Brexit da dita coisa

Luís Fazenda

O referendo britânico sobre a permanência ou a saída da União Europeia, a 23 de junho, marca um sinal indesmentível sobre a desagregação da dita coisa. Como é percetível há vários anos o liberalismo e o cosmopolitismo entraram em colapso. As políticas conservadoras, organizadoras da exclusão social, e o ressurgimento dos nacionalismos, organizador de maiorias eleitorais cada vez mais à direita, tenderiam a criar vários pólos de esgaçamento do edifício da entente das burguesias europeias, especialmente daquelas com um elevado perfil de capital financeiro e de multinacionais.

As políticas conservadoras-nacionalistas atacam forte de leste, da Rússia, Ucrânia, Turquia, a vários países dentro da UE, Hungria, Polónia. Na Áustria, como se viu, um candidato fascista não ganhou as eleições para presidente pela diferença de um dedo mindinho. Do lado ocidental da Europa, temos os equiparados a Trump na Inglaterra de sua Majestade a City, ou os competentes pares na França do redescoberto Maurras pelo ímpeto de Marine Le Pen e a sua Frente Nacional. Todos os países nórdicos, com a Finlândia à cabeça, seguem o mesmo processo reacionário.

O resultado do Brexit não altera as tendências de fundo embora o previsível goodbye (segundo as sondagens atuais) acelere a (contra-)revolução contra as democracias liberais do pós-nazismo na Europa ocidental e consolide a propensão autoritária dos países do leste, outrora socialistas. Variadas perguntas se colocam, detenho-me apenas numa, o que se desenha no mapa Europeu?

Nada de muito original sendo embora novo. Vamos ter as tradicionais potências e as suas alianças cerzindo os espaços de influência da geografia disponível. A questão que se perfila ao povo português é se queremos ser uma semi-colónia da Alemanha, cujo conflito institucional com a França não tardará. Repare-se que o que conduz a Alemanha (pese o facto dos social-democratas pertencerem ao governo dos conservadores de Merkel) é também o nacionalismo, bem acossado por uma extrema-direita ultra-nacionalista de significativa adesão e que inexistia até há pouco. A ideia do Centro europeu como capital imperial ressurge como o demónio alemão de muitas reencarnações.

Cada povo tem o seu processo e não parece que tenhamos de defender um Lusexit artificialmente. Mas convém não fechar os olhos à realidade e prevenir o reacionarismo caseiro, para começar, e não temos de pertencer a claques alemãs ou inglesas, precisamos que o povo decida um caminho. O maior problema do nacionalismo é exaltar o chauvinismo dos povos, ajudando a fundir direita e extrema-direita.

Podemos muitos de nós lembrar que se parte do nosso povo condenava a guerra colonial, outra parte, e não necessariamente os mais abastados, era arrastada pelo regime fascista para a glorificação de Portugal, para o racismo, para a justificação da presença dos seus filhos “no ultramar”. E sabemos como era difícil desconstruir esses argumentários de irracionalidade. Por isso, em outras condições claro, percebemos o drama de muita gente de esquerda, por essa Europa fora, que não consegue entender a mutação massiva do centro e da esquerda para direitas agressivas, em geral por processos eleitorais irrepreensíveis.

Sobretudo estão a perder a comunicação com a massa, não se pode convencer vítimas da crise capitalista, já infetados com o vírus chauvinista, com remendos no mesmo sistema, “melhorar” a União Europeia, para não se “isolarem” as esquerdas, mórbida ironia. Os nacionalismos dissolvem os interesses de classe, é preciso regressar a estes para recuperar espaços de contra-hegemonia.


Imagem: D Smith – “Brexit”. Alguns direitos reservados.

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