A crise institucional, social e humanitária na Europa

Joana Pires

A Europa é hoje o poço dos desafios sociais, económicos e políticos. De entre estes, as três graves crises a que assistimos demarcam as desigualdades sociais e o arrastar de políticas financeiras negligentes.

A crise institucional balizada com os desequilíbrios de poder interno na Europa, que se agudizaram, levou a que se perdesse a confiança. Não foi só a confiança no destino Europeu que se perdeu, quer seja este político quer seja institucional, é como um mergulho incessante que impede que se defina o seu papel e o seu lugar no sistema internacional. Com a consequente preponderância alemã revelam-se o duplo caráter das instituições europeias: fracas perante os interesses das potências, fortes quando “disciplinam” os povos aos serviço desses interesses. Assim, assistimos ao declínio europeu.

A crise social que assenta no ressurgimento de partidos de extrema-direita na Alemanha, na Dinamarca, França, Hungria, Holanda, reflete e demonstra a propagação populista e demagoga de um discurso que denuncia uma direita anti-imigração, xenófoba, racial. Esse discurso cria falsas unidades, apagando os interesses dos trabalhadores, e desestabiliza pois provoca insegurança, dividindo com base em ligações religiosas ou territoriais. Esse discurso xenófobo domina o espaço público, por uma falta de esclarecimento e debate sobre o mesmo.

Tudo isto gera a crise humanitária. Esta semana assistimos a mais dois acontecimentos que evidenciam a perda da consciência social: a emissão de bombas-barril contendo cloro em Alepo; e a decisão da construção de um muro em Calais, que impede que os migrantes se desloquem do norte de França para as ilhas britânicas. Todos os dias na Síria morrem dezenas de civis que estão mergulhados naquele estado de guerra, e que estão impedidos de viver condignamente no seu país. Temos assistido, infelizmente, a esta tragédia e temo-nos distanciado de ajudar quem mais precisa. É uma questão humanitária, que requer resposta rápida.

A União não consegue, neste momento, ter uma capacidade de transformação e não consegue ultrapassar os desafios presentes, como as necessidades humanitárias. Desde a crise financeira, assistimos também a uma crise de valores, que saí quebrada ainda mais com as mudanças políticas, económicas e institucionais que se tomaram no passado, e que se têm vindo a tomar no futuro.

Hoje em dia, precisamos de uma Europa que se apresse a uma negação da xenofobia e da política reacionária. Precisamos de uma Europa das democracias, dos direitos sociais e das liberdades.


Imagem: Oona Räisänen – Welcome to Europe. Alguns direitos reservados.

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