Žižek apoia Trump, surprise?

Luís Fazenda 

Há muitos anos que venho criticando as opiniões e teorias de Slavoj Žižek. Sempre apreciei a qualidade literária mas assinalei as indicações contraditórias para a luta social, como por exemplo sugerir ao mesmo tempo o pacifismo e a ação violenta de pequenos grupos ativistas, criando vários nós cegos para a perspetiva revolucionária, nomeadamente o desprezo pela democracia, burguesa ou outra qualquer.

Já dediquei artigos a esta matéria que podem ser vistos aqui: Žižek e o “fazer qualquer coisa”(1) e Notas acerca da teoria política em Žižek(2). Entender que Žižek era um neomarxista só podia ter ocorrido a gente que dá tratos de polé aos conteúdos de Karl Marx, qualquer que seja o plano de aceitação ou rejeição da sua filosofia, economia política e teoria do socialismo. Fiz essa crítica sem recorrer a desconsideração intelectual, como por exemplo fez Chomsky que disse que Žižek tinha a cabeça cheia de merda (full of shit).

Žižek não mereceria uma nota pública se muitos não tivessem criado um culto de personalidade em roda do pensador esloveno, a que não escapou Tsipras que conseguiu o seu apoio antes e depois da capitulação do Syriza ao resgate da troika. Mesmo em Portugal não faltou quem achasse que ali estava o autor de um virtuoso eureka. Neste pequeno artigo falo mais na primeira pessoa do que é usual, compreender-se-á que o faça depois das duras recriminações de que fui alvo por alguns deslumbrados da praça, pouco atentos ao que é substancial na luta de classes e extasiados com uma desformalização pretensamente pós-moderna.

A extravagante iluminação de Žižek em entender que o apoio a Trump é que destrói Wall Steet e cria o caos libertador in USA: é grotesca (3). Ao apoiar um fascista para combater o regime, ignora que Wall Street também sustém Trump. Todos os fascistas que se alcandoraram ao poder tiveram a cumplicidade do grande capital. Mas mesmo que Hillary fosse o único carro da burguesia americana e estrangeira, não se pode apoiar a extrema-direita racista, homofóbica, misógina, belicista. Além de que há outros candidatos, como Jill Stein, candidata verde, se não se quiser cumprir o apelo de mal menor de Bernie Sanders…

O destempero de Žižek não é surpresa, tudo e o seu contrário é possível para o diletantismo. Infelizmente, esse comportamento de alguém que se arrogava em papel de condutor de alternativas, causa bastante dano, sobretudo naqueles mais jovens que na viragem do século deram corpo ao movimento alter-global onde os escritos de Žižek pontificaram para muitos.


Imagem: Andy Miah – Slavoj Zizek in LiverpoolAlguns direitos reservados.

Referências:

1 – «Žižek e o “fazer qualquer coisa”». in A Comuna. 25 (maio 2011) 39-45.

2 – «Notas acerca da teoria política em Žižek». in Vírus. 2 série II (novembro 2012) 61-68

3“Slovenian philosopher Slavoj Žižek says he would opt for Donald Trump as the apparently less dangerous choice in the US election.” tweeted by Channel 4 News on November 3rd 2016.

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