Turquia: golpe ou encenação

Recentemente a Turquia sofreu uma suposta tentativa de golpe de Estado por parte de alguns militares das Forças Armadas. Há quem diga que a tentativa de golpe é proveniente de forças fanáticas, que tentaram tirar Erdoğan do poder. Mas existe outra versão. O clérigo Fethullah Gulen acredita que o golpe foi uma encenação por parte do próprio Presidente, com o objetivo de dividir o país, criar instabilidade e, assim, no meio do caos, surgir como o herói que irá castigar os criminosos que atentaram contra o próprio país.

Gulen, que detém apoio de alguma parte da população turca, afirma ainda que o AKP, partido de Erdoğan, já tem um longo historial de tentativas de golpes e que este foi apenas mais um e o mais mediático. O clérigo, que agora vive nos Estados Unidos, tornou-se, em 2013, num dos principais críticos de Erdoğan e passou a ser considerado uma ameaça para o Governo turco.

Independentemente das versões, os factos não se podem ignorar. E o suposto golpe apresenta incongruências que vale a pena referir. Um golpe aparentemente mal planeado, que durou apenas 12 horas; carros blindados parados nas ruas; explosões a edifícios vazios; soldados a serem espancados por civis, apoiantes de Erdoğan, e a não oferecerem resistência. Enfim, todas as características que um golpe de Estado não apresenta, ainda para mais quando planeado por homens com treino militar.

Conveniente será dizer que Erdoğan atribuiu a culpa da tentativa de golpe a Gulen (que diz ter sido o cabecilha do plano) e pediu a sua extradição dos Estados Unidos.

Encenação ou não, uma coisa é certa: Erdoğan está a conseguir apoio popular e a concentrar poderes. Já prendeu mais de 3 mil soldados e demitiu mais de 2 mil juízes, tendo também iniciado uma purga nas escolas. No fundo, o presidente turco está a reunir ferramentas para tornar a Turquia numa ditadura e ser detentor de todas as decisões que envolvem o país. Numa perseguição desequilibrada e óbvia aos seus opositores, Erdoğan não demonstra pudor em relação às suas pretensões e até já mostrou intenção de restabelecer a pena de morte.

Também a oposição democrática, HDP (Partido Democrático dos Povos), afirma que, com o apoio de cerca de metade da população turca, Erdoğan está numa posição favorável para concretizar “todos os tipos de loucura”.

Selahattin Demirtaş, líder do partido, diz ainda que a solidificação do poder do Presidente turco é o maior obstáculo para alcançar a paz na Turquia.

Para Demirtaş, a agenda de Erdoğan já não é secreta. O Presidente não tem quaisquer problemas em demonstrar as suas intenções e revela um comportamento apressado, de quem anseia conquistar o poder e sabe que está muito perto. Numa corrida para chegar á meta, Erdoğan já não se preocupa em fazer jogos e coloca as cartas na mesa. Quer a pena de morte para eliminar os seus opositores.

Apesar de apelarem ao bom senso e pedirem a Erdoğan para não restabelecer a pena de morte, a complacência dos líderes europeus continua um grande problema, baseado na lógica da cumplicidade e da hipocrisia.


Imagem: Erdoğan in an AKP poster after the parliamentary elections in 2007. By Ekim Caglar (Own work) [GFDL, CC-BY-SA-3.0 or FAL], via Wikimedia Commons.

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