Ni una menos

Rosalina Silva

Durante esta semana fomos confrontados com a triste notícia da morte de uma jovem de 16 anos na Argentina. Ela chamava-se Lucía Pérez. Lucía foi drogada e violada até a morte por dois homens. Uma violação grotesca (quando é que não é?) e sádica, ao ponto de introduzirem objetos pontiagudos na sua vagina e no seu ânus, levando-a a um trágico final. O cenário animalesco agrava-se, quando os agressores tentaram disfarçar as suas ações e levaram a vítima para o hospital, após ocultarem todas as evidências do crime. A frieza do ato chega ao ponto de lavarem e vestirem a jovem, culpabilizando-a de morte por overdose.

Lucía não foi a única. Durante este mês ocorreram 19 femicídios em 19 dias na Argentina. Um número que choca e revolta as mulheres, que todos os dias lutam contra a violência machista existente na nossa sociedade. Na rua, encontram-se diversas manifestações sob o lema “Ni una menos”, fazendo as mulheres gritarem “basta de violência machista”. Basta de tratarem a mulher como um objeto, com o papel tradicional que culpabiliza a sua forma de estar na sociedade. Não queremos mais mortes porque uma jovem decide usar uma saia curta ou um decote. Queremos uma sociedade onde haja igualdade nos direitos, onde uma mulher não seja tratada com condescendência ou paternalismo simplesmente porque é mulher.

Sabemos bem que estas situações passam por uma questão de patriarcado intrínseco na atual sociedade. Por conseguinte, resta-nos um longo caminho a percorrer onde o machismo existe, mesmo que inconsciente, nos dias que correm. O que acontece na Argentina e em muitos outros países é uma barbaridade. Apenas com as mulheres unidas na rua é que podemos criar o alerta para a falácia da igualdade de género na sociedade atual.

A transformação social chega sempre com o sofrimento dos outros. Chega sempre tarde, mas chega. Refletimos que uma mulher não é mais ou menos que um homem. Merece sentir-se confiante e sempre com uma voz ativa, sem medos ou receios de um julgamento pré-concebido de “os homens sim sabem falar, sabem estar, estão naturalmente à vontade no espaço público.” Esse julgamento, destronador de confiança feminina no espaço público, deve-se ao facto das mulheres (apesar de algumas mudanças) viverem sob a conformação de que elas precisam dos homens, estão bem com as atividades que lhe são atribuídas, estão bem em sentirem-se inferiores.

O que aconteceu com a Lúcia e as outras mulheres é mais um início da revolta feminina. Chega de opressões ao nível dos papéis sociais e tudo o que implica a menorização das mulheres, dos preconceitos nas escolhas que fazem seja qual for a sua razão.

Seja a idade, a classe social, a sexualidade, religião, raça ou ideologia, as mulheres têm de ser livres contra todas as explorações, opressões e discriminações. Fora o machismo!

“Ni una menos, vivas las queremos.”


Imagem: Agustín Sorgin – Manifestação #NiUnaMenos de Montevideu – Uruguai em 2015Alguns direitos reservados.

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