadores pobres. Na véspera das eleições, declarou num comício no Michigan, preto no branco: “Amanhã será a vingança da classe trabalhadora”. Não teve pejo em exortar ao voto da “working class”, que se sentia traída por governo atrás de governo e não está perto de perdoar Bill Clinton pelos tratados desastrosos e destruidores de empregos como o NAFTA. Não podemos negar, por muito que nos desagrade, que houve eleitorado de Sanders a votar em Trump (tendo Sanders ganho as primárias da maior parte dos estados do Midwest na primavera). À medida que se torna evidente o regresso da História que os neoliberais tinham metido na gaveta, julgando poder fazê-lo para sempre, vemos a derrota aplastante da retórica “pós-materialista” de Clinton e Obama, que desdenhava a questão de classe e a substituía pela famosa coligação Obama, em que entrava o voto das minorias e que se materializou no slogan “Stronger Together”.

Sabemos que a esta vitória se podem vir a juntar outras e que a Europa não está imune à extrema-direita, muito pelo contrário. Para o ano haverá eleições na Alemanha, na Holanda e em França e os resultados são imprevisíveis.

O fascismo que agora ressurge com força vem cumprir o seu papel histórico: desviar a energia, a cólera e a atenção dos trabalhadores, absorvendo-as para o interior do sistema. Em tempos de declínio e crise do capitalismo e na era das contrarreformas, as políticas que têm sido levadas a acabo um pouco por todo o mundo ocidental vêm demonstrar a pertinência e a atualidade das contradições entre capitalismo e democracia, entre capitalismo e direitos humanos, entre capitalismo e liberdade (para infortúnio de Milton Friedman). O capitalismo revela a sua verdadeira face-autoritária, antidemocrática e incompatível com qualquer respeito por normas que restrinjam a sua ação, ainda que sejam os direitos humanos. Não esquecemos o alerta de Marx: “O capital tem horror à ausência de lucro. Quando fareja lucro, torna-se ousado. A 20% fica entusiasmado, a 50% é temerário, a 100% enlouquece à luz de todas as leis humanas e a 300%, não recua perante nenhum crime.”

Enquanto existir capitalismo, existirão contradições inerentes ao sistema. E face a esse mesmo sistema apresenta-se uma alternativa à barbárie – o Socialismo, única via para a superação dialética da exploração e das classes, das opressões de “raça” e de género e construir o futuro no qual os trabalhadores e o ambiente não sejam abusados. Até que o capitalismo finde e principie a Era da Revolução, confrontar-nos-emos à disjuntiva que a realidade nos impõe: agora mais do que nunca, Socialismo ou Barbárie.


Imagem: Andra Mihali – Occupy socialism, Brooklyn Bridge, 1 de outubro de 2011. Alguns direitos reservados.

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