O outro mundo possível de Ken Loach

 Bárbara Veiga

A edição de Cannes deste ano ficou marcada pelo discurso de Ken Loach, que lançou críticas lancinantes ao “mundo perigoso” em que vivemos, acusando a Europa de estar “nas garras de um perigoso projeto de austeridade impulsionado por ideias que chamamos neoliberais e que nos levaram para perto da catástrofe” e concluindo que “devemos ter uma mensagem de esperança. Precisamos de dizer que outro mundo é possível”.

Ken Loach ganhou, este ano, a Palma de Ouro com o filme “I, Daniel Blake”, filme que expõe os problemas da segurança social na Grã-Bretanha, assim como o impacto que a burocratização excessiva deste tipo de serviços tem na vida das pessoas.

O filme “I, Daniel Blake”, marcado pela herança do realismo britânico, movimento cinematográfico continuado por Kean Loach, narra a história de um carpinteiro de 59 anos que, sendo demasiado novo para receber pensão antecipada, também não pode trabalhar por problemas cardíacos, sendo levado a procurar ajuda na segurança social, que se mostra incapaz de dar uma resposta ao seu problema. Daniel Blake, nesse processo, é confrontado com outros casos que ajudam a construir uma ideia da degradação do Estado Social no Reino Unido. Pretende ser o retrato de uma classe operária “a passar fome na quinta maior economia do mundo”, como lembrou Loach durante o seu discurso.

O realismo social britânico sucede o “free cinema”, género que surge após a Segunda Guerra Mundial e que acaba por contaminar o cinema de ficção de uma estética realista. O “free cinema”, associado ao género documental, apresentou-se como uma aspiração ao realismo na articulação com o quotidiano das classes trabalhadoras inglesas. Os filmes desenvolvidos neste período não tinham uma ideia de responsabilidade social mas, sim, uma preocupação em retratar o comum e o quotidiano, através, por exemplo, do registo das diferentes formas de falar, nas fábricas, nas ruas, num bar, etc. O “manifesto por um cinema livre”, escrito por Lindsay Anderson e Lorenza Mazzetti, pretendeu quebrar a estagnação na forma e conteúdo, que acompanhava o Cinema dessa altura, e com o establishment e a dominação burguesa da sociedade inglesa do pós-guerra.

A primeira fase de cinema britânico, Kitchen Sink (Pia de Cozinha), caraterizava-se por um forte realismo da cultura operária. A opção realista no Cinema, o “novo cinema britânico”, retomou o legado do neo-realismo italiano e afirmou-se ainda no início dos anos 80, no início de governação de Margaret Tatcher, centrado nos conflitos sociais, políticos e econónicos, com Hanish Koreishi, Mike Leigh e Ken Loach. As mudanças que aconteceram na Inglaterra governada por Tatcher, como o fechamento de fábricas, privatização dos serviços públicos e transformação de Londres num dos mercados financeiros a nível mundial, impulsionaram este tipo de Cinema, que se baseia na captação do quotidiano e na reflexão sobre o presente e a melhor forma de entender a sociedade contemporânea.

O realismo social de Loach, fiel à tradição britânica do realismo, centra-se nos problemas das classes sociais sem privilégios sociais e financeiros, já que “uma das tradições do cinema é o de dissidência, representando o interesse das pessoas contra os que são grandes e poderosos”. Outros filmes que marcam a obra do realizador são, por exemplo, “Terra e Liberdade” (1995), “Pão e Rosas” (2000), “O Espírito de 45” (2013) ou “Brisa da Mudança” (2006), com o qual já lhe tinha sido atribuída uma Palma de Ouro, em Cannes.

O filme é uma crítica ao modelo da sociedade capitalista atual que promove as privatizações e a austeridade e “que provocou a miséria de milhões de pessoas desde a Grécia a Portugal”, em detrimento da proteção do Estado Social. No entanto, o filme, tal como o discurso de Ken Loach, passa uma mensagem de esperança. Daniel Blake pretende lançar um grito de alerta sobre a sua própria situação e fazer com que tenha ressonância pública, para acordar a sociedade e a levar a agir porque, segundo Loach, “outro mundo é possível, outro mundo é necessário”.


Imagem: Ken Loach.

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