Populismo, do incómodo à aflição

Luís Fazenda

O que mais saltou à vista nas recentes eleições espanholas foram as sucessivas clivagens com Unidos Podemos da parte dos outros partidos, PP, PSOE, até mesmo do emergente Ciudadanos, sempre baseadas em acusações de populismo, com mais ou menos mistura de comparativos com o rumo da Venezuela.

A barragem do ataque não podia referir-se ao programa eleitoral de UP, nem sequer se dirigiam às intenções expressas por Pablo Iglésias. O programa e o discurso deste não punham em causa nenhuma instituição espanhola, europeia ou a NATO, do ponto de vista do conteúdo era muito mais moderado em modelo social do que programas social-democratas clássicos. Neste aspeto, apesar de tudo, a gravidade para os adversários seria abrir a porta ao referendo catalão, ainda que nos termos daquele que sucedeu na Escócia face ao Reino Unido. Então a que se devem as acusações de populismo como arma eleitoral?

Pode alegar-se que se tratou de uma mera retórica eleitoral para desqualificar a formação violeta e inspirar nas classes médias o receio de uma forte instabilidade política e social. Certamente, também se pretendia esse fim. Mas isso deixaria a acusação de populismo ao nível do insulto. Essa é, aliás, a tese de Chantal Delsol, ensaísta francesa, conservadora, que diz que injuriar com o chavão populista da mesma forma partidos de direita ou de esquerda, e refere-se mesmo ao Podemos, é simples corrosão da democracia.

De facto, aquilo que faz soar as trombetas da direita com Rajoy à frente, juntos com os social-liberais como Hollande, é que os partidos desafiantes do poder instituído não pertencem às elites e aos aparelhos dominantes, entenda-se sistema financeiro, político, militar, mediático, religioso. Todos os que estão fora das corporações seriam assim populistas. Era a acusação que se fazia há dois anos ao Syriza, já não se lê tal coisa no Financial Times desde que o governo de Tsipras abdicou de beliscar as instituições. Há muito, que partidos de esquerda de França aconselham a chamar neofascista, ou reacionária, à Frente Nacional, os próprios autoproclamam-se nacionalistas, e a não usar o classificativo de populista, também utilizado nas últimas presidenciais para diminuir a candidatura de Jean-Luc Melénchon, que juntava uma ampla esquerda radical.

A questão essencial para o establishment destes potenciais inimigos é a sua característica anti-sistema, mais física que ideológica, mais do perigo da repartição da burocracia do Estado, que de orientação política. Claro que a corrupção brutal dos sistemas parlamentares acentua o anti-sistema, por um lado, por outro, leva a uma defesa encarniçada dos privilégios instalados.

A esquerda radical deve rejeitar a associação com o populismo, expressão do preconceito das elites, sem deixar de apelar ao povo pela democracia limpa e igual, abrindo uma transição para uma sociedade sem classes, está lá tudo no preâmbulo da lei constitucional portuguesa sobre o que foi o sentido do 25 de abril. Apesar de haver forças de extrema-direita anti-sistema isso não pode levar os corifeus do sistema a tentar equipará-las com as forças de esquerda realmente anti-sistema.

Essa fraude política tem sido agora reclamada para defender a União Europeia. Essa forma de branquear a extrema-direita, ser-lhes-à funesta, dificilmente resiste ao nacionalismo reacionário que empolga eleitorados castigados pela crise do capitalismo.

O trovão antipopulista nas eleições espanholas mostra também a fraqueza das elites, o medo como argumentário é precário, e muito exposto à denúncia dos interesses contra o bem comum. A contra-hegemonia que representa a esquerda espanhola deve reclamar a simetria da luta de classes com as elites podres que subordinam o Estado e as nações.


Imagem: Dr Case – Populism. Alguns direitos reservados.

 

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