Segurança à brava

Luís Fazenda

A cimeira de Bratislava decide segurança à brava. Uma cimeira de chefes de Estado e de governo, apenas informal, não podendo decidir como Conselho Europeu na falta da Inglaterra que está de Brexit, aparentemente tenta perspetivar o futuro da União sem a Inglaterra e no meio dos problemas oriundos da crise dos refugiados, da crise das dívidas soberanas, da crise da xenofobia e da crise da guerra e dos ataques terroristas.

Desenlace esperado: a Europa vai investir na segurança, na militarização e no Estado-policial. Qual a consequência? A palavra de ordem é o exército europeu para levantar as ameias externas da União. Aliás, quando Tsipras, o aplicador de todos os planos de resgate impostos por Berlim, sugeriu uma anedótica reunião de uma surreal frente anti-austeridade dos países do sul europeu, a que António Costa acorreu, Hollande disse logo nesse areópago de marketing que a questão central não era a austeridade mas a segurança europeia. Talvez tenha de dar alguma razão a Schauble quando disse que de uma reunião de socialistas não deveria sair algo de inteligente. Hollande, protagonista do Eliseu, já escorraçado pelos franceses como se vê nas pesquisas de opinião de modo esmagador, entra em Bratislava a exigir aos Estados-membros que paguem a sério para a segurança, especialmente a turma da Angela, porque a França, uma potência nuclear, já gastou demais. Claramente, Hollande a tirar vantagem da saída da Inglaterra que era a outra potência militar de grande porte da UE.

Todos os fatores de crise vão ser ignorados em nome de uma via de identidade, com ajuda francesa: uma europa alemã, resta saber até quando, a França vai na mala da retaguarda, uma europa fortaleza armada até aos dentes. Foi um contributo do partido socialista francês para acelerar o rearmamento da Alemanha, enfim.

O militarismo responde às tensões agudas indo a reboque da chantagem fascista, hoje muito forte em todo o espaço europeu. Contudo, o impulso militarista leva a que as instituições europeias se afastem ainda mais dos problemas sociais dos povos, dos imigrantes e refugiados, e da caminhada insolvente de vários Estados periféricos.
O governo português, como outros, ameaçado sucessivamente de sanções e restrições à sua política económica, posto na gaiola da dívida pela UE, não pode acompanhar um processo de militarização e de securitização como a “solução imperial”. O facto de o acordo de maioria parlamentar em vigor excluir dos seus termos a política europeia não dá razão, nem maioria, ao PS para seguir uma tal via. Não ter acordo nessas matérias não quer dizer que a esquerda lave as mãos. Até porque esse “desenho” da Europa exclui Portugal como país viável. Não é aceitável daqui a alguns anos ouvir umas desculpas, balbuciadas mas irresponsáveis, dos incompetentes europeus.


Imagem:  European Council – Informal meeting of the 27 EU Heads of State or Government. 29 de junho de 2016. Alguns direitos reservados.

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