Sobre o Fascismo

Rafael Boulair

Há um espectro que paira sobre o mundo ocidental: é o espectro do fascismo.

Durante décadas julgámo-lo desaparecido, peste do passado que jamais regressaria. Hoje, porém, confrontamo-nos com a realidade. O fascismo está de regresso em força à política, está vivo e de boa saúde.

Uma análise sensata obriga-nos a concluir o seguinte: a extrema-direita não tem apenas sucesso eleitoral no Velho Continente. Está a espalhar-se para além da Europa, surgindo em quase todos os países que comungam uma política económica e social austericida. Nuns casos são forças eleitorais emergentes, noutros marcam protestos significativos ou, mesmo, ações terroristas minoritárias, mas pojantes. A sua presença espalha-se do Canadá à Austrália, passando pelo Brasil e pelo Japão.

O fenómeno que provoca a redação deste artigo é totalmente novo. Trata-se do surgimento de um movimento político de cariz fascista na América (Make America Great Again) e do respetivo candidato, Donald Trump. Michael Moore escreveu um alarmante artigo em que, lamentando-se, evocava a probabilidade da vitória do referido candidato. Elencaremos alguns motivos pelos quais Moore pode estar certo.

O primeiro combustível de Trump é, nada mais, nada menos do que Barack Obama. Defraudou esperanças e sonhos do americano comum, ao recusar-se a ter o mesmo papel que Roosevelt tivera – logrando travar a ascensão do fascismo (e também do comunismo) com a sua política de conciliação de classes e de relançamento da economia.

A alternativa democrática ao fascismo de Trump – Bernie Sanders – ficou a meio da corrida para a Casa Branca. A sua derrota à tangente face à candidata do establishment permite a Trump afirmar-se como a única oposição ao sistema capaz de atender às reivindicações gritantes da classe média proletarizada dos estados industriais do Midwest (alguns deles swing states) e todos trabalhadores no seu todo.

A melhor maneira de abrir caminho ao fascismo é, para o (un)democratic party, colocar como candidata o rosto da velha política neoliberal dos anos 90, famosa pelo seu entusiasta apoio aos acordos de comércio livre (gold standard) e às guerras imperialistas – mais uma frente na qual Trump tem vantagens por ter estado sempre afastado do poder político, podendo facilmente demarcar-se.

Os Estados Unidos entraram, com a crise de 2008, num período de decadência do seu império e da sua influência no mundo. Numa democracia corrupta, classista e decadente, evitar o triunfo do “Mussolini americano”, como o definem vários historiadores, é crucial uma esquerda como capacidade para disputar a hegemonia política, social e cultural que lhe permitirá, porventura, terminar o trabalho de Sanders e alcançar o poder em 2020.


Imagem: Darron Birgenheier – Donald Trump in Reno, Nevada. Alguns direitos reservados.

Anúncios