Syriza no marasmo

Luís Fazenda

Alexis Tsipras dirigiu-se ao 2º Congresso do Syriza, a 13 de outubro, sem se referir à direita e extrema-direita que acossam o governo grego. Por incrível que pareça, todo o discurso, a que tivemos acesso por extensas notas do gabinete de política internacional do partido, é um repositório de acusações aos adversários de esquerda. Tsipras, que aplica na Grécia como primeiro-ministro os ditames austeritários do ministro das finanças alemão, Schauble, com consequências sociais de uma brutalidade inaudita, acusa agora os seus opositores de serem cúmplices do plano de Schauble para expulsar a Grécia do euro. A esquerda helénica que se manteve fiel ao resultado do referendo que disse Não a Berlim, fiel ao programa do próprio Syriza, é considerada inimiga do país e a sua gente uma espécie de niilistas destrutivos de qualquer ideia progressista e radical, assim pensa Alexis Tsipras.

A contradição nos termos é pesada mas a agressividade empregue é ainda mais pesada. O líder do Syriza entende que perante a chantagem da União Europeia, com a Alemanha à cabeça, para impor mais um resgate e respetivo memorando, a saída do euro nesse contexto teria sido um desastre de proporções históricas. Um desastre, que segundo ele, só responsabilizaria a esquerda grega e a esquerda europeia. O que é assinalável é que nesse extenso discurso há um esforço muito pormenorizado para demonstrar que o Syriza é melhor a distribuir a austeridade, já que o faz, a seu ver, protegendo as classes populares. Curiosamente, o primeiro-ministro não se refere sequer às greves e manifestações de trabalhadores que o seu governo tem enfrentado. A camuflagem que Tsipras faz da capitulação do seu governo pode parecer patética mas é com este tipo de vitimização que pretende impedir a progressão de forças consequentes à esquerda, e dar o mote para consumo interno eleitoral: o Syriza tem o salvo-conduto europeu, tem o respeito sacrificial dos delinquentes do “eurogrupo”. Por alguma razão, que não a realidade, Tsipras continua a intitular o seu governo como o único da Esquerda Radical (assim mesmo com iniciais maiuscúlas) na Europa. Sabe-se que o nome Syriza quer dizer isso mas é arrojo político, e muito.

Talvez por isso, o orador se tenha estendido na proposta da aproximação da esquerda radical à social-democracia e aos verdes. A pretensão não é nova e é sempre descrita como “frente contra a austeridade”. Dando de barato de que a credibilidade do proponente é nula, não é uma questão de convergência de governos no âmbito da UE, coisa que a Grécia tem tentado mas debalde e que seria compreensível. Aí o problema é que a França e a Itália, guiadas por sociais-liberais, como se sabe, não querem saber dos estados de alma de Atenas. A proposta de convergência com a social-democracia (assim denominada) e os verdes é nitidamente um processo ideológico e político. Mas aliança com quem? Não há nenhum partido membro do Partido Socialista Europeu que queira pôr em causa o Tratado Orçamental e toda a armadura das orientações contra o Estado social. Não há sequer unidade mínima para acolher refugiados de guerra, como tem sido dolorosamente evidente. Designadamente, o Partido Socialista francês é há muitos anos responsável por uma política colonial para com os países árabes, na origem de várias guerras. Com certeza, em algumas questões é possível estabelecer pontes com setores socialistas e isso não é negligenciável. Tal facto opera-se sem precisar de estruturar vizinhanças ideológicas. Há alguns partidos e setores verdes anticapitalistas com quem se pode lutar em conjunto, não será o caso dos verdes alemães, completamente vendidos ao capitalismo e possíveis parceiros de Merkel. A esperança Corbyn, ainda longe de se confirmar como projeto social-democrata, não chega para a amplitude dos desejos de Atenas.

O que Tsipras propugna, sem máscara, é a junção da esquerda radical em vários países aos respetivos partidos sociais-liberais. Objetivo: mudar o programa político, desistir do socialismo, abdicar da luta contra o Império. Será possível restaurar o fantasma da social democracia, o espírito de Olaf Palme? Isso é algo que a globalização capitalista arrasou pelas privatizações e pelo desarmamento fiscal dos muitos paraísos da fortuna. O reforço da esquerda europeia faz-se pelo crescimento dos seus partidos, dos movimentos sociais, das alianças progressistas que possam alargar o campo da alternativa de justiça social e paz. O perigo do crescimento da extrema-direita na Europa, e não só, não invalida o programa socialista, nem impede oposições democráticas alargadas. Certamente não dá cobertura à capitulação ideológica como campa da prévia capitulação política.


Imagem: Alexis Tsipras no 2º Congresso do SYRIZA.

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