O peso de uma civilização leve. Que futuro?

Filipa Filipe

A civilização actual pode ser compreendida à luz do arquétipo da leveza, desenvolvido de forma magistral pelo filósofo Gilles Lipovetsky. Este autor escreve no seu mais recente ensaio[1] de que forma a ligeireza está presente no mundo e no nosso modo de vida. Trata-se de um ensaio intrigante, porque mais do que propostas e defesas ideológicas, o nível de análise é feito à grande escala e sem ponta de moralismos. Embora nos deparemos ao longo da leitura com vários paradoxos.

A tese proposta é a de que, o leve se impregnou na dinâmica do nosso mundo material, da nossa cultura e até do nosso imaginário. Os objectos, os nossos corpos, o desporto, a alimentação, a arte, entre outros sectores da nossa vida, vêm sendo influenciados por este imperativo e pela transitoriedade galopante, características que anteriormente eram desvalorizadas. O culto do ligeiro está ainda entranhado no funcionamento económico e cultural à escala global. No entanto, a História comprova que as sociedades humanas sempre tiveram práticas, instituições e crenças com o intuito de aliviar sofrimento. Trata-se, igualmente, de uma característica psicológica natural presente no ser humano. Assim, adverte-se para a importância de não olhar para o fenómeno de um ponto de vista estritamente negativo[2].

“A guerra do leve contra o pesado” teve início nos séculos XVII e XVIII, onde as esperanças passaram a dirigir-se à razão científica, à moral e à política, com o intuito de aliviar a miséria e o sofrimento. No final do século XVIII, com o fim da fome e das mortes por causa da peste, a saúde das pessoas melhorou significativamente na Europa Ocidental. A duração média do trabalho diminuiu[3].

Do alívio desejado e alcançado, e com o desenvolvimento das economias de consumo, conquistou-se a “utopia” da abundância. Com a massificação do consumo a população pôde constatar a melhoria das suas condições existenciais. Porém, o capitalismo viralizou e desvirtuou o novo ideal. Instituíram-se novas regras onde se afigura o triunfo do leve sobre o pesado. Viver sem o hedonismo, a novidade permanente e o lúdico – emblemas da febre consumista – tornou-se sinónimo de viver uma vida sem graça[4].

A era capitalista coincide com o enfraquecimento do poder estruturante das ideologias, das instituições e das forças sociais, que contrabalançavam a força do mercado e o regramento sobre o sector financeiro. Muitos discursos ideológicos e ideais como Progresso, Comunismo, Europa, entre outros que tiveram peso no passado, já não são organizadores de enormes colectivos e perderam a capacidade de fazer sonhar com melhores dias. Algumas razões para este descrédito prendem-se com as consequências do colonialismo e do nazismo, das Guerras Mundiais, do colapso do socialismo real, sem esquecer as grandes reestruturações económicas, os modos de vida e a emergência de novos ideais como o consumismo acelerado, o hedonismo e o lazer imediatos. Predomina a lógica da felicidade imediata e como objectivo maior. Neste clima de sedução consumista, de desregulação, volatilidade e informatização, a economia tornou-se, em grande parte, virtual[5].

No panorama político, o mediatismo associado assume novos contornos, onde as estratégias de comunicação passam pela personalização dos líderes e na exploração dos seus traços psicológicos. Há políticos a frequentar sessões de treino para integrarem o espaço mediático, sendo aconselhados por especialistas em termos da apresentação, da linguagem verbal e não-verbal, entre outros aspectos determinantes. O que pensar da polémica do famoso professor (também apelidado de entertainer), senão o catapultar do seu programa televisivo em horário nobre para a presidência da República? É o tempo da “política-espectáculo”, em paralelo com o desencanto pela política e o aligeiramento da cidadania[6].

Apesar dos aspectos apresentados terem um carácter mais problemático, importa sublinhar a existência de fenómenos contestatários ao paradigma dominante. Há pessoas, em especial intelectuais e activistas, que se unem a criticar e a intervir sobre a massificação da fluidez constante, pelo facto de esta estar a arruinar a liberdade dos indivíduos, a perverter a cultura e a pôr em risco a vitalidade das democracias[7].

Perante o zeitgeist, como pensar a mais recente crise no mundo do trabalho? O trabalho é indispensável para dinamizar a sociedade de consumo, embora se saiba da real e actual conotação com o sofrimento. Pois a precariedade do trabalho ou a sua escassez nunca estiveram tão próximas de criar miséria e conflitos sociais alargados. O Fórum Económico e Social estima que, dentro de 5 anos, os 15 principais países desenvolvidos e em desenvolvimento perderão cerca de 5 milhões de empregos[8].

Apesar de crescer o número de pessoas a querer trabalhar, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) indica que nos países desenvolvidos o que respeita ao trabalho no PIB, desceu de 75% nos anos 70 para 65% no ano 2000. Segundo esta organização, para manter as taxas actuais, a economia mundial terá de gerar por volta de 600 milhões de empregos durante os 15 anos. Em Portugal o desemprego ultrapassa os 12%, cerca de 640 mil pessoas. Estima-se que haja mais de cem mil jovens desocupados[9].

Compreende-se então que as políticas actuais não estão a funcionar. As ideologias não são suficientemente cativantes nem permitem, por enquanto, sair dos conflitos (existenciais e laborais). Apesar de soar a discurso pessimista, a pretensão deste texto é provocar, questionar o que muitas vezes damos como absolutamente certo e que não precisamos de alterar, e ainda, impelir à mudança. Só que convém por um lado ajustar expectativas. Acreditar que podemos sair do capitalismo sem uma longa transição: é estar desfasado da realidade. Pensar que a democracia está concluída e não precisa de ser afinada e reinventada é ingenuidade. O futuro da civilização será o que fizermos dela. Assim, há que mobilizar cada vez mais pessoas para participar na vida pública em torno de causas comuns, relembrando que só assim controlar mais as suas vidas. Desenvolver mecanismos reguladores da economia que encurtem a distância entre o virtual e o concreto. O que nos deve orientar é geração de riqueza ao invés de lucro. Torna-se ainda necessário recriar o discurso político e transformar as intervenções. Que se valorizem os movimentos de cidadania. Que se invista na melhoria das condições de trabalho, visando o bem-estar de quem trabalha. Aposte-se no sindicalismo. O modo de vida leve – do qual não podemos escapar totalmente – não deve roubar a esperança de gerar um futuro mais promissor para a maioria.


Imagem: P.V – Bubbles. Alguns direitos reservados.

Referências bibliográficas:

[1] Lipovetsky, G. (2016). Da leveza – para uma civilização do ligeiro. Edições 70, uma chancela de Edições Almedina, S.A.: Lisboa.

[2] Idem, ibidem.

[3] Idem, ibidem.

[4] Idem, ibidem.

[5] Idem, ibidem.

[6] Idem, ibidem.

[7] Idem, ibidem..

[8] Revista Visão nº1213.

[9] Idem, ibidem.

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