As saudades que o Schäuble tem do Passos

Luís Fazenda

Não surpreendem as afirmações do ministro das Finanças alemão, proferidas na Roménia para impressionar súbditos, em como o governo português anterior estava no bom caminho e o atual governo antes pelo contrário. E, em requinte de malvadez, diz que avisou António Costa, por intermédio de Mário Centeno, no princípio da coisa. Vamos ultrapassar o estilo e substância colonial do prussiano, já temos um longo e documentado capital de queixa.

O que se destaca neste apontamento é a escolha político-partidária que responsabiliza o governo alemão e a chanceler Merkel. Não tem desculpa mesmo para a retórica diplomática. Também não se trata de um ato do Partido Popular Europeu em misericórdia com Passos Coelho, ou de um ato pessoal de Wolfgang Schäuble, do género quando sentou num show para as TV’s a ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque para a exibir como troféu da austeridade, exemplo purificador da punição e sacrifício popular. Isso era ainda a pré-campanha antes das eleições de outubro de 2015. Agora é institucional, e repetidamente, o governo alemão afronta a democracia portuguesa e as suas escolhas.

O momento é singular, segue-se à capitulação do PSOE em Espanha que viabiliza o governo conservador e corrupto de Rajoy. Não é por acaso, passe o caso das sanções ainda em suspenso para portugueses e espanhóis, que o governo alemão procure isolar o governo português, o único que não integra completamente o lote dos seguidores do Tratado Orçamental. O único que não aplica cortes nos salários diretos e/ou indiretos, o único que não declarou guerra ao “Estado Social”.

Percebe-se que Schäuble não goste do Orçamento para 2017, é , aliás, a melhor caução à esquerda da sua aprovação, praticamente como um voto de confiança. Passos Coelho não quer e não pode demarcar-se do governo alemão. Mas isso é-lhe funesto junto da opinião pública, o ordenança da direita alemã.

A ideia de que o governo PS não deve reagir a provocações é errónea. Schäuble está a atiçar a Comissão e o “eurogrupo” contra o orçamento nacional que apesar de cumprir as regras europeias, e mal, não chega para os ditames do bloco conservador reacionário europeu.

O apelo ao povo português para se unir contra a excomunhão germânica seria um passo importante, interna e externamente. O facto de o partido congénere do PS na Alemanha, o SPD, estar no governo com a direita não pode conduzir a um condicionamento do governo português, ninguém o pode justificar perante a continuada agressão troikista, apesar da dita saída limpa do memorando do resgate odioso.

O tricot permanente com os burocratas de Bruxelas, às ordens de Schäuble, não é aceitável, em nome de um embuste e de uma exigência da direita, o défice estrutural zero, com a ameaça de a dívida se desmoronar deste lado do Atlântico ali pela Praça do Comércio.

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