Golpes à inglesa

Pedro Celestino

Nas últimas eleições britânicas o sistema “democrático” de círculos uninominais transformou uma votação de aproximadamente 36,9% em uma maioria absoluta no parlamento britânico, “legitimado” a executar um programa em que a maioria não votou, mas ainda não é este o golpe de que falo.

O referendo de 23 de Junho, que ditou o Brexit, trouxe consigo, não só a supressa do resultado, mas também muitas mais. Entre promessas eleitorais desmentidas logo na manhã seguinte, houve também a demissão do então primeiro-ministro, David Cameron e diversos outros ministros que foram agora substituídos

A nova primeira-ministra é agora alguém que poucos conheciam, Theresa May, alguém que olha a antiga Dama de Ferro Margaret Thatcher (responsável pela liberalização financeira e por atacar os direitos de trabalhadores como ninguém) como um modelo onde se inspirar. Uma mulher cujo marido faz parte das mesmas firmas que ganham dinheiro a ajudar as multinacionais a fugir aos impostos e que nomeia Boris Johnson para ministro dos negócios estrangeiros (bem conhecido por insultar chefes de Estado de outros países, por declarações xenófobas e por comentários de cariz colonialista). E, claro, começa a deixar quem não tem nacionalidade britânica, mas que vive ou trabalha no país, bastante preocupado, tal como os britânicos que vivem ou trabalham fora do Reino Unido. Mais ainda, desfaz o ministério da Energia e Mudanças Climáticas, e afirma sem qualquer hesitação que estaria disposta a matar 100.000 inocentes, incluindo crianças, num ataque nuclear.

Tudo isto são mudanças dadas em menos de um mês a partir de uma pergunta acerca da pertença à União Europeia. São mudanças muito para além do que se pode legitimar com este referendo, muito para além do que estava sequer no programa politico que o seu partido levou a votos, muito além de qualquer escrutínio democrático. Não, o referendo não foi para isto, e tentar justificar isto com o resultado deste referendo é corromper o propósito dos referendos e a democracia em si.

Certamente foi com mais classe e subtileza do que outros golpes às democracias que têm ocorrido recentemente, mas as repercussões deste golpe inglês pode bem ser sentido de forma muito mais acentuada por todos nós, e este cartão de apresentação não augura nada de bom.

E enquanto deixarmos a democracia continuar a perder força continuaremos a ver mais políticos a sentirem-se legitimados a afirmar que não se importam de matar 100.000 inocentes, crianças incluídas.


Imagem: Theresa May.

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