A solidariedade e a libertação dos activistas angolanos

Filipa Filipe

Fez 1 ano, no passado dia 20 de Junho, que o grupo dos 15 activistas angolanos foram presos por “actos preparatórios” e “rebelião”. Estes apenas conversavam sobre o livro de Domingos da Cruz, inspirado no famoso livro Da Ditadura à Democracia, do activista Gene Sharp. O livro de Sharp apresenta-se como um guia prático e apologista da não-violência, que pretende mostrar a possibilidade de transformação do sistema político opressor num sistema político mais democrático. Como não será de espantar, trata-se de um livro odiado por regimes totalitários1.

Ao longo do ano de condenação, e mais tarde, de encarceramento, assinalam-se os vários exemplos de solidariedade, não só para com os 15 activistas, mas também para com as duas jovens activistas que se lhes juntaram, Rosa e Laurinda, e ainda, José Mavungo e Arão Tempo. Várias manifestações e vigílias foram organizadas. Criaram-se novos movimentos sociais (por exemplo, Liberdade Já2) e o trabalho de organizações como a Amnistia Internacional, a LAPA, a Solidariedade Imigrante e da Associação Tratado de Simulambuco – Casa de Cabinda, foram-se avivando em torno desta causa. Foi desenvolvido um manifesto simbólico em português3, que contou com 6013 assinaturas, tendo sido traduzido para inglês e francês. Organizaram-se ainda alguns eventos públicos de apoio aos activistas, nomeadamente, uma Sessão Pública4 no Fórum Lisboa em Maio, que contou com a subscrição de 250 personalidades de diversas áreas.

A mais recente lembrança pública decorreu na X Convenção Nacional do Bloco de Esquerda com o emotivo discurso do camarada Jorge Silva (conhecido por muitos como Juca). O grito “liberdade já” assumiu, novamente, protagonismo para que recordássemos que até à data, os jovens continuavam em condições desumanas. Pode dizer-se que o Bloco de Esquerda foi o único partido que tomou posições públicas e claras na defesa pelos jovens activistas5,6. Alertou para este atentado aos Direitos Humanos através de inúmeras acções de protesto. Da sua iniciativa, destacam-se: os seus 19 deputados da AR a vestir camisolas brancas estampadas com a cara de cada um dos activistas7 e a apresentação de um voto de condenação da repressão política em Angola, que foi chumbado pela maioria do PS e pelos partidos PCP, PSD, CDS e PEV.

Perante a acção organizada e a indignação colectiva que foi crescendo pela Europa e pelo Mundo, semeando os seus frutos, foi uma surpresa entusiasmante receber a notícia da libertação do activista José Mavungo (um ano após a sua condenação). A esperança fortalecia-se! Pouco tempo depois, no dia 29 de Junho, seguia-se a maravilhosa notícia da libertação dos 16 activistas. Simplesmente tocante assistir à euforia dos activistas, dos familiares, amigos e até de desconhecidos através dos vídeos que se partilhavam nas redes sociais. O jovem Nito Alves acabou por sair dias mais tarde. Acresce-lhe, comparativamente, aos companheiros de luta a acusação de ofensa em tribunal.

Todavia, é preciso não esquecer que os 15+2 continuam sob acusação. E a situação em que se encontra Arão Bula Tempo permanece muito limitante, pois o activista continua sem poder exercer a sua profissão e está condicionado geograficamente, não conseguindo apoiar a família. Ainda não está tudo feito! Infelizmente ainda há caminho para ser desbravado, tanto pela liberdade total de todos os activistas, bem como pelo futuro de Angola. Que se retenha a lição, referida por Dito Dali na tradução portuguesa Da Ditadura à DemocraciaA vida termina, a sociedade continuará. Para dar continuidade a uma nova sociedade, cabe-nos a nós prepará-la1.

Acredito, piamente, que os presos políticos só puderam sair da prisão graças à boa-vontade e à união popular. Estas foram organizadas e sendo persistentes, o que permitiu desenvolver acções de protesto eficazes, abalando a confiança no e do regime ditatorial de Eduardo dos Santos. Porque, como refere o activista Fernando «Nicolas»: “(…) a liberdade não se oferece (…) conquista-se1.

Para terminar esta breve incursão pela história dos mais recentes presos políticos em Angola, quero expressar um enorme agradecimento enquanto cidadã activa e sensível às causas humanitárias. A todos os intervenientes na luta pelos Direitos Humanos em Angola, em particular: ao Bruno Góis, à Catarina Limão, ao Jorge Silva (Juca) e à Manuela Serrano.

Dedico este texto a todos os activistas políticos que estiveram (e os que ainda estão) presos em Angola, em especial, ao amigo Sedrick de Carvalho. Quero que estes guerreiros pacíficos da liberdade saibam que são uma fonte de inspiração! Cá fora das masmorras da ditadura, portugueses, angolanos e pessoas de outras nacionalidades, mobilizaram-se e nunca vos deixaram cair em esquecimento. Continuamos a estar juntos e além-fronteiras.


Imagem: imagem do movimento LAPA – Liberdade aos Activistas Presos em Angola.

Referências

1 – Sharp, G. (2015) Da Ditadura à Democracia. Edições Tinta-da-China, Lda: Lisboa.

2 http://liberdade-ja.com/pt/

3http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT80523

4http://www.esquerda.net/artigo/lidia-jorge-marisa-matias-e-pacheco-pereira-juntos-pela-libertacao-dos-presos-politicos

5 http://www.esquerda.net/artigo/bloco-e-o-unico-partido-condenar-repressao-politica-em-angola/37668

6 http://jornalf8.net/2016/obrigado-bloco-de-esquerda-2/

7 http://www.redeangola.info/rostos-dos-presos-politicos-angolanos-mostrados-no-parlamento-portugues/

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