“O nosso corpo, a nossa escolha”

 

No dia 3 de Outubro, as ruas de várias cidades da Polónia foram inundadas pelo sentimento de inconformação. Milhares de mulheres saíram em protesto contra a nova lei que o atual Governo queria implementar. A lei consistiria em criminalizar o aborto em qualquer circunstância.

A legislação, no que diz respeito ao aborto, já é bastante dura na Polónia, pois só permite que as mulheres recorram ao procedimento em casos de violação, incesto, má formação do feto ou quando a vida da mulher estiver em risco. Com a aprovação da nova lei, até mesmo nessas circunstâncias, o aborto seria considerado crime.

O descaramento e a estupidez dos conservadores atacam novamente, e estes tomam a liberdade de anunciar às mulheres que, caso sejam violadas e engravidem como consequência desse ato, serão obrigadas a ter o filho do seu violador. Informam que se a mulher tiver uma gravidez de alto risco, terá de colocar a sua vida nas mãos da sorte, rezar todos os dias e, se Deus for bom, conseguirão safar-se. Ridículo.

Felizmente, as manifestações na Polónia deram frutos e o Parlamento não aprovou a proposta. A coragem de todas as polacas merece um aplauso. Ganharam esta batalha. Infelizmente não ganharam a guerra e muito está ainda por fazer em relação ao aborto. A Polónia recuou na sua mais recente proposta, mas a velha doutrina conservadora e bafienta ainda não permitiu que o aborto fosse totalmente legalizado.

A proibição da interrupção voluntária da gravidez é um ataque à liberdade da mulher. Não é mais do que uma afirmação escrita no código penal, emanada de audácia que, no fundo, se traduz na ideia de que “no vosso corpo, manda o Governo”.

Mais uma vez, a religião toma as rédeas bem assentes nas suas mãos e impede a evolução das sociedades. A suposta imoralidade do aborto consiste na ideia de que este se trata do homicídio de um feto. Apesar de todas as tentativas já cansadas e aparentemente falhadas, teremos novamente de explicar aos conservadores beatos, que o aborto não está a matar um bebé. Está simplesmente a sugar células do útero, que viriam a tornar-se um feto com o passar do tempo.

A ideia de que, com a legalização do aborto, este passaria a tornar-se um método contracetivo e que as mulheres passariam a recorrer ao procedimento mais vezes, já se mostrou errada.

Em primeiro lugar, nenhuma mulher, em plena consciência, iria proceder ao aborto de forma regular. O aborto é um processo extremamente prejudicial ao corpo feminino, podendo até causar danos irreversíveis ao útero. Torna-se portanto claro que, para uma mulher efetuar a interrupção da gravidez, terá as suas razões e deve ter liberdade para tomar decisões que só a si dizem respeito.

Em segundo lugar, um estudo feito recentemente em Portugal, mostrou que o número de procedimentos para abortar, tem vindo a diminuir. 2008 foi o primeiro ano completo desde que entrou em vigor a despenalização da interrupção da gravidez. Apesar de ter havido um período de oscilações, os últimos anos confirmam uma tendência estável na diminuição do número de abortos. Esta é a prova de que não existe correlação direta entre a legalização do aborto e o aumento de mulheres a recorrer ao mesmo.

Outra questão importante referir é a do aborto clandestino. Ilegalizar o aborto não significa acabar com ele. Significa sim que a mulher não pode recorrer a instituições fidedignas e competentes para realizar o procedimento, o que origina um enorme problema: o aumento da mortalidade.

O aborto em si, tal como já foi referido, comporta alguns riscos. Mas estes aumentam significativamente se a mulher estiver exposta a um ambiente que não esteja em conformidade com os mínimos padrões médicos. Este é um grande problema para a saúde publica.

A Organização Mundial de Saúde fez um estudo acerca deste tema e estima que, dos 42 milhões de abortos realizados todos os anos, 20 milhões são clandestinos e efetuados em condições pouco seguras. Como resultado, aproximadamente 47.000 mulheres morrem todos os anos, devido a infeções, hemorragias, danos uterinos e efeitos tóxicos.

É urgente que os governantes, independentemente das suas ideologias pessoais, abram os olhos ao que é evidente. Ilegalizar o aborto é negligente e comporta consequências gravíssimas à saúde da mulher e ao bem da sociedade.

Os piores governantes são aqueles que preferem ser cegos ao óbvio.


Imagem: #czarnyprotest

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