O homoerotismo como parte da história

Jorge Santos

Quando pensamos na homossexualidade em tempos mais remotos, automaticamente lembramo-nos da Grécia Antiga e da Roma Antiga. De Platão ou Safo; de Zeus ou Apolo; d’A Ilíada ou Satyricon; de Adriano ou Nero.

Podemos sorrir ao imaginar o embaraço dos puritanos historiadores quando tentam fabricar uma história heteronormativa de tão impressionantes civilizações, esforçando-se a todo o custo por ocultar ou ignorar a ligação intrínseca entre a sexualidade dos antigos e a sua arte, literatura, ciência e mesmo a guerra (essa coisa tão viril).

Mas se homossexualidade é uma referência demasiado óbvia na cultura clássica (pelo menos no masculino, pois no feminino é mais rara), ela não é completamente invisível nas restantes culturas europeias e nem sequer o é fora do velho continente. Para dizer a verdade, encontramos referências ao amor entre o sexo masculino em praticamente todas as épocas históricas e todos os lugares habitados do planeta, da ilha Kodiak, no Alasca, até ao Japão, no extremo oriente. E é precisamente desta última parte do globo que penso que vale a pena deixar aqui algumas luzes dessa realidade. Como encaravam a sexualidade os povos que habitavam a China entre a Idade Média e a Idade Moderna?

No caso da China, o período da dinastia Ming (1368-1644), época dourada da China, é o mais abundante em temas homoeróticos, na pintura e na literatura.

Embora dividida em vários reinos, e tendo estado sob domínio dos mongóis entre 1271 e 1368, a China espalhou a sua influência cultural pelos ventos asiáticos, e é a pátria que acolheu a invenção da pólvora, da bússola e do papel.

Na China Antiga, os amantes mais velhos eram chamados qi xiong e os amantes mais jovens eram os qi di, palavras que literalmente significam “irmão mais velho” e “irmão mais novo”. Interetária e estruturada em função das diferentes classes sociais, a homossexualidade implicava uma relação desigualitária entre um rapaz adolescente ou jovem (xiaoguan) – geralmente de origens humildes – que assume um papel passivo, e um homem mais velho (nan) – geralmente da elite – sob o papel ativo. Se este tipo de relação era plenamente aceite, a inversão dos papeis dos parceiros era já mal vista pela sociedade.

Na literatura, são bastante usadas as expressões “beleza masculina” (nanse) ou o sinónimo “charmes masculinos” (nanfeng), em oposição à “beleza feminina (nüse). E por vezes estas palavras formam ainda outras expressões como “o caminho da beleza masculina” (nanfeng yidao) ou “o caminho do sexo com rapazes” (longyang yidao).

E ainda as sexualmente mais explicitas:  “Rota seca” ou “rota terrestre” (hanlu), que corresponde ao coito anal, e a “rota molhada” ou “caminhos marítimos” (shuilu), o coito vaginal.

A diversidade e paralelismo de expressões referenciando os vários tipos de amor e de gostos sexuais, quer por rapazes, quer por raparigas, demonstra a equivalência que lhe é dada pelos chineses antigos.

Como seria de esperar, muitas vezes eles eram exclusivamente (zhuan) atraídos por rapazes ou por mulheres, mas quase sempre há apenas uma diferença de grau (“extremamente”; “viciantemente” ; “irresistivelmente” atraídos por um ou outro sexo).

Em “Absurdo” (Guwang yan), há mesmo um personagem que acaba delapidando o seu património para perseguir os rapazes, pois ele era “doido por rapazes desde que era criança”.

Todavía,  isto não exclui a hipótese de a um indivíduo lhe agradarem ambas as formas de beleza, como se torna claro na obra “Tapete de Oração Carnal” (Rou putuan), em que um dos personagens é descrito como sendo “tocado pela beleza feminina e charme masculino de igual modo”, ou novamente em “Absurdo” (Guwang yan), em que um homem “anseava a beleza das mulheres e desejava também a beleza masculina”.

É muito comum ir “para Sul e para Norte” (nanbei qilai), isto é, ser atraído por rapazes e por raparigas ao mesmo tempo.

De facto, como surge numa passagem de “A Rainha Masculina” (Nan wanghou), só aquele que “não faz distinção entre masculino e feminino pode ser um verdadeiro libertino” (fengliu).

Todavia, a mais famosa expressão vem no Livro dos Han (Han shu), e é a “paixão da manga cortada” (duanxiu zhi pi), o amor entre o sexo masculino.

Nessa passagem biográfica da obra, o imperador Ai (27 a.c. – 1 a.c.) amava tanto o seu favorito Dong Xian que uma noite cortou a manga do seu próprio roupão para evitar perturba-lo enquanto ele dormia com a cabeça encostada a ele.

Outra expressão análoga – “pêssego partilhado” (fentao) – vem do livro de contos “Mestre Hanfei” (Hanfei Zi). Na história, o duque Ling de Wei ficou comovido quando o seu favorito Mizi Xia quebrou a etiqueta e lhe ofereceu um pêssego que já tinha trincado e o achou muito doce. Mais tarde, ele culpa Mizi Xia desse episódio, assim como de todos os seus defeitos, quando a sua beleza começa a declinar.

Um outro monarca, da dinastia Wei, surge na obra “Intrigas dos Estados Guerreiros” (Zhanguo ce). De acordo com a narrativa, o rei costumava pescar com o seu amante Long Yang. Mas certo dia, Yang começa a chorar. Questionando porque este chorava, Yang responde que viu o seu futuro na forma como trataria o peixe. Yang queria atira-lo de volta ao rio quando pescasse um peixe melhor, porque segundo ele, era também como um peixe. Seria atirado de novo à água. Para mostrar a sua devoção para com Long Yang, o rei decreta que “quem se atrever a mencionar outras beldades será executado junto com a sua família inteira”.

Muito embora os monges renunciassem à sexualidade, o budismo – o culto maioritário na China – aceita a homossexualidade, e essa aceitação é encarada com choque pelos missionários jesuítas do séc XVI.

Os viajantes ocidentais eram bem recebidos nas casas de prostituição masculina, e essa hospitalidade era alvo de preocupação da parte de alguns burocratas governamentais, a quem não agradavam os “bárbaros” europeus.

Richard Burton escreve sobre a China:

“Os chineses (..) são o povo escolhido do deboche, e a sua sistemática bestialidade com patos, cabras, e outros animais é apenas igualada pela sua pederastia.”

O jesuíta italiano Matteo Ricci (1552-1610), que chegou à China em 1583 para espalhar a mensagem de Cristo, impressionou-se com a quantidade de prostitutos existentes em Pequim e com a generalização das práticas homossexuais na cidade. Ele refere que a pederastia não era proibida pela lei, nem vista como ilícita ou como motivo de vergonha. Falava-se disso em público e era praticada em toda a parte sem que a oposição de ninguém. Em algumas cidades as ruas estavam cheias de prostitutos, comprados e ensinados a tocar instrumentos musicais, a cantar e a dançar para completar os seus serviços de prazer. “Vestidos galantemente e maquilhados com rouge, como mulheres, esses miseráveis homens são iniciados nesse terrível vício”, resume.

O escritor Mie Xie Zhaozhe (1567-1624) diz que a prostituição de rapazes existia já desde a dinastia Song (960-1279), com as ruas da capital repletas de prostitutos tal e qual como na época Ming.

Os serviços dos prostitutos masculinos eram mais caros do que das prostitutas, e eram apenas reservados aos homens. Algumas casas de prostituição feminina chegavam mesmo a vestir as raparigas com roupas masculinas para evitar perderem o negócio.

“Bairro do Bosque do Sul” (Nanlin xian) narra a história de um homem que se apaixona por uma prostituta e mais tarde com o seu irmão mais novo, também prostituto, o que gera ciúmes entre eles. O dilema acaba de certa forma resolvido com o casamento entre a prostituta e o homem, que ao mesmo tempo mantem um caso com o rapaz durante mais 10 anos.

Mas é a obra “Admirável Competição entre Rapazes e Raparigas” (Tongwan zhengqi) que melhor caricatura a competição entre as prostitutas e os prostitutos, estes de longe mais apreciados pelos chineses.

Na narrativa, uma prostituta escreve uma canção insultando um rapaz, o que acaba em pancadaria com outros intervenientes envolvidos.

O conflito é levado ao tribunal e o juiz decide que ambos os grupos devem resolve-lo pela via literária. Assim a obra termina com um conjunto diversificado de poemas idolatrando ambos os tipos de relação.

No entanto, homens ricos não recorriam geralmente às casas de prostituição. Eles tinham rapazes privativos em sua própria casa. Chamavam-lhes “rapazes de estúdio” (shutong), pois ocupavam uma parte específica da residência designada “estúdio” (shufang).

Alguns shutong serviam de porteiros (menzi), mas aqueles que tinham mais conhecimentos (ex: saberem ler e escrever, cantar ou terem outros conhecimentos) exerciam funções mais respeitáveis, pertencendo a uma subclasse mais elevada.

Estes shutong aparecem em muitas novelas como o centro do conflito entre casais da alta sociedade, com a mulher a acusar o esposo de adultério com os rapazes.

Contratar rapazes cantores (xiaochang) para os banquetes deixando os convidados acaricia-los no final era uma prática reservada à elite de Beijing,  nos finais do período Ming.

Estes rapazes vinham do Sul da China ainda crianças por iniciativa dos próprios pais, e aprendiam cedo a falar de modo gentil e educado, e também a seduzir os convidados através de gestos e olhares.

Durante a dinastia Qing, dá-se a ascenssão da Ópera de Pequim. Nesse contexto, os rapazes atores, apelidados de “oficiais” (xianggong), eram a coqueluche da elite. Desempenhando maioritariamente papeis femininos, pertenciam a um estatuto muito baixo da sociedade, mas acima dos prostitutos, pois ganhavam um pouco mais, e por vezes caiam nas graças dos seus patronos, e dos políticos e intelectuais frequentadores dos poeticamente apelidados “jardins das pereiras”, os teatros.

Porém, a excessiva feminilidade não era apreciada pelos amantes de rapazes, e o excesso de maquilhagem é uma das maiores críticas. A beleza dos rapazes deve ser natural.

O imperador Kangxi (1654-1722) mostrou-se determinado em parar esse tipo de comércio, mas as suas leis, renovadas pelos sucessores nos anos 1790, 1819 e 1852, tiveram escasso efeito.

Só para termos uma noção, na província da Tianjin existiam, na segunda metade do séc. XIX, 35 bordeis masculinos e 800 homens e rapazes prostitutos.

Os intelectuais chineses debatem também a sexualidade de forma idêntica aos filósofos gregos, discutindo se a melhor forma de amor é por rapazes ou por mulheres, e até qual dos sexos é o mais belo (entre os homens e entre alguns animais).

Os chineses tinham também uma divindade patrono da homossexualidade, chamado Hu Tianbao ou Tu Er Shen (“divindade coelho”). Esta divindade começou a ser objeto de culto a partir do séc. XVII, e surge de uma lenda oriunda da província de Fujian.

Conforme reza a história, certo soldado apaixonou-se por um belo oficial de província e começou a espia-lo quando este tomava banho nu. Uma vez descoberto, o oficial mandou tortura-lo e mata-lo. Ele renasceu em forma de uma jovem lebre e apareceu num sonho de um ancião local, ordenando à população a construção de um tempo em sua honra. Daí surgirá mais tarde a gíria “coelho” (tuzi), que significa “prostituto”.

Progressivamente, a literatura clássica vai sofrendo com a modificação da mentalidade dos intelectuais chineses, influenciados pela homofobia e os ideais machistas do Ocidente colonialista que penetra na China a partir dos finais do período Ming.

Esta tradicional aceitação e culto das relações com homens e rapazes chegará ao fim à medida que as potências europeias entram à força no país para poderem expandir o comércio além fronteiras.

A recusa da China em abrir-se ao comércio com a Grã-Bretanha na primeira metade do séc. XIX enfureceu as autoridades britânicas, que, com o apoio da França e também da Rússia, desencadearam duas “Guerras do Ópio” entre 1839 e 1860, com resultados catastróficos e humilhantes para a China.


Imagem: Representação de dois jovens homossexuais durante o chá. Pintura em seda sobre um rolo. Dinastia Qing (Séculos XVII e XIX), no Instituto Kinsey, Bloomington, Indiana, Estados Unidos. Domínio público.

Algumas referências:

GIOVANNI VITIELLO, The Libertine’s Friend: Homosexuality and Masculinity in Late Imperial China, The University of Chicago Press, Chicago e Londres, 2011

BRET HINSCH, Passions of the Cut Sleeve: The Male Homosexual Tradition in China, University of California Press, Berkley, Los Angeles, e Oxford, 1990

TIMOTHY BROOK, The Confusion of Pleasures: Commerce and Culture in Ming China, University of California Press, Berkley e Los Angeles,1999

LOUIS CROMPTON, Homosexuality & Civilization, The Belknap Press of Harvard University Press, Cambridge e Londres, 2003

Anúncios