PSOE no beco

 Luís Fazenda

A capitulação do Partido Socialista Obrero Español, permitindo pela abstenção parlamentar a viabilização do governo de Rajoy, é um facto, já esperado, para mim ainda antes da demissão do seu ex-líder Pedro Sanchez.

A pressão do capitalismo europeu, das estruturas “informais” da União Europeia, a campanha dos barões territoriais internos, destruíram o veto a Rajoy que saía da legitimidade de duas eleições consecutivas para as Cortes. E o pretexto foi mesmo tentar impedir umas terceiras eleições, obrigatórias em Espanha em caso de insucesso na formação de governo. E esta é a primeira questão que chama a atenção: como é possível repudiar o mandato popular? Todo o argumentário, aliás escasso, para fundamentar o volte-face do PSOE resume-se a uma alegada falta de credibilidade internacional do Estado, ao nervosismo dos mercados, ao desgaste do eleitorado. Nada disso tem correspondência sequer em factos de qualquer gravidade. A única razão que levou Susana Diáz, presidente do governo regional da Andaluzia, e os seus acólitos no partido, a abrir a porta a Rajoy foi o receio, ilustrado pelas sondagens, de que o PSOE se despenharia caso houvesse terceiras eleições. Donde, o compromisso político com o povo foi substituído pelo privilégio da discricionaridade dos titulares do sistema.

Sublinhe-se, então: não sendo o PSOE o partido mais votado podia ter conseguido uma maioria de governo com Unidos Podemos e partidos nacionalistas, coisa que o PP de Rajoy não conseguiu com os Ciudadanos de Rivera. E por que não o fez? Por urticária do PSOE ao Podemos? Com certeza que há um contencioso entre os dois partidos e em especial muita irritação emocional dos políticos que foram acusados de pertencerem a uma casta oligárquica. Mas convenhamos, o Unidos Podemos não questionava a União Europeia ou a NATO, ou o Reino, Pablo Iglésias reclamou-se da social-democracia e garantiu que o PSOE não teria dificuldade na liderança, as reivindicações sociais eram mínimas. Temos de concluir que a questão das nacionalidades, com o foco na Catalunha, foi o tabu do PSOE. Ao rejeitar a hipótese de acordo com partidos nacionalistas, ao recusar o referendo da Catalunha sobre autodeterminação que o Unidos Podemos também defendia, Sanchez e o PSOE traçaram a sua sorte. A Rajoy restava esperar. E logo após a decisão socialista de agraciar o PP, Rajoy faz uma declaração ameaçadora à Catalunha, para onde segue o conflito. O espanholismo estreito do PSOE tramou o PSOE e vai tramá-lo ainda mais na oposição dócil que é a única que lhe autorizam. A esquerda espanhola tem daqui de retirar a ilação de que não basta querer uma reforma constitucional, que ultrapasse o regime de 78. Sem direito à autodeterminação das nacionalidades históricas, a esquerda, mesmo a sucessora do “filipismo”, não tem hipótese. E a esquerda radical ou assim-assim, se não assume o protagonismo dessa causa estruturante da democracia que é a organização da plurinacionalidade, podem continuar a mobilizar massas para combater o austericídio e a corrupção, contudo falta-lhes perspetiva de poder, o PP mesmo em minoria dá as cartas.


Imagem: FSA-PSOE – Javier Fernández, atual presidente da Comissão Gestora do PSOE. foto de 2012. Alguns direitos reservados.

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