Não é uma extravagância, Trump é mesmo um perigo

Moisés Ferreira

Nem excêntrico, nem louco. Trump é um perigo e um inimigo. Não devemos simplificar o fenómeno categorizando o indivíduo e esquecendo o projeto que representa. Nem devemos subvalorizar ou naturalizar os projetos conservadores, antidemocráticos e antissociais que ganham espaço em vários países.

Se foi um erro – aliás, cometido por muita gente – desvalorizar o anúncio da candidatura de Donald Trump aquando das primárias do Partido Republicano, seria um erro ainda maior subvalorizar a sua eleição como Presidente dos EUA.

Não olhemos para o acontecimento como uma mera excentricidade da História que a própria História corrigirá por natureza. Não existem tais mecanismos de correção automática. A crença num determinismo regido pelo bom senso é, antes de mais, infantil e inocente. E, no plano estratégico, apenas serve para desmobilizar a oposição.

Não caiamos na simplificação, apelidando Trump de louco. Até o pode ser, mas o que está em causa não é um diagnóstico mental. O que está em causa é que ele representa um programa de retrocesso e desigualdade social e tem, com maior ou menor consciência das próprias, um suporte de massas para a concretização desse programa.

Não naturalizemos o processo dizendo que ‘agora que ele chegou ao poder não vai fazer nada de diferente’. Essa é a ladainha estafada do ‘são todos iguais’. Sabemos bem que não são todos iguais, representam diferentes interesses e convicções. Mais vale encarar e reconhecer a realidade que temos à frente dos olhos: há uma Direita em crescimento que é mais reacionária, fanática e conservadora, mas que se afirma com um discurso antissistema. Não farão tudo igual. Não deixarão tudo na mesma.

O resultado das eleições nos EUA já se tem feito sentir na sociedade norte americana, com convocação de manifestações celebratórias do Klu Klux Klan ou com o relato da multiplicação de diversos atos de racismo, sexismo e islamofobia em espaço público. Não é só boçalidade. É um projeto que encontra agora abrigo na Presidência dos EUA. Vejam-se as nomeações para a Casa Branca: supremacistas brancos e rostos da extrema-direita a ocupar o lugar de principais estrategas e conselheiros, dividindo e partilhando as nomeações com banqueiros e pessoas da Goldman Sachs.

E o problema não é um problema lá do outro lado do Oceano; desenganemo-nos. Basta ouvir Marine Le Pen, esperançada no efeito de contágio que a catapulte para o poder em França. Ouçamos também porta vozes de uma certa burguesia clamando por soluções mais trumpistas. Não é despicienda esta consonância de posições entre um projeto político mais à Direita e os interesses da burguesia. Exemplo disso é a última entrevista de Ferraz da Costa.

Dizia o Presidente do Fórum para a Competitividade, depois de disparar contra a devolução de rendimentos, contra o aumento do salário mínimo e contra os sindicatos, que Portugal precisava de uma Direita mais tipo Trump. O PSD não chega, continuava Ferraz da Costa, é preciso uma solução mais ‘liberal’ ainda, uma linha dura.

As forças reposicionam-se no terreno, a Direita inflete mais para a direita e burguesia, se lhe falam de redistribuição de riqueza, começa a clamar por soluções mais musculadas (passo o eufemismo) – como bem se vê no Brasil.

É uma luta e conhecemo-la bem. É a luta de classes. Desvalorizar os rostos do Trumpismo em nada nos prepara. O que nos prepara é perceber que as populações estão fartas do status quo e clamam por uma alternativa, por uma mudança séria do sistema, seja ele económico, seja ele político. E que a Direita está a concorrer nesse terreno, transformando-se num projeto cada vez mais conservador e cada vez mais próximo da extrema-direita.

À esquerda exigem-se respostas. Talvez as encontremos na questão: por que razão o Partido Democrata perdeu com Hillary mas teria ganho com Sanders?


Imagem: Michael Vadon – Donald Trump Sr. at #FITN in Nashua, NH. Alguns direitos reservados.

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