Transformações na cidadania e o desencanto pela política

Filipa Filipe

É comum ouvirmos no nosso dia-a-dia expressões de senso-comum como “ah, eu não gosto de falar de política” e “os políticos são todos iguais”. São frases sintomáticas de um certo desencanto com a política.

As grandes ideologias do passado já não alimentam, na actualidade, a esperança num futuro promissor. Votar e participar na vida pública já não são vistos como deveres de cidadania1. Exemplo disso são as elevadas taxas de abstenção em várias votações decorridas em Portugal. A título ilustrativo, se tivermos em conta eleições para a Assembleia da República, contando com os residentes dentro e fora do país, podemos ver que em 1975 a abstenção foi de 8,5 %; a mais baixa. A abstenção foi aumentando ao longo dos anos, excepto em 1979, onde decresceu. Em 2015 a abstenção foi a mais elevada até ao momento, atingindo 44,1%2.

A cidadania tem sofrido alterações importantes. Em parte por interferência do modo de vida pós-moderno, onde domina o consumismo desenfreado e o capitalismo selvagem. Se por um lado, nas democracias ocidentais a partir dos anos 80 parece existir um crescimento da abstenção, em particular nos jovens, também se pode falar num novo perfil de eleitorado, que vota de forma pouco frequente e selectiva. Tende-se a atribuir como causa a indiferença generalizada dos cidadãos ao domínio do público e do colectivo. Mas será realmente assim? Curiosamente, vemos que cada vez mais a política está presente nos principais meios de comunicação e que nunca se produziu tantos livros sobre a vida política como agora. A militância política não desapareceu, porém, mostra-se mais circunscrita. Há mais eleitores que não seguem ideologias políticas, mas partilham algumas ideias de diferentes partidos. Pode-se afirmar então que a identidade política actual tem vindo a tornar-se mais subjectiva, mas também, mais oscilante e fortuita1.

Contudo, não só de democracia eleitoral se compõe a cidadania. Apesar da desconfiança dos cidadãos e das cidadãs pelos partidos ter aumentado, a verdade é que cresceram bastante os movimentos sociais e as lutas pela defesa dos direitos humanos e de protecção do ambiente. Continuam predominantes nas democracias as mediações dos partidos e da comunicação social dominante, todavia emergem novas formas de vigilância dos poderes pela sociedade civil. As novas tecnologias, que muitos teimam em demonizar, a par do aumento geral do nível de formação, têm sido os grandes impulsionadores desta transformação1. O desafio da saturação de informação, muito controlada pelos grandes grupos de comunicação social, vai sendo furada por meios de comunicação alternativos. A existência de meios de comunicação alternativos que possam ser referência de qualidade também é muito importante para que a alternativa não seja entre a comunicação social dominante e teorias da conspiração infundadas.

De um ponto de vista global, como podemos melhorar a cidadania e o envolvimento político que temos? É certo que nos tornámos mais individualistas neste mundo globalizado, onde coexiste a expansão do terrorismo. Este individualismo pós-moderno tem vantagens e desvantagens. Como vantagem podemos referir o aumento dos movimentos sociais em torno de diversas causas com vista a uma sociedade mais livre e mais justa. O nível de vida atingido por conquistas sociais anteriores, ainda que muitas estejam em declínio, abriu espaço à emergência de novas causas e ao surgimento de um novo perfil de cidadãs e cidadãos, menos consistentes na sua participação, mais selectivos nas suas causas. Como desvantagem podemos referir, novamente, a abstenção em assuntos de interesse público que, por falta de informação credível ou outro motivo de relevo, possa afastar as pessoas de se envolverem nos meandros mais políticos.

E porque não apostar no cultivo de uma comunicação global entre diversos grupos étnicos, nacionais, políticos e outros com o intuito de encontrar uma base comum de entendimento, com a maior abertura possível, transcendendo divisões ideológicas e culturais nas quais nascemos? Poderia centrar-se na disponibilidade desse colectivo diversificado em se esforçar por resolver os maiores problemas da Humanidade. Esta é uma das propostas apresentadas por Carlo Strenger no seu livro “O Medo da Insignificância”. O psicanalista existencial defende ainda a coabitação de visões de mundo abertas, onde não devem existir certezas absolutas. Pois facilmente se depreende – olhando para a História e para o momento actual – que são as formas fechadas de encarar o mundo que, normalmente, assumem o poder da verdade total, propiciando o alastrar de fenómenos de fanatismo moral e/ou religioso. Ou seja, é o totalitarismo de ideias, essa coisa de tentar encontrar uma solução única e eterna, bem como atiçar a intolerância à diferença, que leva a cometer os piores crimes contra a humanidade3.

É então tempo de repensar a nossa cidadania global, sem deixar de parte a esfera política. Pois só assim, despertos, activos e unidos em torno de bases comuns, podemos tentar garantir um melhor funcionamento da sociedade para o futuro, independentemente, das transformações sofridas ao longo dos tempos.


Imagem: Twitt de Salim Kassam sobre a Palestina.

Referências

1- Lipovetsky, G. (2016). Da leveza. Para uma civilização do ligeiro. Edições 70, Grupo Almedina: Lisboa.

2- “Taxa de abstenção nas eleições para a Assembleia da República: total, residentes em Portugal e residentes no estrangeiro – Portugal”. Pordata.

3- Strenger, C. (2012). O medo da insignificância. Como dar sentido às nossas vidas no século XXI. Lua de Papel, Chancela do Grupo Leya: Alfragide.

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