Que fazer com esta Europa?

Bruno Góis

A nossa Europa não é uma declaração política feita por Schuman, em 1950. É a derrota dos nazis pelos aliados, em 1945. É a Europa antifascista.

O texto fundador do Bloco de Esquerda, em 1999, afirmava: “a Europa em que Portugal tem interesse e vantagem em participar é a que sabe projectar o melhor da sua História no futuro. É uma Europa capaz de valorizar todas as identidades, das nacionais às de classe, das migrantes ao multiculturalismo, e fazê-las convergir na defesa das suas conquistas civilizacionais e no combate à barbárie que a globalização espalha pelo planeta” (Começar de Novo, 1999).

Recordando a letra e o espírito do Começar de Novo podemos continuar a afirmar que a Europa carrega consigo grandes responsabilidades: por um lado, o negativo, com o colonialismo e as duas guerras mundiais, e por outro, o positivo, as grandes conquistas emancipatórias e civilizacionais dos trabalhadores e dos povos, da Revolução Francesa à Revolução de Outubro, da Revolução Industrial aos direitos sociais conquistados pelo movimento dos trabalhadores e por todos os movimentos de emancipação social, nacional, das mulheres, das identidades LGBTI, e de defesa do ambiente e dos interesses dos animais.

Como é que se defende essa Europa “que sabe projectar o melhor da sua História no futuro”? Quando vemos movimentos ultraconservadores e neofascistas a tomar conta da política na Polónia e na Hungria, vemos também que esse ideal de Europa está em perigo. E quem queira dizer que isso são coisas do leste, basta olhar para o crescimento da Frente Nacional na França e da AfD na Alemanha para constatar que a política reaccionária e neofascista está em força no espaço europeu.

Alguns “verdes europeus” e outros “federalistas democratas” falam em democratizar a Europa e defendem grandes frentes que vão das esquerdas radicais até às direitas moderadas (inclusive) para fazer face ao avanço fascista. Escutei há uns meses, numa conferência europeia em Madrid, Varoufakis a defender essa tese para depois concluir que os atuais tratados europeus não prestam, mas temos de ser a favor deles. Porquê? Porque, segundo o ex-ministro grego, dizer Não aos tratados nos colocaria ao lado da extrema-direita. Ou seja, em nome da Europa-que-não-existe ficamos a defender a Europa-realmente-existente – e o último que apague as luzes.

Por muito boa que seja a intenção, ela não é respaldada pela realidade e revela vistas curtas. O crescimento das desigualdades sociais e entre os Estados-Membros é que está a “desintegrar” a Europa. As fugas para a frente só reforçam o federalismo autoritário, poder factual das potências europeias e dos interesses das classes dominantes. A transferência massiva de recursos públicos para salvar a banca e outros negócios privados, o elevado desemprego, o corte e a destruição dos serviços públicos são consequência das políticas europeias atuais. A continuidade dessas políticas provoca o endurecimento do poder político: quer para conter os protestos populares, por um lado, quer como resultado da ascensão do populismo neofascista, por outro.

Enquanto isso, os aspetos mais negativos da União Europeia estão a ser aprofundados. Por exemplo, ainda que as intermitências dos muros internos lembrem o passado, o outro lado de Schengen, o muro de fora, está sólido e cresce. Estão aí para o provar: os arames farpados e negócio UE-Turquia para erguer barreiras às refugiadas, aos refugiados e migrantes. Financiar regimes criminosos, como o de Erdoğan, na sua vizinhança é uma longa tradição da Europa comunitária.

Os grandes horizontes da transformação social e ambiental passarão por grandes espaços, o socialismo para os povos europeus tal como para os de outros continentes precisará da grande escala da cooperação internacional entre muitas democracias. Essa aspiração ao futuro não nos deve, porém, turvar a vista perante as lutas presentes. A tarefa dos nossos dias é defender as classes populares de cada país contra o poder da União Europeia.


Imagem: cartaz do Bloco de Esquerda em 2007.

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