Uma janela para Portugal

Bárbara Veiga 

O dia 10 de julho, precisamente um mês depois e no país onde decorreu a cerimónia de celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a Seleção Portuguesa de Futebol conquistou pela primeira vez o título de Campeão da Europa.

Esta vitória conquistada nos arredores de Paris, local onde reside uma grande comunidade portuguesa que, nos anos 60/70, se foi reunindo em bairros de lata nos subúrbios da capital francesa, fugindo à miséria que se vivia no seu país, tem um simbolismo especial.

No dia a seguir a Portugal ser campeão, a porteira ou o trabalhador da construção civil e todas aquelas personagens-tipo que aparecem representadas no filme “A Gaiola Dourada”, de Ruben Alves, que não por acaso foi exibido na televisão portuguesa no dia que antecedeu o jogo da final, não são apenas os portugueses emigrantes, muitas vezes vítimas de paternalismo por parte dos franceses. São os portugueses campeões da Europa. São os portugueses que, desde a primeira fase do campeonato, acompanharam a seleção, sempre em grande euforia e festa.

Anthony Lopes, guarda-redes da seleção nascido em França, afirmou que o apoio dos emigrantes no campeonato da Europa podia fazer toda a diferença. E fez. Nem com a saída de Ronaldo, os adeptos portugueses perderam a moral e deixaram de incentivar os jogadores portugueses. Cânticos e gritos em português ecoavam por todo o Stade de France, nos arredores de Paris, que foi erguido por um grupo de trabalhadores, 90% deles portugueses.

O lusodescendente, que domina melhor o francês que o português e que começou com os sub-17, disse aos jornalistas em Marcoussis que jogar por aquele que considera o seu país, Portugal, “foi uma decisão fácil”.

Também Raphael Guerreiro, considerado o melhor defesa lateral neste Europeu pelo Barómetro do Jogador, nasceu em França, mais concretamente em Le Blanc-Mesnil, um subúrbio a norte de Paris perto do estádio da final. O titular da seleção, por influência do pai português, joga futebol desde os quatro anos e é do Benfica. Tornou-se futebolista profissional mas diz que estaria preparado para uma coisa qualquer.

Raphael Guerreiro, apesar de perceber mal português quando se estreou, em 2013, contra a Suécia e de atualmente praticamente não falar português, também escolheu jogar por Portugal.

Nas comemorações do 10 de junho em França, onde foram condecorados 4 emigrantes portugueses, às quais também se associou François Hollande, o presidente francês prometeu reforçar o ensino de português em larga escala, defendendo que “a Europa não são só as regras económicas, é também um projeto de civilização”.

Também as declarações de António Costa marcaram este momento, quando afirmou que esta poderia ser uma oportunidade para os professores de Português que se encontram desempregados em Portugal.

No entanto, o Ensino de Português no Estrangeiro, a cargo do Camões – Instituto de Cooperação e da Língua e do Ministério de Negócios Estrangeiros, não tem sido valorizado pelo Governo Português na sua vertente língua materna, em detrimento do Português como língua estrangeira.

Numa altura em que Portugal foi considerado o terceiro país da UE, no conjunto dos 28 estados-membros, com a taxa de desemprego mais elevada, segundo OCDE, e quando se sabe que terão entrado nos países de destino pelo menos 110 mil portugueses só em 2013, é necessário não deixar para trás os portugueses que se viram obrigados a sair do país e é urgente repensar estratégias de divulgação da língua e cultura portuguesas.

É da competência do Estado e um dever previsto na Constituição da República Portuguesa “assegurar aos filhos dos emigrantes o ensino da língua portuguesa e o acesso à cultura portuguesa”. No entanto, o Governo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas instituiu uma propina de 100€ para o ensino do Português, afastando os emigrantes e lusodescendentes que teriam interesse em aprender a língua materna. O atual Governo de António Costa não se mostrou até agora disponível para reverter a situação.

Não é admissível que um representante do Estado incentive os professores de Português a emigrar para o estrangeiro e que limite o papel do Estado ao fim de firmar relações diplomáticas, esperando que o Governo francês invista no Português como língua estrangeira, língua que terá que ser adotada pelas escolas francesas, de entre um leque de possibilidades por vezes mais aliciantes. É necessário assegurar que a cultura e a língua estejam acessíveis para as comunidades portuguesas, de que são exemplos Anthony Lopes e Raphael Guerreiro.

O campeonato teve uma grande importância na vida e no reacender de uma ligação ao país de origem por parte dos emigrantes portugueses e lusodescendentes. O futebol tem essa capacidade de criar laços. No entanto, o Estado português não se pode eximir do seu papel em garantir às comunidades portuguesas, aos emigrantes portugueses e seus descendentes, o acesso a uma correta aprendizagem da língua e cultura portuguesas e de firmar outros laços de identidade.


Imagem: foto de Giuliana Miranda.

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