Uma nova “Guerra Fria”?

João Vasconcelos

O que foi a “Guerra Fria”? Foi o nome que se deu ao período de grande tensão político-militar existente entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos da América, a seguir à vitória dos Aliados na II Guerra Mundial. Embora não tenha chegado a existir uma luta armada, as provocações mútuas entre as superpotências e a corrida aos armamentos davam a ideia de que a guerra ia começar a qualquer momento.

Embora evitando o confronto direto, as duas superpotências manifestavam a sua hostilidade através da propaganda política, do reforço do armamento nuclear e do apoio político e militar e, até, no envolvimento direto em determinados conflitos em várias partes do mundo. Era a chamada luta por zonas de influência. Em muitos destes conflitos o mundo esteve, de novo, à beira de uma nova guerra mundial. Uma nova guerra que seria devastadora à escala planetária se houvesse o recurso às armas atómicas.

Os primeiro conflito de risco extremo e que deu início à “Guerra Fria” foi o bloqueio da cidade de Berlim pelas tropas soviéticas em 1948, alegando Estaline que as outras três potências – Grã-Bretanha, França e EUA – que administravam parte da cidade e que pretendiam unificar as suas zonas, estavam a violar os acordos de Potsdam. Durante quase um ano os EUA e os seus aliados estabeleceram uma ponte aérea para abastecer a parte da cidade que controlavam. Depois do levantamento do bloqueio em 1949 operou-se a divisão da Alemanha em dois Estados – a República Federal Alemã (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA).

Outros acontecimentos, mais significativos da “Guerra Fria” foram: a guerra da Coreia em 1950, a guerra do Vietname nos anos 60 e até 1975, a Revolução Cubana com a vitória de Fidel Castro em 1959, a crise dos mísseis de Cuba em 1962, a construção do muro de Berlim em 1961, a guerra civil de Angola em 1975 e a invasão do Afeganistão pela URSS em 1979. É preciso ter em atenção que a criação da NATO em 1949, e a formação do Pacto de Varsóvia em 1955, agudizaram o clima de “Guerra Fria” vigente.

Com a subida ao poder de Mikhail Gorbatchev na União Soviética, em 1985, começaria o princípio do fim da “Guerra Fria”. Em 1987 são assinados acordos com Ronal Reagan para a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão e para a destruição de alguns tipos de armas nucleares. Em 1989 o mundo assistiria à queda do muro de Berlim e em 1991 ocorreu a desintegração da União Soviética. No mesmo período assistiu-se ao desmoronamento do chamado “mundo comunista” de influência soviética, à reunificação da Alemanha e à extinção do Pacto de Varsóvia e do COMECON. Terminava assim o período da “Guerra Fria”, também conhecido como o do “equilíbrio pelo terror”.

Durante mais de duas décadas têm sido os EUA os grandes “senhores do mundo”. Têm dominado o mundo de forma unilateral como a única superpotência à escala planetária. Ao “equilíbrio pelo terror” seguiu-se o “terror do desequilíbrio”. A ONU transformou-se ainda num maior joguete nas mãos dos EUA e a NATO, a soldo deste país, passou a funcionar como a mão armada da globalização capitalista neoliberal. O mundo vai assistir à intervenção na Jugoslávia o que conduziu à sua dissolução, às invasões e guerras no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria. Tudo isto irá contribuir fortemente para a radicalização do extremismo e terrorismo islâmicos, para o recrudescer dos movimentos de extrema-direita e para as vagas de refugiados que assolam a Europa.

O ataque às torres gêmeas em 2001 significou um dos maiores ataques ao coração do império. Este responde de forma violentíssima com as invasões e guerras acima referidas. As consequências têm sido terrivelmente trágicas: destruição de países inteiros, massacres inauditos, surgimento de fenómenos negros como a Al-Qaeda e o Daesh, proliferação do terrorismo, crise financeira e económica, desemprego massivo, crescimento da pobreza e da exclusão.

Outros fenómenos, igualmente, se impuseram na última década: a emergência de novas potências mundiais, a caminho de se transformarem em novas superpotências, tanto a nível militar, como económico. São os casos, em particular, da Rússia e da China. Estes países cada vez se reforçam mais, realizam manobras e demonstrações de força, anulam tratados internacionais e modernizam os seus arsenais de armamamento, incluindo os nucleares.

O caso concreto da Rússia é bem evidente: como resposta às provocações da NATO e do Ocidente, Putin invade e anexa a Crimeia, encontra-se por trás das Repúblicas separatistas do leste da Ucrânia, intervém com bombardeamentos massivos na martirizada cidade síria de Alepo, rivalizando com os bombardeamentos americanos e franceses, coloca mísseis nucleares de última geração no enclave de Kalininegrado, desloca as suas frotas de guerra a caminho da Síria e noutras partes do mundo, etc.

Até já circula que o mundo se encontra a caminho da III Guerra Mundial. É de todo aconselhável que não seja o louco do Trump a vencer as eleições americanas. Uma coisa parece certa – vivemos num clima de uma nova “Guerra Fria”. Com as inevitáveis consequências que daí podem resultar.


Imagem: Um campo de petróleo do Kuwait incendiado e um tanque iraquiano T-55A abandonado após Operação Tempestade no Deserto, 1 de março de 1991 (Wikimedia Commons, domínio público). Imagem apenas sugestiva da destruição da guerra.

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