A Espanha do que Podemos

Luís Fazenda 

As eleições parlamentares espanholas de 26 de junho próximo estão a ser dramatizadas ao máximo. Seis meses depois de idênticas eleições que não produziram nenhuma maioria de governo, o PP de Rajoy quer manter o poder e o controlo do aparelho de Estado, quer seguir na aplicação do programa de austeridade, salvar o capitalismo financeiro do conjunto estatal, e impedir a autodeterminação das nacionalidades como a Catalunha, Euskadi ou Galiza. Tudo em nome do mercado e do nacionalismo espanhol.

As candidaturas que se apresentam são as mesmas das anteriores eleições, com uma exceção: a novíssima coligação do Podemos e da Esquerda Unida. Desta vez vão juntos, com outras “confluências”, outras formações políticas em nacionalidades e autonomias no território.

Na esquerda, todos temos a nada secreta esperança de que a coligação “Unidos Podemos” possa vencer as eleições ou estar em posição de pilotar uma maioria parlamentar. O apoio popular que é conhecido leva a considerar essa possibilidade. Esse fator marcaria uma crise de regime e da Constituição espanholista de 78, pondo em causa no mínimo o tabu de uma só nação espanhola. Essa perspetiva levaria também a uma inversão de muitos dos ataques da direita, acobertada por Bruxelas, em termos de legislação laboral, serviços públicos, proteção contra despejos de habitação, etc.

A emergência da questão nacional catalã, prefigurando uma rutura institucional entre Barcelona e Madrid, ainda este ano, dará outro peso prático ao referendo pela independência que o Tribunal Constitucional tem vetado, às ordens do PP. Do ponto de vista europeu, um resultado desse género teria uma transcendência ainda maior, complicando seriamente os planos da Alemanha e do conclave de máfia que dá pelo nome de “eurogrupo”. Até um certo ponto, aprofundando a crise europeia pelo lado certo. O fator Unidos Podemos ajuda também a coesionar um bloco social no Estado vizinho onde possa crescer uma alternativa de modelo político e social que empreenda a necessária confrontação com as instituições europeias.

Falámos da dinâmica, falemos de conteúdos.

A marca política de Podemos é mais do que moderada. Em recente entrevista de Pablo Iglesias ao jornal La Razón, questionado sobre onde se situa a  ideologia de Podemos, a resposta foi autocentrada mas lapidar: “Talvez por ser professor de ciência política sou enormemente pragmático. Quando se governa temos uma série de opções e são enormemente limitadas, independentemente da tua ideologia. Pode-se escolher fazer uma reforma fiscal um pouco mais redistributiva, aumentar um pouco o consumo, melhorar as condições da pessoa. O elenco das políticas que se pode escolher é muito limitado. Por isso, queremos governar com o PSOE, porque numa percentagem muito ampla do seu programa estamos de acordo” (tradução, LF). Aliás, nessa entrevista, Iglesias garante que não fará braços de ferro com Bruxelas e acha que não terá nenhum insucesso do tipo do Syriza porque a economia da Espanha não se compara à da Grécia, propõe-se mesmo fazer um quarteto com Renzi (?), Hollande (??) e Costa para negociar com a Europa outras políticas públicas embora limitadas,como assume.

No programa eleitoral que foi fechado entre Podemos e Esquerda Unida, «Mudar Espanha: 50 passos para governar juntos», com interessantes desenvolvimentos em políticas democráticas, ambientais, sociais, contudo não é apontada nenhuma nacionalização de fileira ou empresa, mesmo de bens públicos. A única coisa que transpõe de relevo para os “50 passos” é o que consta do programa partidário do Podemos sobre a banca. Isto é, na medida 58 defende-se a continuação em mãos públicas dos bancos que a troika aceitou nacionalizar, caso do Bankia (10% do mercado) e do BMN, bancos que resultaram da fusão de ativos das caixas regionais, expurgados dos tóxicos que estão num “banco mau”. Não contém qualquer referência a um necessário controlo público da banca. Esta ausência de referência nos “50 Passos” é extensiva à NATO, quando antes o Podemos fazia a defesa da NATO com autonomia espanhola (medida 327 do programa partidário). A não referência ao controlo da banca e à NATO indicia as divergências existentes nestes campos entre Podemos e Esquerda Unida, esta mais radical na sua abordagem anticapitalista.

São portanto injustificadas as classificações de esquerdismo radical atribuídas à nova coligação, tão ao gosto da direita, ou a exótica discussão, esta fazendo parte de círculos de tertúlia marxista, da suposta proximidade do pensamento comunista de Gramsci nas escolhas políticas de Podemos, que são as que são, goste-se muito ou pouco.

Aliás, este período agora vencido de tentativas de formação de governo, e o próprio processo de junção na coligação Unidos Podemos, levou o partido que se ergueu do movimento dos indignados a abandonar alguma da retórica singular com que apresentou. Designadamente, a chamada “transversalidade” que fazia com que não se assumissem nem de direita nem de esquerda, acabou no momento em que se junta com o nome diabolizado de Esquerda Unida, com quem recusaram fazer há seis meses uma coligação, em nome de não perder os votos do centro, e com a proposta de coligação de governo ao PSOE, lamentavelmente considerado de esquerda, no mesmo rol… O PSOE era apontado como pertencente à “casta” oligárquica do país, não representando os de “baixo”, a “gente normal”, e hoje diz-se que os programas se não são gémeos são irmãos. Esperemos que a designação das classes sociais recupere o rigor que não tem uma sociologia de multitudes que depois dá no que se vê.

Foi Marx que na crítica do Programa de Gotha, programa que desaprovava por erróneo e reformista, disse que “mais valia um passo no movimento real do que uma dúzia de programas”, não deixando de atalhar que depois se discutiriam os princípios do movimento. Agora estamos a torcer pela mudança da relação de forças no Estado Espanhol, pela expressiva votação de Unidos Podemos e da multiplicidade de partidos nacionalistas de esquerda na Galiza, em Euskadi, na Catalunha, no País Valenciano. E essa é uma notável condição de luta.


Imagem: foto de Alberto Garzon e Pablo Iglesias.

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