Imprensa e Democracia

Em Portugal, temos assistido ao um cenário vergonhoso, em que a Imprensa tem servido frequentemente de propagandista da Direita. Os media estudam a informação e organizam-na de modo a estar pronta a ser redirecionada para os cidadãos. Sendo órgãos com legitimidade conferida pelo seu próprio público/auditório, torna-se portanto difícil anular a credibilidade de uma Imprensa, quantas vezes manipuladora.

Não há jornal nem noticiário (televisivo ou radiofónico) em Portugal que não faça de advogado ocasional dos partidos de Direita. Até mesmo os próprios comentadores televisivos são maioritariamente de índole direitista. É certo que, de vez quando, as televisões abrem espaço de comentário a atores políticos de esquerda. Mas, ainda assim, é possível confirmar as várias tentativas dos próprios pivôs em confundir a audiência e até mesmo a confrontar o comentador de esquerda.

Tomemos como exemplo Judite Sousa, José Rodrigues dos Santos ou José Gomes Ferreira. A verdade é que estes jornalistas (entre tantos outros) têm as costas quentes. No fundo, são intocáveis porque até os próprios editores e diretores dos órgãos de comunicação social estão ao serviço da direita. É verdade que, de vez em quando, a esquerda também é elogiada nos media. Afinal, há que fingir que Portugal tem uma Imprensa muito imparcial.

Outro fator a ter em conta e que serve de guia para compreender a índole dos noticiários televisivos é o tempo de antena de cada notícia. Vejamos, por exemplo, a campanha presidencial, em que Marcelo Rebelo de Sousa teve mais tempo de antena e maior quantidade de noticias sobre si, do que qualquer outro candidato. E esta clara escolha ideológica estava patente, de forma generalizada, em todos os canais. Outro exemplo foi a contratação da ex-ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque, pela Arrow, empresa britânica que lucra com a falência de empresas e bancos. A notícia passou nos jornais durante cerca de três dias, apesar do seu nível de gravidade. Já a notícia que passou acerca do cartaz do Bloco de Esquerda, que dizia “Jesus também tinha dois pais”, passou na televisão perto de uma semana. Assim se confirma que os media divulgam notícias enviesadas, glorificando algumas entidades ou amenizando a gravidade dos seus erros e condenando outras. Sendo que a condenação é sempre feita para o lado da esquerda. Já para o lado da direita, até se podem divulgar os erros, mas com uma divulgação sempre seguida de “paninhos quentes”.

Por tudo isto, é importante compreender o verdadeiro papel dos media e relembrar os princípios (aparentemente esquecidos ou ignorados) a que o jornalismo deve obedecer:

  1. A primeira obrigação do jornalismo é para com a verdade;
  2. O jornalismo deve manter-se leal, acima de tudo, aos cidadãos;
  3. A sua essência assenta numa disciplina de verificação;
  4. Aqueles que o exercem devem manter a independência em relação às pessoas que cobrem;
  5. Deve servir como um controlo independente do poder;
  6. Deve servir de fórum para a crítica e compromissos públicos;
  7. Deve lutar para tornar interessante e relevante aquilo que é significativo;
  8. Deve garantir notícias abrangentes e proporcionadas;
  9. Aqueles que o exercem devem ser livres e seguir a sua própria consciência.

(Consultar livro: Os elementos do Jornalismo – O que os profissionais do jornalismo devem saber e o público deve exigir, de Bill Kovach e Tom Rosentiel).

Em suma, o nosso papel de cidadãos não pode ser anulado por uma imprensa parcial e manipuladora.

Na Polónia atual e na Polónia de outros tempos encontramos exemplos de protestos contra o poder governamental sobre os media. Atualmente a Polónia está novamente a caminho de se tornar uma ditadura, nomeadamente por controlo dos media – ver Polónia: a escalada do autoritarismo. Se os protestos atuais contra a censura do Governo de ultradireita (PIS-Lei e justiça) são dignos de nota, também são de lembrar, pela sua criatividade, os protestos pela liberdade de imprensa contra os governos do tempo da República Popular da Polónia. Tendo a perfeita noção que a atividade jornalística estava ao serviço dos interesses do poder, os cidadãos recusavam-se a ver os noticiários. Na cidade de Swidni, criou-se o movimento do”passeio do cão”. Todas as noites, quando começava o noticiário, os habitantes saiam à rua para passear os cães. Já na cidade de Gdansk, as pessoas desligavam as televisões e deslocavam-nas para junto das janelas, com o ecrã virado para o lado da rua. O que os cidadãos estavam a dizer é que rejeitavam a versão de verdade do governo.

Claro que o que se pede em Portugal não é que os cidadãos cheguem a este ponto, até porque a situação passada e presente da Polónia, com controlo governamental sobre a imprensa, está longe do que se passa em Portugal. Na verdade, aqui o que se passa é o efeito da hegemonia dos interesses dominantes a ser transportada para a imprensa. Uma imprensa livre, que não seja nem a voz de quem governa nem a voz do dono privado, é um elemento necessário para as democracias.

O que se pede às pessoas, na qualidade de cidadãs, é que questionem os media, que exijam aos jornalistas imparcialidade e objetividade, que condenem quaisquer tentativas de manipulação e que, portanto, não acreditem cegamente no que a Imprensa divulga. Este é o nosso dever, para que possamos também usufruir dos direitos que a Democracia consagra.

Ao longo da história, a atividade jornalística foi sofrendo alterações inevitáveis. Mas, por muito que o jornalismo tenha mudado e venha eventualmente a sofrer mais alterações no futuro, a sua finalidade deve manter-se inalterada: fornecer aos cidadãos a informação de que precisam para serem livres e se auto governarem.

Para se suprimir a liberdade, tem-se, primeiro, de suprimir a Imprensa. A barreira a esta supressão somos todos nós, cidadãos.

“O começo da sabedoria é encontrado na dúvida. Ao duvidar, começamos a questionar. Ao questionar, podemos achar a verdade” Pierre Abelard.


Imagem: Rik Lomas – ReadingAlguns direitos reservados.

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