É a ideologia, gente!

Luís Fazenda 

Acompanhei um debate num canal noticioso da tv, entre uma deputada do PSD e um seu congénere do PS, acerca do financiamento público de colégios privados. Aspeto curioso, ambos se acusavam de ter uma visão ideológica da questão e ambos a rejeitavam. Como se ter uma perspetiva ideológica fosse algo de diminuído, de sectário, de embaraçoso até. Não é possível contornar o problema de que a privatização do ensino público corresponde à opção conservadora da primazia da rede de colégios-negócio, amparados pela direita e pela igreja católica, colégios ditos de “qualidade” porque não estão obrigados aos valores da escola pública, laicidade, universalidade, igualdade.

Um presidente de câmara do PS, que alguns até queriam coligado com o Bloco de Esquerda, o edil de Caminha, queixava-se de que o colégio da terra ia perder a equitação! O argumento é ridículo, contudo cabe perguntar quem autorizou esse luxo com os nossos impostos! Como é fácil de compreender que a ideologia corresponde a um interesse social, quando o bispo de serviço da conferência episcopal vem a terreiro apoiar a campanha dos colégios privados, falar do possível desemprego de professores, mal pagos nesses colégios, quando os bispos nunca quiseram saber de dezenas de milhar de professores que foram afastados da escola pública pelo ex-ministro Crato. Sim, para princípio de conversa, é preciso afirmar que a defesa da escola pública é também uma questão ideológica: preservar o bem de todos com os recursos de todos.

A defesa do cheque ensino, para alguns frequentarem escolas privadas, escolhidos pelos colégios, à custa dos recursos de todos, é a ideologia da seleção social, do elitismo conservador. A pretensa racionalidade das políticas públicas, que estaria para além das ideologias, vulgarmente envolta em roupagens tecnocráticas, invocando autoridades de academias ultra-conservadoras, é um embuste destinado a camuflar os interesses de classe em jogo, a insistir em inevitabilidades que são meras escolhas dos Estados, a acrisolar o débil senso do conformismo.

Marcelo, o último rolling stone da política à portuguesa, vem logo reprovar que se extreme a questão, pudera, quer manter o privilégio dos privados-religiosos! Apela até, imagine-se, à posição geopolítica do país, considerando que esta “questão menor” enfraquece o portugalzinho!

A classe dominante não quer ceder nas suas posições sociais e, muito menos, quer ceder nos aparelhos ideológicos que reproduzem a sua supremacia como classe, no recrutamento de muitos dos que vão ser os seus futuros agentes no mercado e no poder. Como se vê, este acirramento social, que já atrapalha o governo apesar da determinação da secretária de Estado da Educação, diz respeito aos alunos subsidiados e não ao ensino privado em geral. Mas ficamos com a perceção do reduto de classe que é o ensino privado. Não generalizo, em todo o caso, porquanto não confundo com muito do ensino cooperativo ou escolas particulares do ensino artístico.

Não reprovo o fanatismo ideológico da direita. Corresponde aos seus interesses e objetivos. Indicia o alvo do nosso combate alternativo. O pior que as esquerdas podem fazer é iludir que têm razões de Razão, um argumentário sustentado na sua visão e interesse social. O centrismo sem ideias, órfão da social-democracia e do liberalismo, é o lugar mal afamado onde não se quer passear e que os eleitores aborrecem mais e mais.


Imagem: GPI – Quirky school signAlguns direitos reservados.

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