Marx e Engels eram sociais-democratas?

Bruno Góis

Há dias, o secretário-geral do Podemos Pablo Iglésias afirmou “Marx y Engels eran socialdemócratas”. Disse isso no contexto da defesa de que a coligação Unidos Podemos deveria “ocupar el nuevo espacio socialdemócrata”. Sem se estender em polémicas, Alberto Garzón, seu parceiro na coligação, acabou por realçar o anacronismo dessa afirmação incompleta. Há não muito tempo o coordenador federal da Esquerda Unida tinha publicado o artigo Alguns de nós são comunistas. Já Íñigo Errejón, número dois do Podemos, salientou o eixo patriótico, democrático e de justiça social sem aceitar etiquetas. Remeto as apreciações sobre o momento eleitoral para o artigo A Espanha do que Podemos.

Os comentários em torno da afirmação de Iglésias levam-me a recuperar um texto. Há uns meses, fui desafiado pelo jornal de jovens do Bloco de Esquerda, Pão e Cravos, para escrever sobre a história da social-democracia. Como comunista organizado no Bloco de Esquerda tive muito gosto em abraçar a tarefa, permitindo-me fazer umas notas voltadas para o futuro. Embora sejam umas meras notas, ligadas à experiência do Bloco de Esquerda, creio ajudarem a iluminar, sem sectarismos nem ilusionismos, esta aparente polémica.

Não me contes histórias, outro mundo é possível!

Quem nasceu à volta do ano 2000, tem mais ou menos a idade do Bloco de Esquerda, uma boa idade para escolher o futuro. Por essa altura, um pouco por tudo mundo largos milhares de ativistas sociais mobilizavam-se pela causa: “Outro mundo é possível”(1). As histórias de movimentos mais longínquos são úteis para essa mudança? “SIM!” porque nos ajudam a compreender por que é no século XXI ainda parece um mero sonho a ideia de que “outro mundo é possível”. E “NÃO!” porque há polémicas do passado que aconteceram em contextos tão diversos do momento atual que às vezes confundem-nos, e afastam-nos de responder às questões do nosso tempo.

Histórias do Velho Mundo

A ideia aqui é falar da social-democracia europeia. O nome “social-democracia” teve já diferentes significados e pode gerar confusões. Importa falar antes de movimentos concretos e não de ideias abstratas. Hoje, os partidos oficialmente chamados socialistas/sociais-democratas da Europa, como o PS, estão agrupados no Partido Socialista Europeu e já não são de esquerda, estão ao centro, porque fazem parte deste sistema e não do movimento que quer romper com ele. O PSD, de direita, é outra história (2).

Comecemos pelo começo. No liberalismo político inicial, a maioria das pessoas não tinha nem direito de voto, nem muitas das liberdades. Só havia liberdade e “democracia” para os homens burgueses: estavam de fora todas as mulheres, os trabalhadores em geral e, normalmente, grupos nacionais e étnicos dominados por sociedades racistas ou sistemas coloniais. Por isso, nessa altura, havia só partidos de elite, uns liberais, outros conservadores. A busca de “outro mundo”, o socialismo, estava fora do sistema político.

Quando os trabalhadores (inicialmente só os homens) conquistam o direito ao voto, nascem os partidos de massas (ou seja, partido constituídos por milhares de pessoas e com um caráter mais popular). Aparecem dois tipos de partidos de massas: os partidos sociais-democratas (construídos a partir dos movimentos de operários), e os partidos populares ou democratas-cristãos (a partir das organizações religiosas).

O nome “social-democracia” foi, portanto, até à I Guerra Mundial, o nome do movimento político que agrupava pessoas que lutavam por “outro mundo”. Por exemplo: Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) estiveram ligados ao Partido Social-Democrata Alemão (unificado em 1875); Vladimir Lenine (1870-1924) fez parte do Partido Operário Social-Democrata Russo (fundado em 1898). Nesses partidos, havia revolucionários (consideravam necessárias revoluções para a conquista do poder pelos trabalhadores e a construção desse “novo mundo”) e havia reformistas (defendiam a construção gradual do socialismo através de reformas aos sistemas liberais). Por iniciativa de Engels, partidos social-democratas (no sentido original da palavra) de vários países juntaram-se para formar a Internacional Socialista, também conhecida como Segunda Internacional (1889-1916) (3).

A I Guerra Mundial (1914-1918) mudou tudo. Os partidos sociais-democratas traíram o seu compromisso com a paz e apoiaram os governos dos respetivos países na guerra. Jogaram assim trabalhadores uns contra os outros, matando e morrendo sob as bandeiras da gula dos capitalistas por mercados e colónias.

Uma minoria das pessoas que participava nesses partidos sociais-democratas vai entrar em rutura com as suas direções e formar novos partidos inspirados na Revolução Russa de 1917, feita sob o mote “Paz, pão e terra”. A partir daí os nomes “comunista” (assumidos por essas cisões de esquerda) e “social-democrata” (mantidos pelos partidos que cederam à guerra) vão significar coisas diferentes (4).

Apesar das cedências à política da guerra, os partidos da social-democracia foram também responsáveis por progressos sociais, como a construção dos Estados Sociais após a II Guerra Mundial. Nuns casos, modelo nórdico, o Estado Social foi financiado mais por impostos. Noutros, o modelo continental, a aposta foi nas nacionalizações, entendendo-se que só um forte setor público garantia o desenvolvimento, os direitos dos trabalhadores, os serviços públicos, o progresso e a democracia.

A desistência de lutar por “outro mundo” foi o preço desses direitos sociais. Os PS’s fizeram as reformas mas aderiram ao militarismo da NATO e cercaram a democracia nos limites dos interesses dos mercados. Os mercados, com a cumplicidade dos PS’s, não tardaram a atacar essa democracia com direitos sociais. Assim que os lucros privados estiveram em causa e quando o contexto internacional mudou (com o fim do “socialismo real”), os PS’s aderiram ao que foi chamado social-liberalismo (também dito “terceira via”): começaram a tirar direitos aos trabalhadores e às trabalhadoras, a privatizar propriedade e serviços públicos, e a baixar impostos sobre os mais ricos. Começaram assim a destruir as bases do Estado Social e usaram para isso o argumento da integração europeia e da modernização.

Nos anos 1980/90, o sistema político consolidou uma alternância geralmente entre dois grandes partidos com a mesma política económica: os neoliberais (ex-conservadores ou ex-democratas-cristãos) e os sociais-liberais (ex-sociais-democratas).

Por que razão, nos dias de hoje, ainda queremos “outro mundo”?

Porque podemos ser mais livres, e porque acabar com a exploração das pessoas é possível. Por um lado, a humanidade é diversa e está sempre reinventar-se, enquanto o conservadorismo e o reacionarismo reprimem essa liberdade. Neste mundo atual, parece que ser mulher, ser uma pessoa trans, ser negro/a é um crime.

Por outro lado, a humanidade criou coisas novas e não pode ser escrava das suas próprias criações. O desenvolvimento das tecnologias, se tiver um uso adequado do ponto de vista social e ecológico, pode melhorar a vida de toda a população do planeta, respeitando o equilíbrio ambiental, os direitos das pessoas e dos outros animais. Nunca se produziu tanta comida e tanta fome, nunca se produziu tanta cultura e tanta ignorância, nunca se produziu tanto potencial de vida e tantas armas, tudo ao mesmo tempo. Não poderia ser diferente? Ou seremos eternamente idiotas?

A ação para a construção de “outro mundo”, mais livre, mais justo, incide sobre vários aspetos das nossas vidas. Para a construção desse mundo alternativo é necessário:

  1. o contributo das ideias, da experiência e das lutas dos diversos movimentos sociais (nomeadamente feministas, ecologistas, LGBTQIA*(5), sindicalistas, negros, indígenas, pelo direito à mobilidade urbana, os direitos dos animais, à vida independente das pessoas com deficiência, pela liberdade efetiva de quem consome cannabis, pela ciência, pela cultura, pela livre partilha de conhecimento e produção cultural… etc),
  2. e a formação de movimentos políticos alternativos que façam o caminho mobilizador de uma maioria social para essas transformações (que não podem prescindir do poder político (6) para se tornar efetivas).

Desde a crise do capitalismo que estalou em 2008, por um lado, o conservadorismo avança, por outro, novos partidos de esquerda têm também ganho espaço na Europa. Movimentos políticos alternativos como A Esquerda (Alemanha), a Frente de Esquerda (França), ou o Bloco de Esquerda (Portugal) são hoje resposta a dois fracassos do passado: ao “socialismo real” (da Rússia, China, Europa de Leste etc., experiências que degeneraram em ditaduras); e ao fracasso da “social-democracia” da Europa ocidental, que foi recuando, recuando, até ser inútil e, frequentemente, adversária de qualquer tentativa de construção de “outro mundo”.


Imagem: Simone Franco – Marx e Engels. Alguns direitos reservados.

Notas

1 -Foram momentos importantes: as lutas como a batalha de Seattle (contra o encontro de ministros da Organização Mundial do Comércio, 1999), os Fóruns Sociais Mundiais (iniciados em Porto Alegre-Brasil, 2001), os Fóruns Sociais Europeus (iniciados em Florença-Itália, em 2002) e outros fóruns regionais e setoriais.

2 – O nome PSD – Partido Social Democrata em Portugal é um embuste, este é membro do Partido Popular Europeu, grupo de partidos de direita, entre os quais a União Democrata Cristã (Alemanha) e o Partido Popular (Estado Espanhol).

3 – Na chamada I Internacional (1864–1876), Associação Internacional dos Trabalhadores, a quase totalidade das organizações pertencentes ainda não eram partidos no sentido que hoje atribuímos à expressão. Nessa organização internacional, as principais tendências eram os comunistas, liderados por Karl Marx, que consideravam necessário tomar o poder do Estado para realizar os interesses dos trabalhadores; e os anarquistas, liderados por Mikhail Bakunin, que queriam a imediata abolição do Estado.

4 – Os partidos comunistas irão fazer parte da chamada III Internacional, na qual gradualmente o Partido Comunista da União Soviética vai ganhando poder de comando sobre os outros partidos, ao ponto de fazer deles peças da sua política externa em vez de partidos que respondessem perante os trabalhadores e as trabalhadoras dos seus países. Na polémica entre Stalin e Trotsky, surgirá alinhada com este último uma IV Internacional, da qual hoje em dia muitas organizações se reivindicam ser herdeiras. Muitos partidos de Esquerda participam em diferentes fóruns internacionais sem formarem parte de qualquer associação internacional. Relativamente aos PS’s atuais, estes fazem parte de uma outra Internacional Socialista, fundada em 1951.

5 – A expressão mais conhecida é LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgénero), mas atualmente há mais letras nos movimentos (LGBTQIA*), a luta é mais ampla. Juntam-se assim também as questões das pessoas intersexo, assexuais, queer e outras identidades sexuais, de género e orientações relacionais (as não-monogamias).

6 – Temos de ser claros: se ideia de “outro mundo”, mesmo sendo mais justa, for apenas de uma minoria: podemos ter muita razão mas não mudamos nada; e para mudar a sociedade e o mundo não basta ter as ideias, é necessário ter o poder político democrático. Se não for assim, contem com as polícias e os exércitos para apagar da face da terra as nossas boas ideias.

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