Entre Nice e a Turquia, a decadente União Europeia de Blair, Barroso e outros criminosos

Carlos Vieira e Castro

É gente como esta, que não hesita em mentir, invadir países e matar inocentes, que faz questão de aplicar sanções a Portugal e Espanha, apenas para humilhar e mostrar quem manda.

Qualquer comentador ou especialista de política internacional, minimamente isento, depressa terá chegado à conclusão de que o louco que cometeu o massacre de Nice não era um terrorista organizado, apesar da reivindicação tardia do Daesh, mas apenas um “lobo solitário”, ou mais prosaicamente, isso mesmo, um louco, que por qualquer razão menos visível decidiu vingar-se da humanidade que o pariu. Claro que o ódio e o preconceito estavam lá, tal como no massacre de Columbine e noutras escolas dos EUA, ou no massacre de 50 pessoas num bar gay em Orlando (também aqui por um simpatizante do Daesh), mas o fanatismo religioso surge apenas como cobertura (não acredito que o homem saiba algo sobre o pensamento neocarijita do Daesh, ou sobre o Wahhabismo criado na Arábia Saudita, principal aliado dos EUA no Médio-Oriente e financiador-mor do Daesh).

Juntar o útil ao agradável: ser “mártir” colando-se ao serviço de uma cruzada religiosa, ao mesmo tempo que se sente “herói” ao lavar um pecado, na perspectiva do ciúme paranóico, do ódio racial, da homofobia ou de qualquer outra forma de ignorância e estupidez.

Não cabe aqui especular sobre as possíveis causas, se bem que já houve quem o fizesse a partir do facto deste criminoso estar a passar por uma acção de divórcio. Em Portugal, todos os anos são assassinadas entre 30 a 50 mulheres (29 em 2015 e 51 em 2014) pelos actuais ou ex-maridos, companheiros ou namorados, que, muitas vezes, matam os próprios filhos ou outros familiares e ninguém lhes chama terroristas, apesar do terror infligido às vítimas, por vezes, por largos anos.

Como nos lembra Eduardo Lourenço, que viveu em Nice, a França tem um problema mal resolvido com as ex-colónias, com constantes intervenções militares em África, e deixa os franceses oriundos desses países, ou os seus descendentes, segregados em guetos na periferia das cidades e da cidadania, o que provoca ressentimentos por parte de quem tenta afirmar a sua própria identidade. Lembremo-nos de que logo depois dos massacres de Paris, a primeira medida anunciada pelo primeiro-ministro Manuel Valls foi fechar as fronteiras aos imigrantes, esquecendo-se de que os autores dos atentados eram cidadãos franceses.

Agnes Heller, socióloga e antropóloga húngara, discípula de Georg Lukács, no seu livro “Sobre os instintos”, defende que a frustração é a principal causa da agressão, ambas provocadas predominantemente pela competição. Não apenas pela derrota, “mas o simples facto da competição e o medo da derrota”, pelo que, “a eliminação da insegurança material e, além disso, a redução da disposição permanente para competir, organicamente ligada ao capitalismo em todos os seus estádios, incluindo os mais recentes, faria desaparecer da vida das pessoas um dos principais “impulsos” de agressão.” Heller sustenta que o ser humano não tem instintos agressivos inatos, mas que procura muitas vezes restabelecer a auto-estima através da agressão, por a situar não em si próprio, mas naquilo que possui: propriedade e posição. Daí recorrer a Marx para prever a possibilidade de “toda a gente se apropriar da riqueza social, ou seja a abolição da alienação”.

O massacre escondido

Por falar em apropriação da riqueza social, ficámos a saber, há poucos dias, o destino de dois dos responsáveis por um dos crimes mais deploráveis da história contemporânea: a invasão do Iraque pelos EUA e pelo Reino Unido que, para saquear petróleo, despoletou a actual crise de refugiados e está na origem do surgimento do Daesh.  Primeiro, as conclusões do inquérito aberto em 2009, há sete anos portanto, na Grã-Bretanha, sobre a guerra do Iraque, provaram que esta foi declarada baseada em mentiras, como as armas de destruição massiva que Saddam teria, e antes de esgotadas as vias pacíficas. Já todos sabíamos das mentiras de Bush e Blair sobre as armas de destruição massiva, mas o relatório provou que a guerra estava decidida meses antes da Cimeira das Lages que Durão Barroso apresentou na altura como uma “oportunidade para a paz”.

Quem teve oportunidade de ver o documentário “Fallujah – o massacre escondido”, dos jornalistas da RAI Sigfrido Ranucci e Maurizioa Torrealta, sobre as 8 semanas de bombardeamento de Falluja, a segunda maior cidade do Iraque, com uma grande densidade populacional (mais de 300 mil habitantes num área de 9,5 km2), que passou no Parlamento Europeu e que o BE exibiu em vários locais do nosso país, não poderá jamais esquecer o horror da visão dos corpos de homens, mulheres e crianças inocentes com as roupas inteiras, mas só com as caveiras e esqueletos, já que a carne fora queimada pelas bombas de fósforo branco e outras armas proibidas de destruição massiva usadas pelos EUA (quem respirasse aquilo acabaria por ficar queimado por dentro); ou o vídeo de soldados americanos a abater prisioneiros; ou o testemunho de jornalistas estrangeiros que viram soldados dos EUA a entrar em casas e a assassinar civis que não cumpriam as suas ordens pelo simples motivo de não perceberem inglês; ou os depoimentos de soldados dos EUA sobre a violação de mesquitas por alguns militares que ali desenhavam cruzes nas paredes.

O próprio ministério da Defesa do Reino Unido, inquirido pela deputada do Labour, Alice Mahon (que se demitiu por não ter querido compactuar com o governo do seu partido, cúmplice deste crime), após ter começado por negar o uso de armas de destruição massiva, acabou por admitir em 2005, que os EUA usaram o MK77, arma química com efeitos destruidores similares ao Napalm.

Noam Chomsky, no seu livro “Estados Falidos”, comparou os planos dos EUA/RU à etapa preliminar do massacre de Srebrenica, com a diferença de que os sérvios retiraram da cidade, mulheres e crianças, em camiões, antes de a bombardear.

Blair chegou a admitir que fora um erro a decisão de invadir o Iraque reconhecendo nisso a origem do Daesh,  mas que não se arrependia porque o mundo estava melhor sem Saddam. O mundo também estaria melhor sem Tony Blair, pela certa. E causou nojo vê-lo nomeado enviado especial do Quarteto (EUA, Rússia, UE e ONU) para o Médio Oriente, como se não houvesse ninguém mais habilitado para negociar a paz entre a Palestina ocupada e o governo segregacionista de Israel do que um criminoso de guerra. O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbin, já em Agosto do ano passado admitiu a hipótese de Blair poder vir a ser acusado de crimes de guerra. Talvez por isso, Corbin defronta um motim na bancada parlamentar do seu partido (embora milhares de militantes tenham demonstrado em manifestações de rua, que estão a seu lado), e a principal opositora de Corbin foi uma apoiante da guerra no Iraque.

Outro dos responsáveis, ao lado de Bush, Blair e Aznar por este acto terrorista que foi a invasão do Iraque, acabou de ser premiado pelos “donos disto tudo”. Durão Barroso, o mordomo da Cimeira das Lages, que garantiu aos portugueses ter visto as provas de que Saddam tinha armas de destruição em massa, químicas e outras, incluindo, provavelmente, bombas nucleares, foi contratado pela maior sociedade de investimentos do mundo, a Goldman Sachs, uma das poucas a lucrar com a crise do subprime que esteve na origem da actual crise especulativa das dívidas soberanas na Europa, que, como recompensa pela inexcedível “comissão de serviço”, não o deixou a viver apenas com a mísera pensão de 15 mil euros mensais (60% do salário) a que tem direito durante os 3 anos seguintes ao abandono do cargo.

Contra o terrorismo financeiro, jogo de equipa!

É gente como esta, que não hesita em mentir, invadir países e matar inocentes, que faz questão de aplicar sanções a Portugal e Espanha, apenas para humilhar e mostrar quem manda. Porque Claude Junker foi claro, quando, confrontado com a aplicação de sanções à França, respondeu: “a França é a França!” (Olha se a selecção portuguesa pensasse assim…) Na verdade, a França já violou 12 vezes a meta dos 3% do défice (Portugal fê-lo 15 vezes e a Grécia 17). E, já agora, a Alemanha também deveria ser sancionada por superavit, como tem sido dito por organismos internacionais, já que é ainda mais pernicioso ter excedentes e não os investir, atrofiando toda a economia comunitária. Por algum motivo se diz que a Alemanha é o motor, ou a locomotiva da Europa; se a locomotiva não anda, as carruagens ficam paradas a enferrujar. Por isso, faz todo o sentido que discutamos a possibilidade de referendar um Tratado Orçamental que é um instrumento de chantagem permanente sobre os países mais frágeis desta (des)união monetária, promotor da austeridade que tem vindo a empobrecer de forma dramática os povos europeus.

Uma Europa decadente que vem em uníssono reclamar o respeito pela ordem democrática na Turquia, uma “ordem” que passa por restaurar a pena de morte, prender 6 mil opositores, incluíndo os que condenaram o alegado golpe, deter 2.839 militares, demitir 2.800 juízes, calar jornais e outros órgãos de comunicação social independentes, uma purga ordenada por Erdogan, que gosta de citar Hitler. E se este golpe não passou de um “16 de Março”, de um primeiro ensaio de um futuro golpe libertador de militares apreensivos com o acelerar da islamização do Estado por parte do “Sultão” Erdogan? O mais certo é ter sido um “25 de Novembro”, uma armadilha/provocação para dar azo à purga nas forças armadas, no aparelho de Estado e na comunicação social. Que esperar de um governo que há um ano, em Julho de 2015, foi acusado pelo Partido da Liberdade e da Solidariedade (ODP) – que, um mês antes, tinha retirado a maioria absoluta ao AKP de Erdogan, – de ser cúmplice do atentado suicida que matou mais de 30 jovens e deixou mais de uma centena feridos, em Suruç, junto à fronteira com a Síria, quando se preparavam para ajudar na reconstrução da cidade de Kobane, arrasada pelo Daesh e libertada pelas milícias curdas (a quem também se ficou a dever a não tomada de Bagdad pelo Daesh, como o próprio ex-ministro Rui Machete reconheceu), consecutivamente bombardeadas pelos aviões turcos.

E é com esta ordem e esta democracia que o governo português, pela voz do ministro Santos Silva, se solidariza, para não destoar dos aliados da Turquia na NATO. Mas não olvidemos de que também a NATO, nos anos 60 e 70 do século XX, promoveu atentados terroristas de falsa bandeira, na Europa, para justificar a repressão de partidos comunistas e de esquerda e preparar o golpe fascista na Itália do compromisso histórico entre a Democracia Cristã e o PCI, abortado pela acção de um jornalista, mas que haveria de ser consumado pelos coronéis gregos.

Basta de hipocrisia e subserviência! Chegou a altura de “a selecção da Democracia” fazer jogo de equipa. Está provado que só essa táctica nos leva à vitória.


Imagem: “europia” [instalação] – Alexandre Farto (aka VHILS) e Miguel Januário (aka +-MAIS MENOS+-). Jardins Efémeros, Viseu. Foto de Carlos Vieira e Castro.

Anúncios