Municípios e transformação socialista

Francisco CordeiroVítor Franco

Perguntar, perguntar, perguntar!

Colar cartazes é mais fácil, pensar é mais difícil 🙂 ficámo-nos pelo “meio termo”: lançamos umas perguntas! Já um dos lemas de Karl Marx era de omnibus dubitandum (duvidar de tudo).

Qual o papel do poder autárquico numa transformação socialista?

Bem, daria para um livro: as respostas dependeriam do contexto histórico, das relações de forças, dos pontos de partida e objetivos de chegada, da capacidade de mobilização popular, etc.

Mas, “gaita” começámos por uma pergunta complexa 😦 logo poderiam replicar e com razão transformação socialista em regime capitalista?

Pois, realmente os capitalistas nunca facilitaram perder privilégios “mixurucos”  (como se vê bem  agora com a polémica dos impostos sobre património de luxo) quanto mais perder o poder (…) nãaaa… Será que os patrões do regime e das empresas não preferem que ninguém levante questões? Não será mais confortável ninguém questionar a sua autoridade?

E com estas questões ambientais que tanto se tem agora falado? Fechar a central nuclear de Almaraz, nãaaa… E o santo lucro?! É um risco para milhões de pessoas? E daí? A vida é um risco…

Pois…

Podemos falar de ambiente, não é tão complexo, o povo percebe disso “à brava”… RANs, RENs, PDMs, PNPOTs e afins…

Quem percebe mesmo bem de leis e autárquicas são os poluidores, esses sim. Tanto que destroem o que é de todos em benefício próprio e nada, ou quase, lhes acontece… Será que o Poder não tem poder? O Município não pode fechar a empresa? Parece que não, aliás parece que ninguém pode.

Vamos deixar nas mãos de quem não serve o interesse público, mas sim a maximização do lucro, serviços tão importantes como o abastecimento e tratamento de águas? E a recolha e o tratamento do lixo?

Faz sentido os Municípios financiarem touradas mas deixarem os canis municipais degradarem-se? Será que as prioridades estão certas?

Então que autonomia queremos para o Poder Local?

Nós, que tentamos combater as desigualdades, como contrariámos a desertificação do interior do país? Preferimos simplesmente deixar que Lisboa seja praticamente o único polo de emprego, desenvolvimento e de inovação? As populações não têm o direito de escolher viver em vilas ou aldeias sem se sentirem cada vez mais isolados?

E nós, o que sabemos e que poder podemos ter?

Sabemos que nos confrontamos com essa pergunta na presença autárquica, sabemos da teia que o regime tece para que se perpetue nas águas putrefatas. Então onde fica a proximidade e a transparência do Poder Autárquico para com as populações quando tenta passar o mais despercebido possível? O que queremos da proximidade e da transparência do Poder Local?

A transparência é só uma responsabilidade do Poder? E nós oposição? Quem conhece a nossa ação, como multiplicamos as nossas ideias e energias? Como construímos cidadania?

Perguntas só perguntas, mas as perguntas não vêm antes das respostas?

A nós próprios voltamos a perguntar: como construímos cidadania?

Se o Bloco é um partido-movimento que fizemos para a movimentação popular? Para que as pessoas pensassem mais pela sua própria cabeça? Que alianças sociais construímos ou tentámos construir? Onde tivemos mais sucesso? Onde estivemos mais fracos? Que preconceitos conseguimos romper?

Apesar de o Bloco de Esquerda ser um partido-movimento continua a haver pessoas que gostam mais do movimento e menos do partido, como abordamos essa sensibilidade? E vice-versa? Há uma contradição entre partido e movimento ou tão só uma questão de graduação de qualidade ou quantidade? Ou não há contradição mas sim uma frágil agenda nacional de aplicação local?

Em que é que o refluxo social acentuado e o medo implantado influem sobre as pessoas e o Bloco?

Como condicionam a cidadania e a disponibilidade individual de assumir papel político local? Como se sentem dirigentes de coletividades e clubes desportivos que estão dependentes de subsídios do presidente de Câmara e a seguir participam em projetos que o criticam? E como romper esse círculo vicioso que só serve para manter o polvo do poder e transformar o direito num favor?

É do senso comum que o surgimento do Bloco foi uma lufada de ar fresco na sociedade, mas nós dizemos mais: desde que nasceu, o Bloco foi o elemento mais determinante na política portuguesa!

O Bloco esforçou-se por juntar forças, por fazer pontes solidárias e por quebrar sectarismos.

O Bloco trouxe todas as agendas para a luta toda e convidou todas as vontades à cidadania – mas o Bloco também é uma opção de cidadania!

Cidadania é uma construção e um desafio permanente e por isso é também uma opção por escolhas políticas tenham ou não uma expressão legal partidária.

Por tudo isto anima-nos o exercício da reflexão: não porque as nossas convicções estejam em causa mas porque um “exército” que não reflete sobre si próprio, estude adversários e campo de batalha, escolha momentos de ataque e defesa, táticas e alianças torna-se um “exército” fraco e mais facilmente derrotado.

Camarada Miguel Portas, continuamos a não desistir de nada! Nem de fazermos perguntas a nós próprios!


Imagem: foto de Bloco de Esquerda de Santarém – pintura de mural. Setembro de 2013.

Anúncios