The Handmaid’s Tale

Sara Azul Santos

Margaret Atwood escreve em 1984 o livro The Handmaid’s Tale em que desenvolve uma distopia patriarcal cristã e totalitária que, ao parecer distante, acontece em muitas civilizações contemporâneas. Esta distopia ficcionada nos Estados Unidos narra em forma de diário, o quotidiano da república de Gilead, uma ditadura militar e teocrática que oprime todos os tipos de minorias e em especial o sexo feminino.

As mulheres perdem o direito à sua liberdade e passam a obedecer ao seu marido. Existe também aquelas que, ao não se casarem com altos superiores militares, são relegadas para o papel de escravas sexuais e confinadas a um papel de procriação. Até os nomes são retirados a estas criadas: de modo a que respondam apenas pelo nome ligado ao seu comandante (a protagonista é chamada assim de offred, o que significa “de fred”, nome do patriarca da família para a qual trabalha).

“There are other women with baskets, some in red, some in the dull green of the Marthas, some in the striped dresses, red and blue and green and cheap and skimp, that mark the women of the poorer men. Econowives, they’re called. These women are not divided into functions. They have to do everything; if they can.”[1]

Existe nesta sociedade uma hierarquia que gere o sexo feminino como se de uma máquina se tratasse. Para além disto, elas estão proibidas de obter qualquer tipo de educação. Isto para além de todas as informações relativamente ao mundo antigo terem sido para sempre banidas e eliminadas. A existência de uma certa objectificação do sexo feminino acompanha o puritanismo que se alastra a esta sociedade, tendo o próprio corpo feminino como tabu generalizado.

“My nakedness is strange to me already. […] Did I really wear bathing suits, at the beach? I did, without thought, among men, without caring that my legs, my arms, my thighs and back were on display, could be seen. Shameful, immodest. I avoid looking down at my body, not so much because it’s shameful or immodest but because I don’t want to see it. I don’t want to look at something that determines me so completely”[2]

Com notícias de violação vindas do Brasil, este romance parece estar mais actual que nunca. Em pleno século XXI, existem ainda desigualdades de género no mundo em que vivemos. O final feliz deste romance parece estar cada vez mais longe, quando existem ainda países que regridem para hábitos machistas e heteronormativos. Ao escrever esta distopia nos anos 80, Atwood tinha em vista levar ao extremo uma sociedade machista para fazer o leitor pensar nas consequências de um pensamento patriarcal ainda presente na sociedade.


Notas:

[1] “Existem outras mulheres com cestas, algumas de vermelho, outras no verde das Marthas, algumas de vestidos às ricas, vermelhos e azuis e verdes baratos, que marcam as mulheres mais pobres. Chamam-lhes Econoesposas. Estas mulheres não estão divididas em funções. Têm que fazer de tudo, se conseguirem.”

[2] “A minha nudez é já estranha para mim. Cheguei mesmo a usar fatos de banho na praia? Vesti, sem pensar, entre homens, sem querer saber que as minhas pernas, os meus braços, as minhas ancas estavam à mostra, podiam ser vistas. Vergonhoso, imodesto. Evito olhar para o meu corpo, não porque me envergonha mas porque não o quero ver. Não quero olhar para algo que me determina por completo.”

 

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