Pai, mãe, quero ir para escola

Gonçalo Ferrão

Já praticamente tudo foi dito, um lado e de outro, sobre Contratos de Associação com as escolas privadas. Ou seja, do lado da direita foi uma manifestação patética contra o atual Governo, porque nada mais têm para pegar, portanto pegam em tudo o que lhes aparece e claro tocando nos interesses do Capital, toca de bater. Todavia do lado do Governo e das forças de esquerda que o suportam no Parlamento, tudo foi realmente dito inclusivamente aquilo que não convém a esta direita neoliberal lembrar.

Não convém lembrar as dezenas de escolas que fecharam no governo do PSD/CDS-PP, os 3 mil milhões de cortes na Educação do Ministro Crato, na redução da dedução com despesas de educação no IRS, dos milhares de professores que ficaram sem emprego, etc., etc., tudo sua inquestionável responsabilidade.

Também tudo já foi dito quanto à manipulação da comunicação social, pública e privada e ao manobrismo resultante da minoria de direita, hoje na oposição, levando para a rua cerca de 40 mil pais, mães e crianças – algumas delas ainda fora da idade de entrada em qualquer ciclo curricular – a reclamarem pela permanência snob dos seus filhos e filhas numa escola privada, vulgo colégio, às custas do erário público e, consequentemente, de todo o povo.

O que falta dizer é que essa direita e esses mesmos manifestantes pseudo espontâneos nunca vieram para a rua apelar por uma verdadeira reforma do ensino, com estratégias de planificação de currículos escolares, estruturas, metodologias, orientações vocacionais ligadas às reais necessidades do País, redes escolares de educação / formação de inclusão no mundo do trabalho e outros apelos. Enfim, nunca vieram manifestar-se por uma reforma que insiste em perdurar desde 1970, data da última grande reforma do ensino, ainda no tempo do Estado Novo.

Sabemos contudo que esta última reforma poderá até ser considerada demasiado progressista, quase levada a cabo por um perigoso esquerdista – Veiga Simão – e que talvez, o ideal, seja voltar à denominada Reforma Carneiro Pacheco, operada pela Lei n.º 1941, de 11 de Abril de 1936, onde defendia somente a necessidade de saber ler, escrever e contar.

Uma vez mais estamos perante uma luta de classes. Karl Marx, nunca se debruçando a fundo sobre uma tese de Política de Educação, já propunha uma prática educacional transformadora, onde a escola teria basicamente um duplo papel:

  • desmascarar todas as relações sociais (relações de dominação e exploração) estabelecidas pelo capitalismo no âmbito da sociedade, tornando cada indivíduo consciente da realidade social na qual ele está inserido;
  • militar pela abolição das desigualdades sociais, pelo fim da dominação e exploração de uma classe sobre outra; Por último, pela transformação da sociedade.

Cabe, portanto, a cada um de nós, pais, mães, educadores e sociedade em geral, pugnar por um ideal de educação que, comprometido com a transformação da realidade social, não adultere as condições de equilíbrio e equidade dessa mesma realidade. É fundamental, portanto, a análise das condições materiais dentro da sociedade.

De certa forma, em 1970, Veiga Simão, foi neste caminho. Lembrando que, à data, poucos eram os concelhos ao redor dos grandes centros urbanos – Lisboa e Porto – que tinham escolas então ditas preparatórias, técnicas e secundárias (liceus), perpetrando uma estratégia de construção de escolas públicas que colmatassem essa lacuna, e dando assim resposta ao recrudescer de uma classe média ainda precipitante e desnorteada. Todavia o cenário no interior do país, o cenário não deixava de ser bastante negro.

Marx alertava para o risco de a escola ensinar conteúdos sujeitos a interpretações “de partido ou de classe”. Ora, o que assistimos hoje nestas manifestações da direita é exatamente a tendência de alinhar por interpretações quer de conteúdos, quer de posições e tendências, à luta de uma classe dominante, eleita, que visa encaminhar a educação dos filhos e filhas para o chamado futuro promissor e incubador de privilegiados.

O que a determinação recente do atual Governo e das forças de esquerda que o apoiam pretendem, no início de cada ciclo curricular, é tão só cumprir a lei, pondo fim a um contrato que já não se justifica em muitas escolas e que custam aos bolsos do povo. Tão só!

Tão só o que se pretende é que, num país moderno, equilibrado, justo e que proporciona iguais oportunidades para todos e todas, a escola seja pública e gratuita e, assim, os nossos filhos se manifestem com orgulho Pai, Mãe quero ir para a Escola!


Imagem: Morten Skogly – Sharpening pensils to save the planet. Alguns direitos reservados.

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