Zapatada

Luís Fazenda

Por que motivo nesta votação de 26 de junho a coligação Unidos Podemos teve bastante menos votos do que a soma da Esquerda Unida e do Podemos nas eleições de dezembro passado?

Certamente, pode alegar-se que o aumento da abstenção também atingiu a esquerda. Mas neste caso não era suposto. Unidos Podemos era a novidade do mapa político, mais do que isso, a possibilidade de superar o PSOE e de tentar realmente formar um governo desvinculado da austeridade imposta por Bruxelas. Pode apresentar-se o caso como uma mera desafeção de eleitores comunistas, ou até de eleitores de Iglésias, inconformados por este não ter viabilizado o governo de PSOE e Ciudadanos. As sondagens até ao último minuto não indicavam outra coisa do que um aumento significativo de deputados da formação violeta.

Parece que o que desmobilizou votantes tem a ver com a própria campanha e mais rigorosamente com a estratégia recente de Pablo Iglésias de namorar o PSOE. O candidato de Unidos Podemos foi dizendo que os programas das duas formações eram largamente coincidentes, introduziu a proclamação social-democrata do Podemos como a novidade que mostraria a aceitação europeia deste partido, e criou a celeuma simbólica com elogios desbragados a Zapatero.

A reivindicação que fez da figura do antigo presidente do governo José Luís Zapatero como um conselheiro pessoal, “grande governante”, despertou a ira de Sanchez, secretário dos socialistas, e catapultou Zapatero para a campanha do PSOE.

No final, estas manobras retóricas terão desagradado a gregos e troianos, não atraíram votos dos eleitores socialistas e criaram desencanto nos setores mais radicalizados da esquerda, que até tinha condescendido num programa eleitoral light mas não engoliu zapatadas no espaço de identidade das esquerdas anticapitalistas.

Ficar em casa foi o protesto para o taticismo de chegar ao governo por um atalho, uma confluência vizinha ao posicionamento do Livre no nosso país, por exemplo. Em todo o caso, a revelação desse manobrismo cria no próprio Podemos um debate sobre a sua natureza e identidade. Longe vão os tempos em que eram todos “gramscianos de direita ou de esquerda”. O que Iglésias escreveu sobre o marxismo só no último mês arrepia na tumba o comunista italiano. Também no setor comunista da coligação os debates sobre o seu projeto próprio tendem a recrudescer, o que é natural. Esperemos que nesta sede a análise não se quede pelo mau negócio eleitoral para a Esquerda Unida da coligação que estabeleceu.

Entretanto, a esperada espiral do conflito catalão também tem um efeito bumerangue nos partidos da esquerda estatal, a começar na própria Catalunha onde o Unidos Podemos tornou a ficar à frente no sufrágio, o que é uma responsabilidade extraordinária para quem quer um referendo e votará contra o estado catalão, federado ou não.

Perante Rajoy é decisiva a mobilização da esquerda social e política para contrariar as políticas antissociais dos conservadores desse mordomo de Merkel. Este é o momento de um balanço de forte exame crítico, assim será tomado. As suas conclusões, com o PSOE amarrado ao PP, podem trazer um pólo alternativo revigorado na pluranacionalidade de Estado espanhol.


Ver também: A Espanha do que Podemos e Gramscianos para todos os gostos.

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